Em meio à mudança na percepção dos Estados Unidos como local seguro para manter ativos de segurança, países da Europa se mobilizam numa retirada massiva de ouro do Fort Knox, o complexo fortificado no estado de Kentucky, onde se encontra cerca de metade das reservas de ouro do governo dos EUA, conforme informou o Deutsche Welle.
O banco central da Holanda decidiu transferir cerca de 86 toneladas (95 toneladas americanas) de ouro de Nova York para Londres, expondo o desconforto de governos europeus com a possibilidade de restrições de acesso a ativos estratégicos em um momento de tensão geopolítica.
Políticos da Alemanha e da Itália, detentoras da segunda e terceira maiores reservas de ouro do mundo, respectivamente, passaram a defender que parte desse patrimônio seja repatriada dos Estados Unidos. O movimento reflete o aumento da preocupação europeia com a imprevisibilidade do governo de Donald Trump e o agravamento das tensões entre Washington e a União Europeia, incluindo as ameaças americanas de anexar a Groenlândia.
Sebastien Tillett, analista da Oxford Economics, classifica o confisco como ‘risco extremamente remoto’, mas ressalta que a preocupação prática é a liquidez imediata sob estresse.
“A preocupação mais relevante é que os ativos mantidos em outra jurisdição possam se tornar temporariamente inacessíveis em um cenário extremo de sanções, questões legais ou geopolíticas”, disse ele à DW.
Segundo Tillett, os bancos centrais estão prestando maior atenção a onde as reservas são mantidas, bem como aos ativos que detêm, principalmente para maximizar a resiliência e a flexibilidade das reservas.
De acordo com o levantamento do Conselho Mundial do Ouro, as instituições acumularam, em média, 1.000 toneladas por ano no período mais recente de quatro anos — o dobro da média registrada na década anterior, de 500 toneladas anuais.
Corrida do ouro
Paris tomou rumo semelhante. Entre julho de 2025 e janeiro de 2026, a França zerou sua exposição remanescente ao ouro custodiado pelo Federal Reserve (Fed) de Nova York. O presidente do Banco da França, François Villeroy de Galhau, afirmou à época que a decisão não teve motivação política. A sequência de movimentações europeias, porém, sugere um reposicionamento amplo das reservas.
O Banco Central dos Países Baixos (DNB) alegou “instabilidade geopolítica” e que a transferência entre diferentes jurisdições melhoraria seu “preparo para crises”.
O gestor do fundo soberano da Noruega, de US$ 2,3 trilhões, também anunciou na semana passada que pretende reduzir de forma significativa a exposição aos títulos do Tesouro americano.
A Alemanha, porém, mantém posição oposta. O Bundesbank chegou a transferir 300 toneladas de volta da América do Norte entre 2013 e 2017, mas ainda conserva mais de mil toneladas no país. No ano passado, o banco declarou ‘não ter dúvidas’ de que o Fed de Nova York é um parceiro confiável para a custódia de suas reservas.
Reino Unido tem o mercado de ouro mais líquido do mundo
A escolha de Londres não foi acidental. Krishan Gopaul, do World Gold Council, destaca que o Reino Unido concentra o mercado de ouro mais líquido do mundo. “Em um momento de crise, é lá que você quer ter seu ouro”, disse.
O Banco da Inglaterra atua como um dos principais custodiantes globais, com cerca de 400 mil barras de ouro, avaliadas em aproximadamente US$ 270 bilhões (€ 232 bilhões), o que torna a praça financeira um ponto natural para estacionar reservas de emergência.
Ouro ganha peso como ativo de segurança desde 2008
O movimento recente tem raiz mais longa. Desde a crise financeira global de 2008, bancos centrais vêm comprando ouro de forma mais acelerada. Pesquisa do World Gold Council indica que a média anual de entradas dessas instituições passou de 500 toneladas na década anterior para 1.000 toneladas nos últimos quatro anos. O metal se consolidou como ativo de refúgio em meio a crises soberanas, pandemia e conflitos prolongados.
As decisões reforçam um critério novo na gestão de reservas: onde o ouro está fisicamente guardado passou a importar tanto quanto o volume. Gopaul observa que a proximidade de um centro de negociação rápido se tornou “incrivelmente importante”.
Nota de transparência: Este conteúdo contou com o auxílio de inteligência artificial na seleção e organização das informações, com base nas fontes citadas, e foi revisado por jornalistas antes da publicação.











