Os juros dos títulos públicos dos Estados Unidos (treasuries) voltaram a disparar em maio e reacenderam o alerta nos mercados globais. O movimento mais forte está concentrado nos papéis de longo prazo, em meio à piora das expectativas para inflação, política monetária e dívida pública americana.
Nesta semana, o rendimento do treasury de 30 anos atingiu 5,14% ao ano, marcando o maior nível em 19 anos. Já o título de 10 anos chegou a 4,6% nesta quinta-feira (21), maior patamar desde janeiro de 2025. Nesse cenário, a escalada dos yields (retornos pagos pelos títulos) ocorre em meio à combinação de inflação persistente, economia americana resiliente, déficits fiscais elevados, aumento da emissão de dívida e maior percepção de risco no cenário global.
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Fernando Saad, analista de alocação e inteligência da Avenue, destaca que o risco de juros longos voltou para o centro do palco. Na prática, segundo o especialista, isso significa rever premissas de custo de capital, ser mais seletivo nos ativos de risco e entender que o valuation de empresas muito dependentes do crescimento de longo prazo tende a ser mais sensível a esse novo patamar de treasuries.
Saad avalia que “em um futuro próximo, o juro longo dos Estados Unidos pode continuar, sim, sendo um dos principais vetores tanto para a trajetória da economia americana quanto para o comportamento dos mercados globais como um todo”.
Mercado eleva apostas em alta de juros pelo Fed
A deterioração do cenário inflacionário levou investidores a reverem as expectativas para os juros americanos. O mercado já começa a considerar a possibilidade de novas altas pelo Federal Reserve (Fed).
Nesta quinta-feira (21), o FedWatch apontava mais de 62% de chance de elevação dos juros em dezembro. Dois dias antes, a probabilidade era de 56%.
A mudança ganhou força após a divulgação de dados de inflação acima do esperado nos Estados Unidos. Os índices de preços ao consumidor (CPI) e ao produtor (PPI) vieram mais fortes, especialmente nos componentes ligados a energia e transporte.
E se o Fed realmente passar a sinalizar que uma alta se aproxima? Para o investidor local, há uma oportunidade clara: aumentar a fatia do portfólio na renda fixa em dólar.
Saad explica que tem algo para o juro longo que muitos investidores deixam passar batido, que o próprio Kevin Walsh, que agora ocupa a cadeira de presidente do FOND, tem defendido: uma redução mais acelerada do balanço do Fed.
“Em outras palavras, menos demanda estrutural por treasuries de longo prazo por parte do Banco Central, e se esse movimento realmente for mais adiante, há uma tendência em adicionar ainda mais volatilidade para as pontas longas da curva, porque o mercado vai precisar absorver uma maior volumetria de títulos, com esse comprador cativo podendo resfriar suas aquisições a mercado, e aí os investidores podem exigir mais prêmios por longo prazo”, avalia o especialista.
Guerra com Irã mudou percepção dos investidores
No início de 2026, o consenso do mercado apontava para cortes de juros nos Estados Unidos. Havia também a expectativa de que o conflito envolvendo o Irã teria impacto limitado sobre o comércio global de petróleo. Esse cenário mudou com a intensificação das tensões no Oriente Médio.
“O que mudou de lá para cá? O conflito com o Irã ganhou tração, trouxe uma alta no prêmio de risco geopolítico e reacendeu as preocupações com choque de oferta, principalmente via petróleo e preço de fretes”, explica Saad.
Segundo o analista, os efeitos já começaram a aparecer nos indicadores de inflação americanos: “Semana passada a gente teve o PPI e o CPI dos Estados Unidos, ou seja, a inflação ao produtor e consumidor americano, mais aquecidos do que se antecipava, com núcleos ainda pressionados e componentes ligados à energia e transporte voltando a incomodar.”
Com isso, o mercado voltou a reprecificar a trajetória de juros nos EUA. Para Saad, essa reprecificação agora é de uma leitura de que o Fed terá menos espaço para cortar juros para conseguir ancorar as expectativas.
Nesse contexto, “mais recentemente, a gente volta a ter apostas de que o Fed vai precisar aumentar as taxas de juros dos Estados Unidos, inclusive com membros do FOND, que é o Comitê de Política Monetária do Fed, sinalizando que elevar os juros pode sim ser necessário caso a inflação persistisse ainda mais”, contextualiza.
Segundo o especialista, “isso acaba empurrando a curva inteira para cima e, na parte longa, fez com que o tesouro de 30 anos voltasse a níveis que a gente não via desde 2007.”
Alta dos Treasuries afeta mercados globais
A alta das taxas longas afeta diretamente a economia americana e os mercados globais. Saad salienta que as taxas longas movem a economia real: “São elas que balizam o custo de financiamento de longo prazo das empresas, impactam diretamente o valuation dos ativos de risco e definem o custo de crédito para as famílias”.
O impacto já aparece no setor imobiliário dos EUA. Segundo a Freddie Mac, as taxas das hipotecas de 30 anos subiram de níveis abaixo de 6% para quase 6,5% desde o início da crise no Oriente Médio.
“Isso pode não só esfriar a demanda por casas, mas pode também pressionar de tabela setores como o de construção e o de consumo durável”, diz o especialista.
Treasuries reforçam tese dos juros altos por mais tempo
O avanço dos Treasuries reforçou no mercado a tese do “higher for longer” — expressão usada para descrever um cenário de juros elevados por um período prolongado.
“Recentemente, diversas gestoras passaram a defender que a gente está entrando numa nova fase, numa nova era de juros estruturais mais altos, o higher for longer, com juro neutro mais elevado que o período pré-pandêmico”, afirma Saad.
Segundo ele, esse movimento reflete déficits fiscais persistentes, maior diversificação global dos investimentos e aumento do prêmio exigido para carregar títulos longos.
“Nesse contexto, choques como o do conflito no Oriente Médio reforçam essa narrativa. Eles não só adiam os cortes do FED, como elevam a probabilidade de que a curva longa permaneça em patamares historicamente mais altos por mais tempo.”
Estagflação volta ao radar
O mercado também voltou a discutir o risco de estagflação nos Estados Unidos — cenário de inflação elevada combinada com desaceleração econômica.
“Isso tem implicações importantes para a inflação e crescimento. De um lado, o choque de oferta pressiona os preços. De outro, o aperto nas condições financeiras via juros longos mais altos atua como um freio sobre a atividade”, afirma Saad.
“O balanço entre esses dois vetores é o que vai determinar se os Estados Unidos caminham para, por exemplo, uma desaceleração saudável, controlada, que pode ser inclusive o desejo do FED, ou para um cenário mais próximo de uma estagflação, uma stagflation mais intensa, em que a inflação ainda teima em ficar elevada da meta, mesmo com o crescimento perdendo força.”
Apesar disso, o mercado praticamente deixou de precificar uma recessão forte nos EUA. “É legal notar aqui que a gente quase para de ter a narrativa de um possível cenário de recessão; inclusive, a pesquisa recente do BofA reforça esse ideal de que os gestores quase não precificam mais um cenário de hard landing. “E para o investidor, a mensagem central é que o risco de juros longos voltou para o centro do palco”, conclui o especialista.
Goldman Sachs vê espaço para mais alta dos Treasuries
O Goldman Sachs avalia que o movimento ainda não terminou. Segundo Phillip Lee, chefe de Vendas de Taxa de Dinheiro Real da divisão Global Banking & Markets do banco, os yields seguem pressionados por inflação persistente, crescimento resiliente, déficits elevados, forte emissão de Treasuries e preocupações fiscais.
Na avaliação do executivo, investidores continuarão exigindo prêmios maiores para manter posições em títulos longos diante da expectativa de inflação mais alta e maior volume de dívida emitida pelo Tesouro americano.
O Goldman Sachs também destaca que os dados econômicos mais fortes reduziram as apostas em cortes de juros e reforçaram o cenário de taxas elevadas por mais tempo.
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Alta dos Treasuries impulsiona o dólar
A alta dos juros americanos também impulsionou o dólar. A moeda voltou ao patamar de R$ 5 nesta semana, refletindo a migração de capital para os Estados Unidos.
Com yields mais elevados, os Treasuries atraem mais recursos globais, tanto pela remuneração maior quanto pela perspectiva de fortalecimento da moeda americana.
Pesquisa do Bank of America com 200 gestores responsáveis por US$ 517 bilhões em ativos mostrou que 62% dos entrevistados projetam rendimento de 6% para os Treasuries de 30 anos. Atualmente, a taxa está em torno de 5,14%.
Outros 20% dos gestores esperam rendimento de 4% para os papéis longos.











