Existem cidades brasileiras que reescreveram a história do continente. No sudeste do Piauí, no sertão semiárido, um município de apenas 35 mil habitantes guarda um parque nacional com mais de 1.200 sítios arqueológicos, pinturas rupestres de até 25 mil anos e uma fundação criada por uma arqueóloga que mostrou ao mundo que os primeiros humanos das Américas chegaram muito antes do que se pensava. Também abriga dois museus dedicados à pré-história do continente.
Como uma cidade do sertão piauiense virou a Capital Brasileira da Arqueologia?
São Raimundo Nonato fica no sudeste do Piauí, a cerca de 520 km de Teresina, capital do estado. Foi fundada em 1917 e elevada a município em 1938. O nome é uma homenagem ao santo padroeiro, celebrado em 31 de agosto. Hoje, a cidade tem cerca de 35 mil habitantes e recebe o apelido de Capital Brasileira da Arqueologia.
O título nasceu da presença do Parque Nacional Serra da Capivara, o maior conjunto arqueológico das Américas. As descobertas na região transformaram a cidade em ponto de referência para pesquisadores do mundo inteiro. O Aeroporto de São Raimundo Nonato, inaugurado em 2015 após uma década de obras, com investimento de R$ 20 milhões, ampliou o acesso ao destino. A infraestrutura hoteleira e a rede de guias credenciados foram sendo construídas ao longo das últimas décadas para receber os visitantes atraídos pelo parque.

Por que a Serra da Capivara tem as pinturas rupestres mais antigas das Américas?
Segundo o portal oficial da UNESCO, o Parque Nacional Serra da Capivara foi inscrito na Lista do Patrimônio Mundial em 13 de dezembro de 1991. Ocupa cerca de 130 mil hectares e envolve quatro municípios: São Raimundo Nonato, João Costa, Brejo do Piauí e Coronel José Dias. Foi criado em 5 de junho de 1979, pelo Decreto nº 83.548, e é administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) em parceria com a Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM).
A área concentra mais de 1.200 sítios arqueológicos com aproximadamente 30 mil pinturas rupestres. Segundo a UNESCO, algumas datam de 25 mil anos, o que faz do parque um testemunho excepcional de uma das mais antigas comunidades humanas da América do Sul. Pesquisas posteriores identificaram vestígios ainda mais antigos, com hipóteses que chegam a 50 mil anos. As descobertas romperam com a teoria clássica de que o continente teria sido povoado apenas há 17 mil anos. O bioma é a Caatinga, com paredões areníticos que emolduram desfiladeiros, cânions e cachoeiras sazonais.

O que ver no Museu do Homem Americano fundado por Niède Guidon?
A Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM) foi criada em 1986 pela arqueóloga Niède Guidon. Nascida em Jaú, em São Paulo, em 12 de março de 1933, Niède ouviu falar das pinturas rupestres pela primeira vez em 1963, quando trabalhava no Museu Paulista da USP. Exilou-se na França durante a ditadura militar e voltou ao Brasil para liderar a primeira missão franco-brasileira à região em 1973.
Em 1990, mudou-se definitivamente de Paris para São Raimundo Nonato, onde viveu até sua morte em 2025. O Museu do Homem Americano fica na sede da FUMDHAM, a 4 km do centro, e reúne fósseis, esqueletos humanos pré-históricos, ferramentas líticas, cerâmicas e réplicas das principais pinturas rupestres do parque. Foi inaugurado em 1998 e é referência para pesquisadores brasileiros e estrangeiros. O acervo documenta a trajetória humana desde a evolução dos hominídeos até a chegada dos colonizadores europeus.
Que sítios arqueológicos completam o roteiro no parque?
O parque conta com 14 circuitos de visitação, com trilhas que variam de 2 a 10 km de extensão. As visitas guiadas são obrigatórias, com credenciamento pelo CADASTUR. Confira abaixo os principais sítios:
- Boqueirão da Pedra Furada: o mais visitado, com a pintura rupestre símbolo do parque em paredão de arenito.
- Desfiladeiro da Capivara: cenário grandioso com paredões que emolduram trilhas em meio à Caatinga.
- Serra Branca: sítios com pinturas de cenas cerimoniais e cotidianas, cores em tons alaranjados.
- Serra Talhada: painéis com representações raras de cenas de parto humano.
- Sítio do Meio (Hombu): uma das maiores concentrações de arte rupestre do parque.
- Baixão das Andorinhas: cânion com trilha e cachoeiras sazonais.
- Cerâmica Serra da Capivara: reproduz as figuras rupestres em pratos, canecas e cerâmicas artesanais.
Como é o clima em São Raimundo Nonato?
A cidade tem clima semiárido, com temperaturas altas e chuvas concentradas no primeiro semestre. Confira abaixo as médias por estação:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a São Raimundo Nonato?
A cidade fica a cerca de 530 km de Teresina, capital do Piauí, e 305 km de Petrolina, na Pernambuco. O acesso rodoviário principal é pela BR-020 e depois pela PI-140. O trajeto de carro leva em média sete horas partindo da capital piauiense.
O Aeroporto de São Raimundo Nonato recebe voos regionais. O Aeroporto Internacional Senador Petrônio Portella, em Teresina, o Aeroporto de Petrolina e o Aeroporto Internacional dos Guararapes, em Recife, são alternativas com voos regulares das principais capitais brasileiras. Muitos visitantes fazem transfer privado de Petrolina, com trajeto pela BR-407. A cidade permite roteiros combinados com o Parque Nacional Serra das Confusões e outras cidades históricas do Piauí.
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Uma cidade onde a pré-história dividiu o mesmo endereço com a ciência que mudou a arqueologia mundial
Poucos endereços do Brasil conseguem juntar em pouco espaço o maior conjunto de arte rupestre das Américas, dois museus dedicados à trajetória humana no continente, o legado de uma arqueóloga que dedicou meio século à região e um parque de 130 mil hectares reconhecido pela UNESCO. A combinação faz de São Raimundo Nonato um destino cultural e completo no sertão piauiense, com camadas que atravessam de 25 mil anos atrás ao ritmo contemporâneo da pesquisa científica internacional.











