O agro entrou no centro da discussão eleitoral nesta segunda-feira (10), durante a 25ª edição do Congresso Brasileiro do Agronegócio, realizado em São Paulo pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) e pela B3. Os candidatos à Presidência da República, Romeu Zema (Novo-MG), Ronaldo Caiado (PSD-GO) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ), apresentaram propostas para o setor e detalharam medidas que pretendem adotar caso sejam eleitos em 2026.
As participações ocorreram por meio de vídeos enviados ao Congresso, em resposta a três questões sobre os principais desafios do agronegócio: como ampliar a competitividade internacional do Brasil, de que maneira utilizar tecnologia para preservar e ampliar a liderança brasileira e quais condições institucionais e regulatórias precisam ser criadas para estimular investimentos.
As propostas foram apresentadas no painel “Novo Governo: Prioridades e Compromissos”, que discutiu uma agenda para o próximo ciclo de governo.
Zema mira burocracia, contas públicas e abertura comercial
Romeu Zema concentrou sua apresentação nos obstáculos regulatórios, no equilíbrio das contas públicas e na necessidade de ampliar a inserção internacional do Brasil. O ex-governador de Minas Gerais apontou a burocracia como um dos fatores que reduzem a capacidade de inovação do agronegócio brasileiro.
Segundo ele, produtos como defensivos agrícolas de última geração, já aprovados e utilizados nos Estados Unidos, na Europa e no Japão, podem permanecer durante anos aguardando autorização no Brasil. “Enquanto isso, o produtor combate praga com ferramenta velha e paga muito mais caro por isso”, afirmou.
Como parte de seu plano de governo, o candidato disse que pretende eliminar essa fila de aprovação, com análises submetidas a prazos, decisões técnicas e reconhecimento das autorizações concedidas por agências consideradas de referência no exterior.
Zema também destacou o potencial biológico brasileiro e criticou a demora para a aprovação de produtos biológicos desenvolvidos no país. Entre suas propostas estão a modernização do marco regulatório da edição gênica de sementes, o reforço da segurança jurídica sobre propriedade intelectual e mudanças para destravar a legislação do CGEN e as regras de patentes relacionadas ao patrimônio genético.
Impactos do Plano Safra e juros sobre o agro
Na política de crédito, Zema questionou a efetividade do Plano Safra. Segundo o candidato, dos R$ 525 bilhões anunciados pelo governo atual, somente R$ 97 bilhões possuem equalização — mecanismo pelo qual o governo assume parte do custo dos juros para reduzir a taxa cobrada do tomador. O restante, segundo ele, “é anúncio”.
Zema também criticou o fato de o Tesouro financiar determinados contratos com juros mais baixos, enquanto o restante da economia, incluindo o produtor rural, enfrenta taxas elevadas.
“Crédito rural barato não se decreta em juros, se constrói com contas públicas em ordem”, declarou. Nesse sentido, seu plano prevê ajuste fiscal, geração de superávit primário, controle da dívida pública e redução da Selic, taxa básica de juros da economia.
A dinâmica fiscal aparece como um dos principais pontos de impacto para o agro em sua proposta. A redução dos juros, caso acompanhada por melhora das contas públicas, afetaria o custo de financiamento do setor e o serviço da dívida.
Exportações e Mercosul
Zema também colocou a abertura comercial entre as prioridades. Segundo ele, a corrente comercial brasileira corresponde a 35,5% do PIB, enquanto a média mundial chega a 56,6%. Na avaliação do candidato, o Brasil comercializa menos do que poderia e, por isso, tem seu potencial limitado.
Caso seja eleito, afirmou que pretende “colocar a política externa a serviço de quem produz” e flexibilizar o Mercosul para que o Brasil possa negociar acordos comerciais individualmente, sem precisar aguardar os demais integrantes do bloco.
Ele também defendeu a conclusão da entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
“É esse o compromisso que eu assumo com vocês: menos burocracia, mais mercado, mais tecnologia e um Brasil finalmente conectado ao mundo”, concluiu Zema.
Caiado aposta em segurança jurídica e redução da dependência de insumos do agro
Ronaldo Caiado apresentou uma agenda concentrada em segurança jurídica, infraestrutura, financiamento, tecnologia e diversificação dos mercados de exportação.
O ex-governador de Goiás afirmou que pretende propor a constitucionalização do marco temporal, com indenização, além da criação de um fundo nacional de indenização fundiária. A medida seria inserida em um protocolo de coexistência produtiva, diante da necessidade de encontrar solução para 1,6 milhão de unidades.
O candidato também prometeu estabelecer um marco legal de segurança jurídica, com prazo único de 180 dias para decisões administrativas. Já na área ambiental, sua proposta prevê a estabilização do Código Florestal, com proibição de mudanças retroativas, além de um sistema de licenciamento por adesão. Para empreendimentos de baixo impacto, a previsão é de respostas em até 30 dias, enquanto o prazo médio de licenciamento seria reduzido de 24 para seis dias.
Caiado também defendeu a criação de uma coordenação central para a agenda do agro, por meio de um comitê interministerial permanente envolvendo os ministérios e áreas de agricultura, energia, comércio exterior e meio ambiente.
Fertilizantes são tratados como risco estratégico
A dependência brasileira de fertilizantes foi outro ponto central da apresentação de Caiado. Segundo ele, o Brasil importa 96% dos insumos utilizados e 80% dos fertilizantes nitrogenados. Na avaliação do candidato, essa dependência representa o maior risco estratégico da economia brasileira.
Em seu Plano Nacional de Defesa, Caiado estima reduzir essa dependência em 50% até 2035, com aumento da produção nacional e diversificação dos fornecedores de insumos. A proposta prevê substituir 25% da demanda atualmente atendida por importações.
Na logística, o candidato afirmou que o custo brasileiro representa entre 15% e 25% do valor da produção. Para reduzir esse peso, pretende criar um marco regulatório para as hidrovias, promover concessões integradas envolvendo ferrovias e hidrovias e implementar um plano de armazenagem com capacidade de até 100 milhões de toneladas. Segundo Caiado, as medidas poderiam reduzir em até 30% os custos de frete.
Crédito, seguro e mercado de capitais
Caiado também propôs mecanismos públicos para redução de riscos, garantias, seguros e equalização do crédito, além da padronização de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e de outros ativos financeiros. A intenção, segundo ele, é facilitar a entrada de capital global no setor.
O candidato também prometeu criar o Programa Nacional de Seguro Rural, com resseguro soberano e seguro paramétrico por satélite. Nesse modelo, parâmetros previamente definidos são utilizados para determinar a cobertura do seguro. A proposta é alcançar mais da metade da área plantada.
Na área de pesquisa e inovação, Caiado afirmou que a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) terá orçamento plurianual blindado, com piso vinculado ao PIB do agro. Também estão entre suas propostas a criação de um marco legal moderno para edição genética e de centros de inteligência artificial aplicada ao campo.
Caiado quer reduzir dependência da China
A concentração dos destinos das exportações também foi apontada como um fator de vulnerabilidade. Segundo Caiado, a China responde atualmente por 40% das exportações brasileiras do agronegócio. Para reduzir essa concentração, sua proposta é adotar uma política comercial de diversificação ativa, ampliando a presença brasileira no Sudeste Asiático, na Índia, na Indonésia, no Vietnã e na Coreia do Sul.
O plano também prevê maior presença no Oriente Médio e a criação de uma estratégia para a África, com 24 países prioritários.
Caiado afirmou ainda que pretende implementar medidas para ampliar o poder de barganha do Brasil diante de outros mercados e contribuir para a estabilização dos preços recebidos pelos produtores.
“Deixaremos de ser réus na narrativa global para sermos autores da série e que o Brasil atuará na construção de normas de certificações internacionais com redes reforçadas de ativos agrícolas”, declarou.
Na área de sustentabilidade, o candidato propôs ampliar a rastreabilidade da produção, da fazenda ao consumidor, e criar um selo Brasil sustentável reconhecido nos mercados premium.
“Nossa sustentabilidade deixará de ser tese de defesa e será agora parte do componente de alta qualidade. Rastreabilidade da fazenda ao consumidor, um selo Brasil sustentável, reconhecido nos mercados premium, com um prêmio de preço de 8% a 15% com benefício para o produtor”, afirmou.
Caiado disse ainda que pretende integrar alimentos, energia, ciência e sustentabilidade em uma estratégia nacional, tratando a agricultura como eixo estruturante de um projeto de país.
Flávio Bolsonaro coloca fiscal e comércio exterior no centro da corrida ao Planalto
Flávio Bolsonaro concentrou sua apresentação na situação fiscal e nos efeitos da dívida pública sobre o agronegócio e outros segmentos da economia.
Seu plano para o setor prevê financiamentos em condições consideradas atrativas e a criação de fundos de investimento que possam ser acionados imediatamente em situações emergenciais, sem burocracia, para que os produtores tenham acesso aos recursos.
Na política comercial, o candidato criticou os recentes conflitos do Brasil com outros países e apontou o que considera uma condução inadequada das relações externas como um obstáculo às exportações.
“O atual governo está com uma briga com o mundo, com os Estados Unidos, com a Argentina, com o Paraguai… descumpre protocolos da Europa, não tem força para negociar com a China, além da sobretaxa à nossa carne que é exportada para lá… Então, nós temos que imediatamente buscar pragmatismo comercial nessas relações”, afirmou.
Flávio Bolsonaro também disse que seu governo “será de utilidade”, mas terá perfil técnico, com descentralização, maior celeridade e aceleração das concessões relacionadas ao licenciamento ambiental.
Segundo o candidato, o Brasil está perdendo produtividade para a Europa e para outros países. Como resposta, seu plano prevê uma política de expansão da armazenagem, com o objetivo de ampliar a previsibilidade e a segurança logística.
A maior capacidade de armazenamento, segundo ele, também aumentaria o poder de negociação do produtor sobre os preços de exportação das commodities.
Burocracia, impostos e dívida prejudicam economia do agro
Flávio Bolsonaro afirmou que pretende ampliar o reconhecimento do agronegócio, dos grandes produtores à agricultura familiar. Segundo ele, a burocracia, a carga tributária e o crescimento da dívida pública prejudicam a atividade econômica.
“Seja por causa da alta burocracia, seja por causa da alta carga tributária, seja por causa de termos um governo que é um grande gastador, que se endivida a níveis estratosféricos”, disse.
O candidato se comprometeu a aumentar a arrecadação e, ao mesmo tempo, reduzir impostos. Também prometeu um governo moderno, com uso de inteligência artificial para melhorar a gestão pública. A tecnologia, segundo ele, seria utilizada para “dar uma governança de verdade no governo, com muito mais justiça e inteligência”.
Flávio Bolsonaro afirmou ainda que pretende investir integralmente no agro e fazer com que o Brasil esteja entre as sete maiores potências do mundo.
Economista vê ajuste fiscal como ponto de partida para crescimento do agro
As propostas apresentadas pelos candidatos também foram analisadas durante o painel por Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados. Ao comentar as falas de Flávio Bolsonaro, Vale afirmou que o primeiro ano de um eventual novo governo deveria ser marcado por uma reorganização fiscal.
“Estamos num cenário em que a gente precisa dar alguns passos atrás no primeiro ano de governo para organizar a agenda fiscal”, avaliou.
Segundo o economista, dois pontos são particularmente relevantes. O primeiro é a questão econômica, com a redução dos juros e, consequentemente, a diminuição do valor da dívida em relação ao PIB ao longo do tempo.
O segundo é político: para Sérgio Vale, o Congresso Nacional não pode permanecer marcado pela polarização. Ele citou como exemplos os Congressos da Índia, China, Europa e Japão e afirmou que, no Brasil, existe uma “grande polarização ideológica grave”.
Vale também defendeu a criação de uma comissão interministerial técnica, e não política, para conduzir as discussões relacionadas à produtividade. Segundo ele, estruturas semelhantes existem no Chile, na Austrália e em alguns países europeus.
A questão microeconômica, relacionada à produtividade, seria particularmente problemática porque, na avaliação do economista, o Brasil está perdendo espaço nessa área.
OCDE e agro tropical podem ampliar inserção do Brasil
Ao avaliar a proposta de Zema, Vale destacou a entrada na OCDE como um dos pontos de maior relevância. Segundo o economista, trata-se de um caminho estruturado, que coloca o Brasil em contato com parâmetros internacionais e amplia sua capacidade de influência regulatória. A organização, afirmou, produz e organiza normas relacionadas a temas como regulação de dados e de ativos.
Vale ponderou, contudo, que o Brasil atualmente não atravessa um momento especialmente favorável para ampliar sua inserção regional, internacional ou global.
Para ele, uma das principais formas de o país ganhar relevância internacional está justamente no agro. O economista apontou como diferenciais brasileiros os dados relacionados à extensão das latitudes com potencial para produção tropical, a ocorrência de patologias de características tropicais que antes estavam restritas à região e que começam a avançar para latitudes maiores e, principalmente, o domínio da tecnologia aplicada ao agronegócio tropical.
Segundo Vale, com o avanço da fronteira agrícola e de técnicas de maior produtividade, o Brasil reúne uma vantagem que ainda não foi reproduzida pelo restante do mundo na mesma escala.
O economista também defendeu a ampliação dos acordos comerciais firmados pelo país, citando o acordo com a União Europeia como referência. Na avaliação de Vale, esse é o caminho para ampliar a inserção internacional brasileira e também para melhorar a produtividade da indústria, em conjunto com mudanças regulatórias e institucionais.











