As transformações na ordem geopolítica mundial e a disputa entre Estados Unidos e China vêm redesenhando a ordem internacional e devem ampliar a importância da geopolítica para decisões econômicas, comerciais e de segurança. Esse cenário coloca o agronegócio brasileiro em uma posição estratégica, mas também aumenta a necessidade de o país diversificar parceiros e produtos e avançar na cadeia de produção.
A tese foi tema central do debate entre o diplomata e especialista em geopolítica Braz Baracuhy e o embaixador do Brasil no Reino do Marrocos, Alexandre Parola, durante a mesa-redonda “O Agro na Geopolítica”, realizada no 25º Congresso Brasileiro do Agronegócio, nesta segunda-feira (10).
Para Baracuhy, o mundo passa atualmente por três grandes transformações geopolíticas. A primeira é a mudança de uma ordem internacional centrada nos Estados Unidos para um sistema marcado pela competição entre os EUA e a China. A transformação tem impacto direto sobre o Brasil, já que a China é o principal parceiro econômico brasileiro e ocupa um dos polos dessa nova disputa de poder.
A segunda transformação apontada pelo diplomata envolve a ordem liberal internacional, construída de forma centralizada e que, segundo ele, perdeu seu “lastro geopolítico”. Isso não significa que a ordem anterior tenha desaparecido. O movimento, na avaliação de Baracuhy, é de reordenamento, com o surgimento de novos arranjos e coalizões estruturados em torno dos dois polos de poder.
A terceira mudança está na própria globalização. O modelo baseado na liberalização econômica e na integração dos mercados, que Baracuhy considera fundamental para os negócios, começa a dar lugar a uma globalização geoeconômica.
Crise geopolítica é estrutural
Alexandre Parola avalia que a atual crise geopolítica tem caráter estrutural e ocorre em meio a uma confrontação entre grandes potências.
Parola pondera que não está convencido de que a geopolítica tenha simplesmente “voltado”. Segundo ele, ela sempre esteve presente, mas foi amortecida por acordos multilaterais e arranjos bilaterais. O que mudou, em sua avaliação, foi a relação entre a ordem internacional e a base material de poder. Essa correspondência, segundo o embaixador, se desfez.
“EUA e China formam os dois principais polos dessa nova configuração, mas outros movimentos também interferem no equilíbrio de poder”, completou.
Durante o painel, Parola citou ainda a emergência da Índia como fonte de pressão geopolítica sobre a China. Também chamou atenção para a parceria “sem limites” entre Rússia e China e questionou em que termos essa relação se desenvolve.
Brasil ganha espaço de negociação entre EUA e China
Esse cenário também altera a forma como os países precisam planejar suas estratégias econômicas. Parola afirmou que, em um momento no qual as decisões nacionais passam a seguir cada vez mais uma lógica de geopolítica e segurança nacional, o Brasil não pode abrir mão do planejamento de longo prazo.
Segundo Parola, o período de negligência do Brasil em sua relação com o hemisfério chegou ao fim. Na avaliação do embaixador, o país passou a ser visto como uma área que se soma à estratégia dos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, o Brasil mantém importância para a China por sua posição como fornecedor. Essa condição, segundo Parola, cria espaço para o país trabalhar seus próprios interesses sem necessariamente se alinhar a um dos blocos. “Para a China, somos muito importantes, porque somos fornecedores”, afirmou.
Na avaliação do embaixador, essa posição permite ao Brasil conduzir um jogo de interesses e de poder sem precisar necessariamente escolher entre os dois polos.
Parola afirmou que, diante de um ambiente em que os países passam a operar cada vez mais sob uma lógica de geopolítica e segurança nacional, o Brasil não pode deixar de planejar seu futuro.
Segundo ele, o país precisa voltar a desenvolver ou aperfeiçoar estratégias de médio e longo prazo capazes de responder às mudanças na estrutura internacional.
O embaixador também afirmou não enxergar a China ou os Estados Unidos como uma hegemonia global. Na sua avaliação, existe um espaço de convergência entre os dois países. Esse espaço, porém, torna mais complexa a tarefa brasileira de se reindustrializar.
EUA mantêm estratégia de equilíbrio de poderes
Baracuhy também destacou a estratégia geopolítica dos Estados Unidos. Segundo ele, o país segue uma lógica construída ao longo de décadas e considera importante manter o controle sobre seu “oceano ocidental”.
Na visão do diplomata, os EUA enxergam a Eurásia a partir de diferentes equilíbrios de poder regionais, envolvendo Europa, Oriente Médio e Sudeste Asiático. Em cada uma dessas regiões, a estratégia americana busca construir equilíbrios favoráveis aos Estados Unidos e manter capacidade de contenção das potências presentes nesses espaços.
O principal ponto de atenção, segundo Baracuhy, está hoje no Leste Asiático, onde essa política de contenção se torna particularmente relevante.
Para o diplomata, o desafio de definir uma posição diante dessa nova configuração não é exclusivo do Brasil. “Todos os países estão vivendo o mesmo dilema” sobre como se posicionar nesse novo jogo internacional.











