A possibilidade de um El Niño de intensidade “muito forte” no segundo semestre de 2026 mobiliza governos estaduais e federal para os possíveis impactos de eventos climáticos extremos. Projeções da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA), dos Estados Unidos, indicam que a probabilidade de o fenômeno atingir essa categoria entre outubro e dezembro é de 81%.
Para Guto Gioielli, analista CNPI e fundador do Portal das Commodities, os efeitos do fenômeno podem ultrapassar as questões climáticas e atingir diretamente setores estratégicos da economia brasileira.
“O clima é um cenário que muda constantemente, e o agronegócio, as cidades e os consumidores precisam lidar com essa instabilidade”, afirma o analista. Na avaliação de Gioielli, os principais pontos de atenção estão concentrados no agronegócio, na logística e nos preços dos alimentos.
Estados e União começam a reforçar preparação
No Rio Grande do Sul, um dos Estados mais expostos aos efeitos do fenômeno — e que sofreu com eventos climáticos em 2024, atingindo mais de 2 milhões de pessoas —, o governo afirma ter instalado 129 equipamentos hidrometeorológicos para ampliar a capacidade de monitoramento de rios e antecipação de alertas.
“É positivo ver o governo se preparando para mitigar os efeitos do El Niño, algo que não acontecia anteriormente. Infelizmente, foi preciso vivenciar uma tragédia em 2024 para que a prevenção entrasse de fato na agenda pública”, disse Gioielli.
A estrutura da Defesa Civil estadual também foi ampliada, com reforço de equipes técnicas, geólogos e meteorologistas. O governo gaúcho criou ainda o programa Prepara RS, que prevê R$ 30 milhões para cerca de 150 municípios considerados mais expostos a eventos climáticos.
O governador Eduardo Leite afirmou ao Valor Econômico que o Estado está mais preparado do que antes, mas ressaltou que os sistemas de proteção ainda estão em processo de reconstrução. Em Santa Catarina, o governo criou um comitê de crise e determinou o mapeamento de obras e serviços públicos que podem ser afetados por enchentes e deslizamentos.
No Sudeste, São Paulo iniciou treinamentos para agentes municipais e produtores rurais. Entre abril e maio, segundo a Defesa Civil estadual, cerca de 4 mil agentes foram capacitados. Já no Espírito Santo, o governo também trabalha com cenários de estiagem e chuvas irregulares, enquanto o Pará mantém ações de prevenção e combate a incêndios florestais.
No âmbito federal, a Casa Civil coordena ações de monitoramento e prevenção com diferentes órgãos, e a União abriu crédito extraordinário de R$ 337,5 milhões para o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima por meio da Medida Provisória nº 1.367/2026.
Desse montante, R$ 194,4 milhões serão executados pelo Ibama para ações de prevenção e combate a incêndios florestais, incluindo contratação de brigadistas, equipamentos e aeronaves. Outros R$ 143,1 milhões serão destinados ao ICMBio para fiscalização, prevenção e combate a incêndios em unidades de conservação federais.
El Niño coloca agronegócio no radar
No Brasil, os efeitos do El Niño variam de acordo com a região. O Sul tende a enfrentar maior risco de chuvas intensas, enquanto Norte e Nordeste podem registrar períodos de seca mais severos. Na região central do país, a possibilidade de ondas de calor e baixa umidade também entra no radar.
Para Gioielli, essas mudanças representam um risco para o calendário agrícola. “Os riscos à produção agrícola e às safras ocorrem devido às alterações nos padrões de chuva e temperatura, levando a plantios fora de época por seca ou excesso de umidade”, explica.
A mudança no regime de chuvas pode afetar tanto o plantio quanto o desenvolvimento das lavouras. Em períodos de excesso de água, por exemplo, o solo pode ficar inadequado para determinadas operações. Já a falta de chuva pode comprometer a germinação e o desenvolvimento das plantas.
Clima também pode afetar fretes e logística
Outro ponto destacado pelo analista é a infraestrutura utilizada para transportar a produção agrícola. Eventos extremos podem provocar interdições de rodovias e ferrovias, além de comprometer estruturas utilizadas para o escoamento das safras. No caso das hidrovias, períodos prolongados de seca podem reduzir o nível dos rios e limitar a navegação.
“Enchentes podem interditar ou destruir rodovias e ferrovias, enquanto a seca prolongada compromete a navegabilidade dos rios”, afirma Gioielli.
O impacto pode chegar aos custos de transporte. Se uma rota utilizada para levar uma commodity do produtor até o consumidor fica comprometida, empresas podem precisar recorrer a trajetos alternativos ou modalidades de transporte mais caras. Esse aumento pode ser incorporado ao preço final dos produtos.
El Niño pode pressionar inflação
A relação entre clima e inflação aparece principalmente nos alimentos. Uma redução da oferta provocada por perdas agrícolas pode elevar os preços, especialmente quando a demanda permanece estável.
Gioielli destaca que a combinação entre menor produção e dificuldades para transportar mercadorias pode reduzir a oferta disponível no mercado. “A perda de produção ou a impossibilidade de transportá-la reduz a oferta no mercado, pressionando os preços para cima”, afirma.
O efeito sobre a inflação dependerá da intensidade e da duração dos eventos climáticos, além da capacidade de produtores, empresas e governos de absorver os impactos.
Para o consumidor, uma eventual alta dos alimentos pode aparecer tanto diretamente nas compras de supermercado quanto em produtos e serviços que utilizam matérias-primas agrícolas.
Seguro agrícola ganha importância
Na avaliação de Gioielli, a preparação para o fenômeno também deve envolver instrumentos financeiros capazes de reduzir as perdas dos produtores. Entre as medidas citadas pelo analista estão o direcionamento de recursos para o seguro agrícola e para ações preventivas e emergenciais da Defesa Civil.
A expectativa de um El Niño forte não significa que um evento climático com a mesma intensidade das enchentes de 2024 necessariamente ocorrerá. O fenômeno, no entanto, altera as condições climáticas e aumenta a necessidade de monitoramento.
Para o mercado de commodities, o principal ponto de atenção estará na combinação entre produção agrícola, disponibilidade de transporte e oferta de alimentos. Se esses três fatores forem afetados simultaneamente, os efeitos podem chegar aos preços das commodities e, posteriormente, à inflação brasileira.
DECLARAÇÃO DO ANALISTA DE VALORES MOBILIÁRIOS (Resoluções CVM nº 20/2021, 179/23 e 216/24). Eu, LUIZ AUGUSTO RIBEIRO GIOIELLI, analista de valores imobiliários com registro no Nº 8345, principal responsável pela elaboração dos relatórios de análise para a sociedade PORTAL DOS COMMODITIES LTDA (CNPJ 45.988.716/0001-87, APIMEC nº 276), declaro, nos termos do art. 21 da Resolução CVM nº 20/2021, que as recomendações constantes deste relatório refletem única e exclusivamente as minhas opiniões pessoais, elaboradas de forma independente, não me encontrando em nenhuma das situações de conflito de interesse (vínculo com emissor, titularidade, envolvimento em operações, interesse financeiro direto/indireto ou influência na remuneração por negócios da PJ), não havendo qualquer fato que possa afetar a imparcialidade deste relatório ou configurar conflito de interesses.











