Existe um endereço na cidade do Rio de Janeiro onde ninguém buzina, ninguém procura vaga e a polícia patrulha de bicicleta. Fica a cerca de uma hora de barca do centro, no meio da Baía de Guanabara, e chegou ao século XXI sem asfalto na maior parte das ruas. A Ilha de Paquetá é oficialmente um bairro carioca, mas funciona sob regras próprias que a mantêm parada no tempo.
O que exatamente o decreto de 1999 protege?
Praticamente tudo o que existe na ilha. O Decreto 17.555, de 18 de maio de 1999, listado entre os atos de criação de Áreas de Proteção do Ambiente Cultural pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), determinou tombamentos definitivos e transformou a ilha em Área de Proteção do Ambiente Cultural (APAC).
A proteção não se limita a construções. Estão preservados os elementos naturais que configuram a paisagem: pedras, árvores em logradouros públicos, a pavimentação em saibro das ruas, a faixa de areia das praias, toda a extensão da costa, os morros e a cobertura vegetal. Entram na lista ainda as esculturas, fontes e bancos assinados pelo artista Pedro Bruno, nascido na própria ilha, espalhados por espaços públicos.

Por que não circulam carros particulares na ilha?
Porque a restrição virou parte da identidade do lugar e foi reforçada ao longo das décadas. A regra convive com exceções para serviços essenciais, e o transporte cotidiano se faz a pé, de bicicleta e em pequenos veículos elétricos autorizados.
O episódio mais recente dessa história é revelador. Em 2016, o então prefeito sancionou uma lei que proibiu veículos de tração animal na ilha, encerrando a circulação das tradicionais charretes, conforme a Agência Brasil. Para substituí-las, a prefeitura entregou carrinhos elétricos, e parte dos moradores protestou, argumentando que a troca aumentaria o número de motorizados em ruas de saibro que não foram feitas para eles.

Quando a ilha entrou nos mapas europeus?
Antes mesmo de a cidade existir. O primeiro registro europeu do lugar é anterior à fundação do Rio de Janeiro, feito por um cosmógrafo francês durante a tentativa de estabelecer a França Antártica na baía.
Depois vieram a divisão em sesmarias, no século XVI, e a frequência da corte portuguesa a partir do começo do século XIX, que deu prestígio à ilha e deixou marcas ainda visíveis, como o solar ligado a Dom João VI e a casa onde José Bonifácio passou os últimos anos de vida, ambos tombados em 1938, junto com as praias da ilha.
Onde ficam os pontos de interesse de quem desembarca?
O circuito ao redor da ilha é curto e plano, o que faz da bicicleta o meio natural de exploração. Confira abaixo o que melhor traduz essa rotina:
- Capela de São Roque: primeira igreja da ilha, dedicada ao padroeiro local.
- Casa de José Bonifácio: residência tombada em 1938, visível apenas pelo lado de fora.
- Solar Del Rei: antigo solar associado à passagem da corte, hoje ligado à biblioteca popular.
- Praias tombadas: toda a faixa de areia da ilha está sob proteção patrimonial desde a década de 1930.
- Baobá centenário: exemplar de origem africana entre as árvores protegidas por decreto municipal.
O vídeo do canal Trip Partiu, com mais de 237 mil visualizações, apresenta um roteiro charmoso pela Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro, destacando seu clima de tranquilidade quase rural, o acesso via barca, os passeios de bicicleta, pontos históricos como o Museu da Comunicação e Costumes, e lendas locais como a da Pedra da Moreninha e do Baobá da Maria Gorda.
Como é o clima na região da baía ao longo do ano?
Verão quente e chuvoso, inverno seco e ameno, padrão da capital fluminense, que serve de referência para a ilha. A diferença entre as estações é clara: segundo o Climatempo, a média histórica de chuva no Rio de Janeiro é de 92 mm em abril e cai para 35 mm em agosto. Veja abaixo o comportamento aproximado ao longo do ano:
Valores aproximados. As condições mudam a cada temporada por influência de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale conferir a previsão atualizada no Climatempo.
Um pedaço da cidade que combinou não crescer
Chama atenção que o instrumento de proteção usado ali alcance até o tipo de chão das ruas. Preservar o saibro parece detalhe burocrático, mas é justamente o que impede o asfalto, que traria o carro, que traria a velocidade e, com ela, o fim do que faz aquele bairro ser diferente do resto da cidade.











