O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) inicia nesta segunda-feira (19) o pagamento aos credores que adquiriram Certificados de Depósito Bancário (CDBs) do Banco Master, liquidado pelo Banco Central (BC) no final de 2025.
Os valores serão pagos à vista, em parcela única, respeitando o limite de cobertura de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição financeira.
Na prática, um investidor com R$ 200 mil aplicados em CDBs do Banco Master receberá todo o valor em um único pagamento. Além disso, a indenização considera o valor investido somado aos rendimentos acumulados até a data da liquidação da instituição.
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O ressarcimento aos clientes do Banco Master soma cerca de R$ 41 bilhões, o equivalente a aproximadamente um terço de todo o montante depositado no Fundo Garantidor de Crédito.
O FGC esclarece que o fundo não foi criado para servir como instrumento de garantia irrestrita de investimentos, mas para proteger recursos coletivos, com ressarcimento individual limitado a R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição.
Número de pedidos registrados no FGC
Dos cerca de 800 mil clientes do Banco Master, Banco Master de Investimento e Banco Letsbank com valores cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos, aproximadamente 569 mil já registraram pedidos de ressarcimento até esta segunda-feira, informou o FGC.
O número representa um aumento de cerca de 200 mil solicitações em relação ao balanço divulgado anteriormente. Desse total, cerca de 377 mil credores concluíram todas as etapas do processo e avançaram para a fase de pagamento.
Inicialmente, a estimativa era de que 1,6 milhão de investidores teria direito ao ressarcimento. O FGC, no entanto, revisou o número de credores para cerca de 800 mil. Agora, o valor total das garantias soma R$ 40,6 bilhões.
De acordo com o fundo, a instituição dispõe de liquidez de R$ 125 bilhões, com base em dados de novembro de 2025.
Quem está protegido pelo FGC
O Fundo Garantidor de Créditos protege saldos de correntistas e investidores até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição financeira.
No caso dos investidores, a cobertura varia conforme o tipo de aplicação. Estão dentro das regras do FGC:
- Certificados de Depósito Bancário (CDBs)
- Recibos de Depósito Bancário (RDBs)
- Letras de Crédito Imobiliário (LCIs)
- Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs)
A indenização considera o valor investido acrescido dos rendimentos acumulados até a data da liquidação, respeitando o teto de cobertura.
Maior intervalo entre liquidação e pagamento desde 2016
O pagamento ocorre 63 dias após a liquidação da instituição. Trata-se do maior intervalo entre uma liquidação bancária e o início dos pagamentos pelo FGC desde 2016, quando o banco Azteca do Brasil teve os ressarcimentos iniciados após 47 dias.
Essa demora se explica pela complexidade das fraudes, estruturadas em uma sucessão de fundos que investiam em papéis, criavam credores e inflavam ativos, formando uma cadeia de ilícitos. O processo exigiu apuração rigorosa para evitar pagamentos indevidos, inclusive aos próprios fraudadores.
Também houve disputas jurídicas, que chegaram a incluir a possibilidade de reversão da liquidação pelo Tribunal de Contas da União (TCU). No entanto, a decisão sobre liquidação cabe exclusivamente ao Banco Central.
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Master se aproveitou de relaxamento regulatório
Lucy Souza, conselheira do Corecon-SP e presidente do Conselho de Administração da Apimec Brasil, destaca que tanto o Banco Master quanto a Reag operavam “na margem da regulamentação, às vezes extrapolando, para não cumprimento da regulamentação vigente com relação à transparência na composição de carteiras”.
Ela analisa que o relaxamento dos controles regulatórios, inclusive para viabilizar bancos digitais e fintechs com o objetivo de ampliar a bancarização, foi aproveitado por essas instituições para práticas como lavagem de dinheiro e golpes cibernéticos.
Lucy Souza também relembra que o Banco Master oferecia títulos com rendimento muito acima do padrão do mercado, o que chamava a atenção do próprio sistema financeiro.
Segundo a economista, esses produtos foram utilizados tanto para alocação de recursos de origem duvidosa quanto para captação de recursos de investidores de varejo, que foram iludidos pela atratividade dos ativos acima da média do mercado.
Nesse contexto, afirma Lucy Souza, o fundo acabou sendo usado como instrumento de marketing, o que gerou insatisfação até mesmo entre bancos maiores que contribuem para o FGC.
Investidores da Reag ficam fora do FGC
Lucy explica que a proteção do FGC não se aplica a cotas de fundos administrados pela Reag, liquidada pelo Banco Central na semana passada, também no contexto das fraudes do banco Master.
Nesse caso, os cotistas precisarão aguardar assembleias para definição de novas instituições gestoras para os fundos, que misturam ativos de baixa qualidade, como debêntures e notas comerciais do grupo Master, o que pode impactar a rentabilidade, alerta a especialista.
“No fim das contas, há um espraiamento de prejudicados que inclui investidores de varejo de boa-fé, investidores em fundos, participantes de regimes próprios de previdência complementar (RPPC) e institutos de previdência de servidores públicos (PPI) que adquiriram esses ativos.”
Como solução para apaziguar o mercado em relação a esses tipos de ativos, Lucy Souza afirma que instituições reguladoras como o Banco Central, Febraban e Anbima devem atuar, no momento adequado, para esclarecer ao mercado sobre os riscos que envolvem os investimentos em ativos, especialmente quando há ofertas de rendimento acima da média.
Segundo ela, com o início dos pagamentos pelo FGC e maior educação financeira, a tendência é de redução das tensões no mercado.
Alerta para tentativas de golpe
Além do comunicado sobre o início dos pagamentos, o FGC também alertou para possíveis tentativas de golpe envolvendo o pagamento da garantia. O órgão reforçou que os únicos canais oficiais de atendimento e divulgação de informações são o aplicativo do FGC, telefone, e-mail e redes sociais.
“O FGC não cobra nenhum tipo de taxa para efetuar o pagamento da garantia, não antecipa, não transfere créditos garantidos e não utiliza intermediários. Nenhum contato é feito por meio do WhatsApp ou SMS”, informou o fundo.
Segundo o presidente do FGC, Daniel Lima, é fundamental que os investidores estejam atentos: “Infelizmente, esse é um problema que afeta todo o sistema financeiro, e o processo de pagamento de garantias pelo FGC também pode ser alvo de criminosos”, afirmou.
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Aplicativo ainda apresenta lentidão
O FGC informou que o aplicativo utilizado para solicitação do ressarcimento está operando normalmente. Atualmente, estão sendo processados cerca de 9 mil pedidos por hora, o equivalente a aproximadamente 2,5 solicitações por segundo.
A entidade esclareceu que, pontualmente, volumes anormais de acessos simultâneos ainda podem causar alguma lentidão. Após a instabilidade registrada no sábado (17), primeiro dia de funcionamento do sistema para os credores do Banco Master, não foram registrados novos problemas.
No sábado, após o anúncio de que os depósitos seriam feitos, uma corrida ao aplicativo deixou o sistema instável. As solicitações, liberadas às 9h30 para pessoas físicas, enfrentaram falhas técnicas, principalmente na etapa de envio e validação de documentos, o que impediu muitos usuários de concluir o cadastro.