A Raízen (RAIZ4) deu mais um passo em seu processo de reestruturação financeira ao anunciar a venda de suas operações de refino e comercialização de combustíveis na Argentina por US$ 1,42 bilhão.
A operação, formalizada por meio de um contrato vinculante divulgado ao mercado nesta quinta-feira (4), ocorre em um momento decisivo para a companhia, que busca reduzir seu endividamento, simplificar sua estrutura de negócios e avançar com o maior plano de recuperação extrajudicial já registrado no Brasil.
O negócio envolve os ativos de downstream (refino e comercialização de combustíveis) da subsidiária argentina e prevê pagamento parcial em dinheiro no fechamento da transação, além da transferência das dívidas da operação local para o grupo comprador.
Embora a empresa não tenha detalhado os ativos incluídos na venda, a Raízen Argentina reúne uma refinaria, uma unidade de lubrificantes e uma rede de postos de combustíveis anteriormente pertencentes à Shell. O fechamento da operação ainda depende de aprovações regulatórias e judiciais e deve ocorrer no atual ano-safra.
Em comunicado, a companhia afirmou que a venda está alinhada à sua estratégia de otimização de ativos, simplificação da estrutura operacional e alocação disciplinada de capital, com foco nos mercados e regiões considerados prioritários. Os recursos obtidos serão destinados à gestão da estrutura de capital da empresa.
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A conclusão do negócio, no entanto, ainda depende do cumprimento de condições precedentes, entre elas aprovações regulatórias e judiciais.
Venda acompanha reorganização dos negócios
A alienação dos ativos argentinos ocorre em meio a um amplo processo de transformação da companhia. A partir de 2027, a Raízen pretende operar por meio de duas empresas independentes. Uma ficará responsável pelas operações ligadas à produção de etanol, enquanto a outra concentrará as atividades de distribuição de combustíveis.
A divisão segue a mesma lógica de desinvestimentos que a companhia vem adotando para reduzir complexidade operacional e reorganizar suas atividades.
Em maio, a empresa concluiu a venda de suas operações argentinas para o grupo suíço Mercuria pelo mesmo valor de US$ 1,42 bilhão. Os recursos foram direcionados ao fortalecimento da estrutura de capital da companhia dentro do processo de reestruturação em andamento.
Credores aprovam adesão ao plano de recuperação extrajudicial da Raízen
A venda dos ativos também ocorre em paralelo ao avanço do plano de recuperação extrajudicial da companhia. Na quarta-feira (3), os debenturistas das 2ª, 3ª e 4ª emissões presentes em assembleias aprovaram a adesão ao plano de reestruturação financeira.
A aprovação, no entanto, possui condição resolutiva. A decisão poderá ser revertida caso os credores rejeitem a proposta na assembleia geral marcada para a próxima segunda-feira (8), às 13h (horário de Brasília), ou se a companhia apresentar uma versão considerada materialmente diferente daquela aprovada pelos investidores. Caso nenhum desses cenários ocorra, a adesão dos debenturistas se tornará automática e irrevogável.
A companhia chega à assembleia da próxima semana com a meta de alcançar pelo menos 70% de aprovação entre todas as classes de credores. Nos bastidores, porém, a expectativa é de que esse percentual seja superado com margem significativa.
A aprovação unânime dos debenturistas presentes nas assembleias foi considerada um dos principais sinais de apoio ao plano até o momento.
Raízen terá maior recuperação extrajudicial do país
A proposta em votação representa o maior processo de recuperação extrajudicial já realizado no Brasil. A Raízen acumula cerca de R$ 65 bilhões em dívidas financeiras, volume que coloca a operação em uma dimensão sem precedentes no mercado brasileiro.
Para reestruturar esse passivo, o plano prevê a conversão de 45% da dívida renegociada em ações da companhia. Na prática, os credores passarão a deter quase 80% do capital social da empresa, alterando completamente a atual estrutura de controle compartilhada entre Cosan e Shell.
A medida busca reduzir o nível de endividamento da Raízen ao transformar parte das obrigações financeiras em participação acionária.
Como parte do acordo, a Shell realizará uma capitalização de R$ 3,5 bilhões, reforçando o caixa da empresa durante a implementação do plano de reestruturação.
Mudanças relevantes com nova governança
O plano também prevê mudanças relevantes na governança corporativa. Após a conclusão das etapas de reestruturação, a companhia deverá eleger um novo conselho de administração no primeiro trimestre de 2027.
Outra medida prevista é a criação do cargo de diretor de reestruturação (CRO). A função será ocupada por Lorival Luz, atual diretor financeiro da Raízen e ex-CEO da BRF. Ele liderou as negociações com os credores ao longo dos últimos meses e ficará responsável por acompanhar a execução do plano aprovado.
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Dívida com a Receita segue como principal desafio
Apesar dos avanços obtidos junto aos credores financeiros, a companhia ainda precisa resolver aproximadamente R$ 25 bilhões em passivos tributários junto ao governo federal. As negociações com a Receita Federal continuam em andamento e representam o principal ponto de incerteza remanescente para a conclusão integral do processo de reestruturação.
O plano de recuperação extrajudicial teve início em março de 2026, após o vencimento automático de uma emissão de debêntures. Desde então, a empresa vem negociando com diferentes grupos de credores para construir o quórum necessário à homologação judicial da proposta.











