A escalada do conflito no Oriente Médio deve ampliar proporcionalmente os desafios para empresas do agronegócio ao pressionar custos de produção e alterar o funcionamento das cadeias globais de comércio, sobretudo diante da reorganização da economia global.
Nesse cenário, a gestão de riscos de empresas do agro requer uma mudança de lógica, saindo de uma visão operacional para uma arquitetura estratégica de decisões, aponta a economista Patricia Palomo, especialista em estruturação e otimização da governança regulatória focada em negócios.
A declaração ocorreu no âmbito da segunda edição do Mulheres no Comando, debate com lideranças femininas promovido pela Apimec Brasil na última terça-feira (24), em São Paulo.
Em entrevista ao Monitor do Mercado, a especialista avalia que, diante dos impactos geopolíticos, “o ponto central da gestão de riscos envolve, além de proteger margens no curto prazo, compreender como os choques externos alteram estruturalmente os preços relativos, os custos logísticos e o acesso a mercados”.
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Leia a entrevista completa sobre os impactos do conflito no Oriente Médio sobre empresas do agro:
Monitor do Mercado: A respeito da declaração durante o evento de que “as guerras são inflacionárias”, como posicionar a governança diante dos desafios impostos pelo cenário externo e dos riscos de liquidez?
Patricia Palomo: A afirmação de que guerras são inflacionárias está pautada nas desorganizações das cadeias produtivas, na restrição da mobilidade de recursos e insumos e na imprevisibilidade de comportamento de preços futuros que pressionam decisões de estoque, tamanho de produção, investimentos, dentre outros.
Para empresas do agro, isso exige uma governança que vá além do controle de custos e avance para o controle de decisões. O aumento de recuperações judiciais no setor não decorre apenas de choques externos, mas da combinação entre alavancagem elevada, descasamento de fluxos e decisões tomadas sob incentivos desalinhados. A governança, nesse cenário, precisa reorganizar os incentivos para não premiar volume em detrimento de margem.
MM: Como executar uma gestão de riscos eficiente diante do reposicionamento global da economia?
PP: Ao pressionar o custo de energia, fertilizantes e cadeias de transporte, a guerra desloca o risco para dentro da operação das empresas. Nesse contexto, a gestão de risco precisa integrar dois aspectos: o primeiro é financeiro, com uso disciplinado de hedge cambial e de commodities, evitando exposição direcional não intencional. O segundo é operacional, com revisão da dependência de insumos críticos e diversificação de fornecedores.
MM: Com o reposicionamento dos mercados globais, choques externos e outros desafios, qual o peso da diversificação de mercados?
PP: A diversificação de mercados continua sendo uma alavanca relevante, mas não deve ser interpretada como autossuficiência. Em um cenário de fragmentação geopolítica, a diversificação reduz a dependência de um único destino, mas aumenta a complexidade operacional e regulatória.
Além disso, muitos dos choques atuais são sistêmicos, afetando simultaneamente múltiplos mercados, especialmente quando eles têm origem em energia e logística. O que se observa é uma transição de uma lógica de diversificação geográfica para uma lógica de diversificação de risco, que inclui moedas, prazos de contrato, estruturas de financiamento e até modelos de comercialização. A empresa que diversifica apenas mercado, sem diversificar sua estrutura de risco, continua exposta, só que de uma forma menos visível.
MM: Enquanto especialista em políticas públicas, diante dos impactos externos, as iniciativas do governo são suficientes para dar mais segurança às empresas do agro?
PP: As políticas públicas têm um papel relevante, mas precisam ser desenhadas com atenção à estrutura de incentivos que criam. O risco de programas de crédito rural e subsídios mal calibrados é transformar um problema de liquidez em um problema de solvência ao longo do tempo. Ao alongar prazos sem ajustar a capacidade de geração de caixa, cria-se a ilusão de sustentabilidade enquanto o endividamento se acumula.
O desenho mais eficaz de política pública, nesse contexto, combina três elementos. Primeiro, previsibilidade regulatória e fiscal, que reduz o custo de capital estrutural. Segundo, instrumentos de mitigação de risco, como seguros agrícolas mais eficientes e acessíveis, que atacam a volatilidade de receita. Terceiro, incentivos à disciplina financeira, evitando mecanismos que premiem o aumento de alavancagem sem contrapartida de eficiência.
MM: Em ano eleitoral, quais riscos as empresas correm com os subsídios do governo?
PP: Em ano eleitoral, o risco é a priorização de medidas de impacto imediato sobre o PIB, com expansão de crédito e estímulos pontuais, em detrimento de soluções estruturais. Isso pode gerar crescimento de curto prazo, mas aumenta a fragilidade do setor no ciclo seguinte.
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MM: Qual a saída para mitigar o risco inflacionário diante da guerra no Irã e não aumentar a crise do setor para o próximo ano?
As saídas para mitigar o risco inflacionário passam por revisitar a estrutura de capital, adotar uma política ativa de hedge como mecanismo de proteção de margem e, no campo operacional, revisar processos, tecnologia e uso de insumos. O risco inflacionário de origem geopolítica não será resolvido no curto prazo.
As empresas que internalizam essa mudança como estrutural conseguem atravessar o ciclo, preservando não apenas o resultado, mas a própria continuidade do negócio.











