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Endividamento das famílias atinge nível recorde e compromete quase 30% da renda, aponta BC

Por Redação
27/abr/2026
Em Destaques, Mercados, Notícias
Créditos: depositphotos.com / VitalikRadko

Créditos: depositphotos.com / VitalikRadko

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O endividamento das famílias brasileiras, indicador que mede a relação entre o saldo das dívidas e a renda, passou de 49,8% para 49,9% em fevereiro, alcançando o maior nível da série histórica. Sem o crédito imobiliário, o avanço foi de 31,3% para 31,4%, segundo dados do Relatório de Estatísticas Monetárias e de Crédito, divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira (27).

Os dados também revelam o aumento do comprometimento de renda, que avançou de 29,5% (dado revisado) para 29,7%, no maior nível da série iniciada em 2005. Ao excluir financiamentos imobiliários, esse indicador passou de 27,2% para 27,4%.

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Na prática, os números mostram que quase 1/3 da renda das famílias está comprometido com dívidas. Desse total, 10,63% são destinados ao pagamento de juros e cerca de 19% à amortização do principal.

Datafolha: renda insuficiente atinge maioria das famílias

Levantamento do Datafolha indica que 59% dos brasileiros consideram a renda familiar insuficiente, em algum grau, para cobrir despesas.

Além disso, quatro em cada dez entrevistados relataram redução de renda recente e quase metade da população (45%) afirmou ter buscado fontes alternativas de renda nos últimos meses.

A percepção de aperto é mais intensa entre famílias com renda de até dois salários mínimos. Nesse grupo, sete em cada dez dizem que o dinheiro não é suficiente para cobrir os custos do dia a dia.

Busca por renda extra cresce entre mais escolarizados

A procura por renda complementar é mais frequente entre pessoas com ensino médio e superior. Esse movimento ocorre em um cenário de mercado de trabalho aquecido, mas com remuneração considerada insuficiente para acompanhar o custo de vida, levando parte da população a buscar atividades adicionais, inclusive fora do mercado formal.

Entre pessoas com menor escolaridade, a busca por renda extra é menos intensa, grupo que reúne maior proporção de aposentados, donas de casa e indivíduos fora do mercado de trabalho.

Já a perda de renda familiar se concentra principalmente entre brasileiros de 35 a 44 anos, faixa em que quase metade relatou queda nos ganhos nos últimos meses.

Dois em cada três brasileiros declaram endividamento

Levantamento do Datafolha divulgado na última semana aponta que 67% dos brasileiros possuem algum tipo de dívida, enquanto 21% estão com pagamentos em atraso.

Entre aqueles que recorreram a empréstimos com amigos e familiares, 41% afirmam estar devendo. Entre os principais tipos de dívida em atraso, o cartão de crédito parcelado lidera entre as dívidas em atraso (29%), seguido por empréstimos bancários (26%) e carnês de lojas (25%).

O uso do crédito rotativo também é relevante: 27% dos brasileiros utilizam essa modalidade, sendo 5% de forma recorrente.

Endividamento com contas básicas e uso intensivo de crédito

O levantamento mostra ainda que 28% dos brasileiros estão com contas de consumo em atraso. Entre os principais débitos aparecem:

  • telefone, celular e internet (12%)
  • tributos como IPTU, IPVA e carnê-leão (12%)
  • contas de luz (11%)
  • contas de água (9%)

O cartão de crédito está presente no dia a dia de 57% da população. Entre esses usuários, 13% parcelam compras de supermercado com frequência e 4% fazem o mesmo com contas básicas.

Além disso, 5% afirmam pagar a fatura de um cartão com o limite de outro com frequência, enquanto 10% fazem isso ocasionalmente.

Famílias reduzem consumo para ajustar orçamento

Diante da pressão financeira, os brasileiros vêm ajustando o padrão de consumo. Segundo o Datafolha, 64% reduziram gastos com lazer, enquanto 60% diminuíram despesas fora de casa ou trocaram por opções mais baratas e 52% reduziram a quantidade de alimentos comprados.

Além disso, metade reduziu consumo de água, luz e gás, e 40% deixaram de pagar alguma conta, enquanto 38% interromperam o pagamento de dívidas ou reduziram compra de medicamentos.

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Aperto financeiro domina percepção da população

O levantamento mostra que 45% dos brasileiros vivem sob forte pressão no orçamento, sendo 27% em situação considerada “apertada” e 18% em condição “severa”. Outros 36% estão em situação moderada, enquanto apenas 19% se classificam como em condição leve ou sem restrições.

As dificuldades financeiras, endividamento e custo de vida são a principal preocupação pessoal, citadas por 37% dos entrevistados. A resposta mais frequente foi “falta de dinheiro ou renda”, mencionada por 27%.

Numa perspectiva mais ampla, metade da população (49%) afirma sentir-se mal ou muito mal em relação à situação financeira do país.

Falta de poupança e dificuldade de planejamento pesam sobre endividamento

A ausência de reserva financeira é um dos principais pontos de fragilidade. Segundo a pesquisa, 66% dos brasileiros não possuem poupança. Entre os que têm, 12% conseguiriam manter despesas por menos de três meses em caso de perda de renda, e 10% por um período entre três e seis meses.

A organização financeira também é limitada: apenas 44% fazem orçamento detalhado, enquanto 23% não realizam qualquer controle de gastos.

Juros seguem elevados nas principais linhas de crédito

As taxas cobradas nas modalidades de crédito mais utilizadas pelas famílias continuam em patamares elevados. O rotativo do cartão de crédito (acionado quando o consumidor não paga o valor total da fatura) recuou de 435,9% para 428,3% ao ano entre fevereiro e março (de cerca de 15% para 14,9% ao mês), ainda acima da taxa básica de juros (Selic), que está em 14,75% ao ano.

No cartão parcelado com juros, a taxa caiu de 196,5% para 192,1% ao ano, enquanto no cheque especial, que possui teto de 8% ao mês (151,8% ao ano), houve queda de 146,3% para 137,9% ao ano.

Já o crédito pessoal não consignado (sem desconto em folha) ficou mais caro, com alta de 112,2% para 117,1% ao ano (de cerca de 6,5% para 6,7% ao mês).

Concessões de crédito avançam em março

As concessões dessas linhas, consideradas de maior risco, também cresceram em março. O uso do cheque especial subiu 13,3% em relação a fevereiro. O crédito pessoal não consignado avançou 10,6%.

No cartão de crédito, as compras à vista aumentaram 13,9%, enquanto o rotativo cresceu 7% e o parcelado, 11,9%.

De forma geral, o crédito livre avançou 19,4% em março frente a fevereiro e 9,1% na comparação com o mesmo mês de 2025. Para as famílias, houve aumento de 15,1% e 10,4%, respectivamente, em relação ao ano anterior.

Considerando ajustes sazonais, no entanto, houve queda de 1,9% no crédito total em março ante fevereiro, enquanto o crédito para pessoas físicas subiu 0,9%.

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Governo prepara “Desenrola 2.0”

O avanço do endividamento reforça a estratégia do governo Lula de lançar uma nova versão do programa de renegociação de dívidas, o “Desenrola 2.0”.

A expectativa é que a iniciativa seja anunciada em 1º de maio, Dia do Trabalhador, com foco em pessoas que recebem até cinco salários mínimos e estão inadimplentes.

A proposta prevê a substituição de dívidas mais caras — como cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem garantia — por linhas mais baratas, com juros possivelmente limitados a 1,99% ao mês.

Ainda estão em discussão critérios como o tempo de atraso das dívidas. Inicialmente, o governo considera incluir débitos entre 61 e 360 dias, enquanto o setor financeiro defende intervalo entre 90 dias e três anos.

Os bancos que aderirem ao programa devem oferecer descontos mínimos proporcionais ao tempo de inadimplência, que podem chegar a 80% ou 90% em dívidas mais antigas, embora os percentuais ainda não estejam definidos.

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