Após meses de consumo pressionado pela inflação e pela perda de poder de compra das famílias, a Copa do Mundo deve trazer um impulso temporário para o varejo alimentar brasileiro, segundo levantamento da Scanntech, que aponta que o ticket médio nos supermercados deve subir até 69% no período que antecede os jogos da Seleção brasileira, reacendendo a expectativa do setor por um aumento nas vendas.
O estudo revela que o chamado “efeito partida” altera o comportamento do consumidor e acelera as compras dias antes dos confrontos. O pico acontece dois dias antes dos jogos, com crescimento de 24,4%. Já no dia das partidas, o fluxo de consumidores cresce de forma mais moderada, com alta de 3,7%, mas ganha força nas horas imediatamente anteriores ao apito inicial.
O movimento evidencia o aumento das compras emergenciais de bebidas, carnes, snacks e itens de conveniência, categorias que tradicionalmente lideram o consumo em grandes eventos esportivos.
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Leandro Rosadas, especialista em gestão de supermercados, afirma que o torneio costuma provocar um forte impacto psicológico no consumo. Segundo ele, o varejo alimentar entra em um ciclo de compras marcado por impulso, socialização e imediatismo. As pessoas passam a se reunir mais e reduzem temporariamente a percepção de controle financeiro.
Rosadas compara o fenômeno ao comportamento observado em datas como Carnaval, Natal e feriados prolongados, períodos em que o consumo tende a ganhar um componente mais emocional.
Por outro lado, ele pontua que esse aumento de demanda no varejo não deve resolver os fundamentos econômicos.
“Quando você olha para a inflação estrutural, ela continua sendo pressionada por fatores muito maiores do que a Copa, como a alta do petróleo, guerra, dólar, custo logístico, commodities agrícolas, energia e juros globais. Então, o que acontece normalmente é um ‘alívio emocional’ temporário no varejo, mas não uma melhora real da capacidade de compra das famílias”, explica.
“Kit churrasco” lidera alta das vendas durante a Copa do Mundo
Entre as categorias mais beneficiadas em edições anteriores da Copa, o chamado “kit churrasco” aparece como principal destaque. Na última competição, as vendas de churrasqueiras triplicaram, crescendo 227%.
Outros produtos também registraram forte avanço, como pipoca de micro-ondas, com alta de 120%, airfryer, 112%, e amendoim salgado, 86%.
Proteínas e acompanhamentos também ganharam espaço no carrinho dos consumidores. As vendas de frango inteiro avançaram 60%, enquanto maminha subiu 53%, picanha teve alta de 29% e queijo coalho cresceu 40%.
Rosadas afirma que bebidas, snacks e carnes historicamente lideram o aumento de demanda durante a Copa.
Segundo ele, cervejas, refrigerantes, salgadinhos, pizzas congeladas, amendoim, queijos e itens de conveniência, como gelo e carvão, estão entre os produtos mais procurados pelos consumidores durante o torneio.
Vendas durante a Copa do Mundo revelam mudança no perfil de consumo
O levantamento da Scanntech também identificou uma mudança no perfil de consumo dos brasileiros, com crescimento de produtos associados à saudabilidade.
As cervejas de baixa caloria avançaram 86% no último ano. Já as versões sem álcool cresceram 27%, enquanto os refrigerantes zero tiveram expansão de 42%.
A tendência indica que produtos considerados mais leves também devem ganhar espaço durante a competição, influenciando o carrinho de compras dos consumidores.
Jogos aos sábados têm maior impacto no consumo
Segundo a pesquisa, partidas realizadas aos sábados registraram os efeitos mais fortes sobre as vendas em Copas anteriores. Nesses casos, o fluxo de consumidores avançou 18,8% na véspera, cresceu 10,2% no dia dos jogos e permaneceu elevado, com alta de 9,9% no dia seguinte.
A ampliação do calendário da Copa do Mundo FIFA 2026, que terá mais partidas e jogos em horários noturnos, tende a ampliar esse comportamento. A expectativa é de maior consumo no período pós-expediente e aumento de encontros sociais ao longo da competição.
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Supermercados podem enfrentar pressão operacional
Dados do levantamento mostram que os supermercados devem reforçar três frentes principais durante o período da Copa: adequação do sortimento às ocasiões de compra, abastecimento eficiente para evitar rupturas e estratégias de cross-sell, técnica utilizada para estimular a venda de itens complementares.
Rosadas alerta, porém, que o aumento da demanda também eleva a pressão operacional sobre o setor. Segundo ele, quando o consumo cresce rapidamente em categorias específicas, três movimentos ocorrem simultaneamente: a indústria reduz o poder promocional, o abastecimento fica mais pressionado e o varejo passa a disputar estoques.
“Quando a demanda cresce acima da oferta disponível, o preço sobe. Então, existe risco real de aumento de preços em categorias sazonais durante os jogos, especialmente proteína, bebidas e itens de conveniência”, afirma.
O especialista acrescenta que esse impacto pesa ainda mais no orçamento das famílias porque muitos consumidores entram em um comportamento de “merecimento emocional”, mantendo as compras mesmo diante da alta dos preços.
Disputa por mercado pode aumentar pressão sobre margens
Na avaliação de Rosadas, os próximos meses devem ser marcados por uma competição mais agressiva entre supermercados em busca de participação de mercado. Para o especialista, mesmo uma melhora pontual do consumo costuma elevar a disputa no varejo, com mais tabloides promocionais, guerra de preços, expansão do atacarejo, campanhas regionais e aumento da pressão sobre as margens.
O especialista afirma que o consumo pode até continuar em nível mais elevado após os jogos, especialmente em um cenário de melhora do emprego e do crédito, mas dificilmente no mesmo ritmo emocional observado durante a Copa.
Rosadas ressalta, porém, que o principal risco para os supermercadistas é interpretar um pico sazonal de demanda como crescimento estrutural do consumo. Esse erro pode levar empresas a ampliar estoques de forma equivocada, contratar acima da necessidade, elevar custos fixos, errar compras e criar expectativas excessivas de venda, alerta.
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Depois da Copa, prevê o especialista, o consumo tende a voltar à normalidade, enquanto os custos permanecem elevados, cenário que pode comprometer as margens do setor.
“Se o supermercado não tiver controle de ruptura, compra inteligente, gestão de margem, operação disciplinada, prevenção de perdas, leitura correta de curva e acompanhamento diário dos indicadores, ele pode vender mais e ganhar menos. E esse é o perigo dos períodos de euforia econômica”, conclui.











