Os mercados globais iniciam o segundo semestre sem direção única, em meio à retomada das incertezas em torno do conflito no Oriente Médio. A decisão do Irã de não participar de uma nova rodada de negociações com representantes dos Estados Unidos no Catar interrompe o otimismo que marcou o encerramento do primeiro semestre e recoloca a geopolítica no radar do mercado.
Apesar do novo impasse diplomático, o petróleo segue pressionado. O Brent encerrou o pregão desta terça-feira (30) cotado a US$ 72,92 por barril, enquanto o WTI fechou a US$ 69,50, praticamente de volta aos níveis registrados antes do conflito. Em junho, as duas referências acumularam perdas próximas de 20%, no pior trimestre desde 2020, refletindo a recomposição da oferta global, impulsionada pela retomada das exportações iranianas, pelo maior volume embarcado pela Rússia desde 2022 e pela normalização do tráfego de navios no Estreito de Ormuz.
Embora Washington mantenha o envio de representantes ao Catar para dar continuidade às tratativas, Teerã reafirmou que não abrirá mão do enriquecimento de urânio e sinalizou que a gratuidade da passagem pelo Estreito de Ormuz será mantida apenas durante os 60 dias previstos no acordo temporário, preservando um foco de tensão para o mercado de energia.
Com a influência da geopolítica perdendo força sobre os ativos, os investidores passam a concentrar as atenções no mercado de trabalho americano. Nesta quarta-feira (1º), será divulgada a pesquisa ADP, que mede a criação de vagas no setor privado e costuma servir como uma prévia do payroll, relatório oficial de emprego dos Estados Unidos, que excepcionalmente será publicado na quinta-feira (2), devido ao feriado do Dia da Independência.
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Além do ADP, o mercado acompanhará as declarações do presidente do Federal Reserve (Fed), Kevin Warsh, durante o painel de política monetária do Fórum de Sintra, em um momento em que os investidores reforçam as apostas de manutenção dos juros elevados nos Estados Unidos.
O payroll será o principal teste para avaliar se a economia americana continua suficientemente aquecida para justificar uma política monetária restritiva por mais tempo. Um resultado acima do esperado tende a consolidar a expectativa de juros elevados por um período prolongado. Por outro lado, uma desaceleração na geração de empregos pode reduzir essa percepção, enfraquecer o dólar, estimular uma reprecificação da curva de juros americana e favorecer os ativos de mercados emergentes.
No Brasil, repercute o anúncio da Petrobras, no início da noite desta terça-feira, sobre uma redução de R$ 0,35 por litro no preço do diesel A vendido às distribuidoras, exatamente o valor correspondente à primeira parcela da subvenção retirada pelo governo a partir desta quarta-feira. Com a medida, o preço final do combustível permanece em R$ 3,30 por litro, preservando a neutralidade prometida pela equipe econômica durante o processo de retirada gradual dos subsídios.
O governo já avalia os próximos cortes nas subvenções, que poderão atingir a parcela remanescente do diesel, equivalente a R$ 1,15 por litro, além da gasolina, cuja compensação atual é de R$ 0,44 por litro. A equipe econômica também reavalia os incentivos concedidos ao GLP, ao combustível de aviação e ao biodiesel.
Com o Brent próximo dos níveis observados antes da crise no Oriente Médio e a normalização gradual do mercado internacional, o governo considera que as medidas temporárias cumpriram o objetivo de amortecer o choque de preços sem criar distorções permanentes. Tanto o ministro da Fazenda, Dario Durigan, quanto o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, reiteraram que os subsídios sempre tiveram caráter temporário e não seriam utilizados para manter artificialmente os preços dos combustíveis.
Na mesma linha, o governo passou a considerar desnecessária a tramitação do PLP dos Combustíveis, enviado ao Congresso no auge da crise para criar um mecanismo permanente de compensação dos preços. Ainda assim, a equipe econômica informou que continuará acompanhando o comportamento dos preços nas bombas para evitar reajustes considerados abusivos durante a retirada gradual dos subsídios.
Manchetes desta manhã
- EUA e Irã iniciam negociações técnicas sobre acordo de paz e retomada da navegação em Ormuz (Valor)
- Concessões de empréstimos no Brasil aumentam 0,2% em maio, diz BC (Folha)
- Governo e produtores iniciam ofensiva para evitar veto à exportação de carne para a União Europeia (Estadão)
- Alcolumbre indica que votará pauta-bomba com impacto de R$ 30 bi antes do recesso parlamentar ( O Globo)
- Raízen tem 3º maior prejuízo anual da década entre SAs (Valor)
Mercado global
As bolsas da Europa operam majoritariamente em baixa, com os investidores adotando cautela antes dos discursos dos presidentes do Federal Reserve (Fed), Kevin Warsh, e do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, em fórum em Sintra.
No radar também estão as negociações entre Estados Unidos e Irã e a desaceleração da inflação ao consumidor (CPI) da zona do euro para 2,8% em junho, aproximando-se da meta de 2% do BCE.
Na Ásia, os mercados encerraram a sessão desta quarta-feira sem direção única, em meio à cautela dos investidores com o cenário geopolítico no Oriente Médio.
Destaque para o índice de Tóquio, o Nikkei, que fechou em alta, enquanto o iene seguiu próximo das mínimas em 40 anos frente ao dólar, mantendo no radar a possibilidade de intervenção das autoridades japonesas no câmbio. Em Hong Kong, os mercados permaneceram fechados por feriado local.
Em Nova York, os índices futuros abriram em baixa, refletindo a cautela dos investidores antes do discurso do presidente do Federal Reserve (Fed), Kevin Warsh. O mercado busca sinais sobre os próximos passos da política monetária, em meio ao fortalecimento das apostas de que o Banco Central poderá elevar os juros nos Estados Unidos.
Confira os principais índices do mercado:
- S&P 500 Futuro: -0,12%
- FTSE 100: -0,38%
- CAC 40: -0,73%
- Nikkei 225: +0,59%
- Shanghai SE Comp: +0,44%
- Hang Seng: fechado por feriado
- Ouro (jun): +0,11%, a US$ 4.042,77 por onça troy
- Índice do dólar (DXY): -+0,26%, aos 101,43 pontos
- Bitcoin: +0,20% a US$ 58.519,8
Commodities
- Petróleo: os contratos futuros recuam nesta quarta-feira, negociados próximos de US$ 70 por barril, com o mercado repercutindo sinais de avanço nas negociações entre Estados Unidos e Irã e a normalização do fluxo de navios pelo Estreito de Ormuz.
Para o ING, prevalece a expectativa de recuperação da oferta de petróleo do Golfo Pérsico, reduzindo os prêmios de risco associados às tensões recentes na região.
O Brent/setembro recua 0,93%, cotado a US$ 72,27 e o WTI/agosto cede 0,52%, a US$ 69,14. - Minério de ferro: fechou em queda de 1,68% em Dalian, na China, cotado a US$ 107,89 a tonelada.
A oferta global de minério de ferro segue elevada, com estoques portuários em níveis historicamente altos, enquanto a demanda chinesa continua enfraquecida. Analistas da Galaxy Futures destacam que o consumo do setor de construção permanece fraco e que a demanda da indústria de transformação desacelera, movimento que pode se estender pelos próximos meses.
Cenário internacional
No cenário internacional, as atenções continuam voltadas para o Oriente Médio. Representantes dos Estados Unidos estão em Doha, no Catar, para reuniões com mediadores locais, sem confirmação de um encontro direto com autoridades iranianas. O Irã informou ter exportado mais de 40 milhões de barris de petróleo desde a retirada do bloqueio naval americano, há duas semanas. Segundo o negociador-chefe Mohammad Bagher Ghalibaf, o petróleo tem sido vendido com prêmio de 20%.
O país também manteve a autorização para a navegação sem tarifas no Estreito de Ormuz por 60 dias, embora preserve o controle administrativo da rota.
No Japão, a Nomura Securities estima que o reembolso de tarifas pelos Estados Unidos poderá elevar em até US$ 3 bilhões os lucros das empresas, após a Suprema Corte americana derrubar, em fevereiro, as tarifas recíprocas de 15% sobre produtos do Japão. Ao mesmo tempo, o iene caiu para 162,68 por dólar, o menor nível em 40 anos, aumentando as expectativas de uma intervenção cambial pelas autoridades japonesas.
Na China, o PMI industrial privado (RatingDog) recuou de 51,8 para 51,7 pontos em junho, refletindo desaceleração da produção e queda dos novos pedidos de exportação pelo segundo mês consecutivo.
Na Europa, os PMIs industriais de junho mostraram desempenho misto: o Reino Unido caiu para 52,5 (de 53,9), a Alemanha avançou para 50,3 (de 50,1), a França voltou à expansão, com 51,2 (ante 49,7), enquanto a Zona do Euro recuou para 51,4, mínima de quatro meses.
A agenda dos Estados Unidos segue carregada nesta quarta-feira, com a divulgação do PMI industrial da S&P Global (10h45), do ISM Industrial (11h) e dos estoques semanais de petróleo (11h30). Antes disso, às 10h, o mercado acompanhará as declarações do presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, durante o painel de política monetária do Fórum de Sintra.
Cenário nacional
No Brasil, a Aneel anunciou medidas com efeitos opostos para os consumidores de energia. A agência aprovou um reajuste médio de 10,18% nas tarifas da Enel São Paulo, sendo 9,02% para os consumidores residenciais, com vigência a partir de sábado. O aumento reflete principalmente os maiores custos de compra e transporte de energia, além dos encargos setoriais.
Ao mesmo tempo, a Aneel autorizou a distribuição de R$ 872,1 milhões do Bônus de Itaipu, que concederá descontos nas contas de luz emitidas em agosto para consumidores residenciais e rurais que tenham consumido menos de 350 kWh em pelo menos um mês dos últimos 12 meses.
O crédito variará entre R$ 2,69 e R$ 31,38 por unidade consumidora. O montante destinado ao benefício foi ampliado de R$ 767,2 milhões para R$ 872,1 milhões após a redução da reserva técnica da Conta Itaipu de 5% para 4%, liberando mais recursos para abatimento das tarifas.
O destaque político desta quarta-feira é a sessão de debate temático no plenário do Senado sobre a PEC 221/2019, que propõe o fim da escala de trabalho 6×1. Segundo avaliação do Itaú, o avanço da proposta dependerá tanto do presidente do Senado, responsável por encaminhá-la formalmente, quanto do presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, afirmou que a discussão não pode ser utilizada como instrumento do calendário eleitoral e reagiu às pressões para acelerar a tramitação da matéria, que continua sem despacho para a CCJ.
Destaques do mercado corporativo
- Petrobras: Lula e o presidente da Bolívia aceleraram negociações para novos acordos com a YPFB na exploração de gás natural, com reunião entre Magda Chambriard e autoridades bolivianas prevista para esta semana.
- Vale: o TCU julga hoje o processo relacionado ao acordo judicial de reparação do rompimento da barragem de Mariana.
- Gerdau: a gestora T. Rowe Price elevou sua participação para 5,12% das ações preferenciais da companhia.
- Santander: Gilson Finkelsztain assume oficialmente o cargo de CEO do banco após aprovação do conselho.
- JBS: concederá férias coletivas em duas unidades e reduzirá a produção em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul devido ao esgotamento da cota de exportação de carne bovina para a China.
- Oncoclínicas: a CVM negou pedido de OPA apresentado por acionistas minoritários; ainda cabe recurso.
- Oi: o julgamento que pode resultar na falência da empresa foi suspenso após pedido de vista.
- Azul: homologou emissão de 6,9 milhões de bônus de subscrição, negociados sob o código AZUL19 a partir desta quinta-feira.











