Wall Street atravessa uma das maiores temporadas de ofertas públicas iniciais (IPOs) da história, com centenas de bilhões de dólares movimentados em novas emissões de ações. O avanço é sustentado pelo interesse dos investidores nas chamadas megacaps — empresas com valor de mercado superior a US$ 200 bilhões — e, principalmente, em companhias ligadas à Inteligência Artificial (IA).
A combinação entre esse apetite por tecnologia e um ambiente macroeconômico mais previsível fez o mercado de capitais americano voltar a registrar um ritmo acelerado de novas emissões. Para investidores, o movimento amplia o universo de empresas disponíveis para investimento, mas também exige maior atenção aos fundamentos de negócios que chegam à bolsa em meio ao entusiasmo com a IA.
Em entrevista exclusiva ao Monitor do Mercado, Fernando Saad, analista de alocação e inteligência da Avenue, explica que, no contexto macro, o que impulsionou a onda de IPOs foi uma estabilização nas expectativas de juros, juntamente com diversos meses de otimismo com a tese de tech (especialmente em AI), segmento no qual grande parte dessas empresas que desejam vir ao mercado opera e consegue, portanto, um múltiplo considerável na oferta.
Segundo Saad, outro elemento importante foi a existência de uma demanda reprimida por novas aberturas de capital.
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“Também havia uma ‘fila oculta’ de empresas querendo captar recursos no mercado, que aguardavam desde 2022/2023, em que tivemos uma janela fechada para novas listagens.”
O ambiente favorável também beneficia os bancos de investimento de Wall Street. Após as ofertas recordes da SpaceX e da Alphabet, cresceram as expectativas para um aumento da atividade de fusões e aquisições ao longo de 2026.
Os números mostram a dimensão desse movimento: até 26 de junho, os IPOs e as vendas de ações nos Estados Unidos somavam US$ 251 bilhões, desconsiderando as SPACs (empresas de propósito específico para aquisição, conhecidas como “empresas de cheque em branco”) e outros veículos de investimento. Segundo dados da Bloomberg, trata-se do maior volume já registrado para um primeiro semestre, superando o recorde da onda de emissões de 2021.
Confira a entrevista completa com Fernando Saad, analista de alocação e inteligência da Avenue:
Monitor do Mercado: O comportamento dos juros americanos é o principal fator para o mercado de IPOs. Caso o Federal Reserve (Fed) mantenha os juros elevados por mais tempo, essa janela pode ser adiada para o próximo ano ou se fechar novamente?
Fernando Saad: Em um cenário de juros elevados, o questionamento das teses de alto crescimento é mais duro. O capital fica mais caro, o valuation fica mais descontado, e o custo de oportunidade do investidor aumenta. Mesmo com o aumento recente nas expectativas de “higher for longer”, ainda não vimos uma leva de adiamentos, e devemos considerar que os múltiplos dentro do setor de tecnologia também podem ser decisivos para as empresas escolherem suas janelas de estreia.
MM: Existe espaço para novas gigantes da tecnologia surgirem a partir dessa leva de IPOs, criando uma próxima geração de big techs?
FS: Com certeza, ainda mais se considerarmos as beneficiárias de segunda ordem. Após a invenção do automóvel, ninguém imaginou que empresas como Walmart seriam vencedoras de segunda ordem (uma vez que, com os carros, os consumidores poderiam ir mais vezes por semana ao mercado). Com a invenção da internet, tivemos a Netflix se beneficiando de maneira derivada posteriormente (cada “fita” pode agora ser consumida por milhares de clientes de forma simultânea). Ainda não sabemos quem serão essas beneficiárias secundárias, mas com certeza há espaço para novos players no setor.
MM: Quais fatores explicam o maior apetite dos investidores por empresas de tecnologia neste momento?
FS: O próprio capex recorde (investimentos em capital) das empresas acaba sendo um catalisador para maior apetite do investidor, pois materializa a dimensão e as expectativas para o ramo.
MM: Quais métricas o investidor deve observar antes de investir em uma empresa recém-listada, uma vez que muitas se aproveitam para surfar a onda da IA?
FS: Métricas como receita recorrente (e seu crescimento), diversificação em segmentos/regiões, margens e concorrência podem guiar o investidor. Entretanto, muitas das empresas que estão abrindo capital têm histórico curtíssimo, sendo a dificuldade de medir a resiliência da operação e diferentes circunstâncias um fator de atenção a ser considerado.
MM: Qual o impacto que a onda de IPOs de tecnologia deve gerar no mercado global? Como o comportamento recente do Nasdaq influencia essas decisões?
FS: Mais do que movimentar índices, esta leva de IPOs redesenha onde o capital para os projetos da próxima década será alocado: capta-se hoje para financiar data centers, chips e infraestrutura física de IA, um ciclo de capital intensivo que nos mostra onde o mercado quer, e não quer, alocar seu risco.
Quanto a variações de curto prazo, como a que vimos recentemente no Nasdaq, estamos falando de um mercado que recebeu recentemente milhares de novos investidores — muitos dos quais alocam fundos de uma forma muito menos estrutural que em nomes já consolidados. Portanto, é mais do que normal observarmos correções e capital girando para outros setores.
MM: Ainda há previsão de lançamentos em Hong Kong, nos Estados Unidos… Espera-se o estouro da bolha de IA e, posteriormente, uma grande realização de lucros em meio a incertezas sobre investimentos superestimados no setor?
FS: Gosto muito da frase que “uma realização não anula um ciclo”. O que vemos hoje são empresas com fundamentos sólidos e crescimento exponencial, em um mercado que cresce diariamente. O ciclo é real, mas realizações são completamente esperadas ao longo do caminho (igual a todo e qualquer setor dentro da renda variável).
MM: Diante da notícia de que a OpenAI estuda adiar IPO para 2027 por causa da volatilidade das ações de tecnologia, uma possível grande oferta com a corrida dos IPOs de techs pode gerar uma desvalorização das ações do setor?
FS: Uma outra forma de ler o adiamento é interpretando um sinal de maturidade da OpenAI, e não de fraqueza do setor: Ao recusar listar agora e preferir esperar 2027, a empresa evita inundar o mercado de uma vez — o que protege os valuations dos pares e do setor também.
MM: O mercado espera com a OpenAI e outras gigantes que visam IPO o mesmo movimento que aconteceu com a SpaceX, que levantou US$ 85 bilhões, mas as ações entraram em trajetória de queda? Há uma ilusão dos investidores com IA?
FS: Aqui temos um ponto importante, o de diferenciar ilusão e queda: historicamente, é absolutamente normal observarmos o preço de empresas ser corrigido (cair) após um IPO, com conversão das expectativas e respiro dos ânimos — porque precisamos lembrar que estamos falando de comportamento humano —, e um IPO de uma empresa nova, em um setor novo, com promessas inovadoras causa euforia, mesmo em um mercado eficiente. É um pouco de “compra agora, questiona depois”.











