Após registrar valorização de 65% em 2025, com a especulação de investidores de varejo, o ouro enfrenta um movimento de correção em 2026, pressionado pela renovação das preocupações com a inflação nos Estados Unidos e pela perspectiva de manutenção de juros elevados pelo Federal Reserve (Fed), segundo a avaliação de Luciano Gioielli, internacionalista do Portal das Commodities.
O movimento de correção se intensificou em junho, quando a cotação caiu 12% e rompeu o patamar de US$ 4.000 por onça pela primeira vez desde novembro de 2025.
Embora tenha registrado um leve alívio no início de julho, o ouro ainda acumula desvalorização de 4% no ano. A velocidade e a magnitude desse ajuste chamam atenção justamente por envolver um ativo historicamente associado à preservação de valor.
A pressão sobre o metal reflete principalmente a reavaliação das expectativas para a política monetária dos EUA. Em um ambiente de juros mais altos, o dólar tende a se fortalecer, comportamento que historicamente ocorre em sentido oposto ao ouro, enquanto os Treasuries (títulos públicos americanos) passam a oferecer rendimentos mais elevados, aumentando a competição pelos recursos dos investidores de perfil conservador.
Nunca foi tão fácil ficar atualizado sobre finanças, economia e investimentos. Assine gratuitamente
Nesse contexto, o ouro perde parte de sua atratividade por não gerar rendimento próprio. Diferentemente dos Treasuries, que remuneram o investidor, o retorno do metal depende exclusivamente da valorização de seu preço. Assim, quando os títulos públicos americanos passam a oferecer ganhos maiores, aumenta o custo de oportunidade de manter posições em ouro, pressionando sua cotação.
Nesta terça-feira (7), o contrato do ouro para agosto fechou em queda de 0,24%, na Comex, encerrando o pregão cotado a US$ 4.157,40 por onça-troy, pressionado pela alta dos rendimentos dos Treasuries e pelo fortalecimento do dólar, em um mercado marcado pela escalada das tensões no Estreito de Ormuz.
Expectativas para os juros definem o preço do ouro
Segundo o Gioielli, o comportamento recente do mercado de trabalho americano também influenciou parte dessas expectativas. Na avaliação do especialista, um payroll abaixo do esperado, indicando desaceleração da economia dos Estados Unidos, reforça as apostas de que o Fed poderá reduzir os juros.
Caso isso aconteça, os Treasuries tendem a oferecer menor rentabilidade. Com isso, o dólar também perde atratividade, em razão da dinâmica de oferta e demanda.
Gioielli explica que dólar, Treasuries e ouro representam os principais ativos conservadores do mercado. Quando dólar e títulos públicos americanos passam a oferecer menor atratividade, parte dos investidores migra para o ouro em busca de proteção.
Ele ressalta, porém, uma diferença importante entre esses ativos. Enquanto os Treasuries pagam rendimentos periódicos, o ouro não gera dividendos nem juros. Por esse motivo, afirma que, no longo prazo, os títulos do Tesouro americano tendem a fazer mais sentido para o investidor conservador.
Segundo Gioielli, a formação dos preços do ouro depende principalmente das expectativas para os juros reais, e não do nível atual das taxas de juros. Em outras palavras, o mercado precifica o metal olhando para o que espera da política monetária nos próximos meses.
Guerra entre EUA e Irã alterou o comportamento do mercado
Além dos fatores econômicos, a geopolítica também exerceu influência relevante sobre o ouro nos últimos meses. Durante boa parte do primeiro semestre, a guerra entre Estados Unidos e Irã produziu um efeito diferente do normalmente esperado. Em geral, conflitos internacionais elevam a procura por ouro, considerado um ativo de proteção.
Desta vez, porém, a alta do petróleo provocada pelas tensões aumentou as preocupações com a inflação. Como consequência, o mercado passou a precificar juros mais altos nos Estados Unidos, em vez de cortes nas taxas, movimento que acabou pressionando as cotações do ouro.
O cenário começou a mudar apenas no fim de junho, quando surgiram sinais de um possível acordo entre Estados Unidos e Irã.
Na avaliação de Gioielli, ouro e Treasuries desempenham funções semelhantes como ativos de proteção. Por isso, os principais fatores que levam investidores a buscar esses ativos são, de um lado, o risco de recessão econômica, ligado aos fundamentos macroeconômicos, e, de outro, os conflitos internacionais, relacionados ao ambiente geopolítico.
Com o avanço das negociações entre Estados Unidos e Irã para encerrar a guerra, o foco do mercado voltou gradualmente para os indicadores econômicos. Segundo o internacionalista, os dados mais acompanhados pelos investidores são aqueles capazes de alterar a percepção dos Bancos Centrais sobre o risco de recessão econômica, já que essa mudança influencia tanto os preços do ouro quanto os rendimentos dos Treasuries.
Bancos Centrais mantêm compras apesar da queda do ouro
A recente correção dos preços não reduziu o interesse de um dos principais participantes desse mercado: os Bancos Centrais. Pesquisa do Conselho Mundial do Ouro, realizada com 74 bancos centrais, mostrou que 45% das instituições pretendem ampliar suas reservas de ouro nos próximos 12 meses.
Trata-se do maior percentual registrado na série histórica do levantamento. Além disso, quase nove em cada dez entrevistados afirmaram esperar um aumento das reservas globais do metal no mesmo período.
As razões apontadas para ampliar essas posições permanecem as mesmas: o desempenho do ouro em momentos de crise, a diversificação das reservas, a proteção contra a inflação e a mitigação de riscos geopolíticos. Na prática, a queda recente das cotações não alterou a percepção dos bancos centrais sobre a função estratégica do metal em suas carteiras.
O levantamento também mostra que, nos últimos quatro anos, eles adquiriram, em média, cerca de 1.000 toneladas de ouro por ano, volume equivalente ao dobro da média registrada na década anterior.
Bancos Centrais criam base para os preços do ouro
Luciano Gioielli afirma que o nível das taxas dos juros norte-americanos, seja mais alto ou mais baixo, provoca oscilações no preço do ouro no curto e no médio prazo, principalmente porque o mercado reage às expectativas sobre as decisões dos bancos centrais.
Na avaliação do especialista, entretanto, as compras realizadas pelos próprios bancos seguem uma lógica diferente. Segundo Gioielli, essas aquisições têm caráter estratégico, voltado à composição das reservas internacionais e ao lastro das moedas, e não à obtenção de retornos no curto ou médio prazo.
Por essa razão, ele afirma que essa demanda institucional funciona como uma base permanente para o mercado.
“As compras dos bancos centrais constituem uma base de demanda, que ajuda a sustentar o preço do ouro, criando um ‘colchão’. As compras que ocorrem em detrimento de efeitos geopolíticos e das taxas de juros são um ‘ruído’ que fica oscilando acima desse colchão.”
Na prática, o especialista diferencia dois movimentos distintos. O primeiro é estrutural, representado pelas compras constantes dos bancos centrais, que sustentam parte da demanda global. O segundo corresponde às oscilações provocadas por fatores como geopolítica e expectativas para os juros, que influenciam os preços no curto prazo.
Ouro supera Treasuries nas reservas globais
Esse processo também alterou a composição das reservas internacionais. Segundo análise do Banco Central Europeu, o ouro ultrapassou, pela primeira vez no ano passado, os títulos do Tesouro americano como principal ativo de reserva dos bancos centrais.
No fim de 2025, o metal representava 27% das reservas dessas instituições, ante 20% um ano antes. No mesmo intervalo, a participação dos Treasuries caiu de 25% para 22%.
Para Gioielli, essa mudança reflete diferenças no horizonte de investimento. Para o investidor tático, que procura oportunidades de ganho no curto prazo, o ouro tende a permanecer menos atrativo enquanto os juros reais americanos seguirem elevados.
Já para os bancos centrais, a correção recente não altera a função do metal como reserva de valor, instrumento de diversificação das reservas internacionais e proteção contra riscos de longo prazo.
Ásia concentra a maior demanda física por ouro
Além das compras dos bancos centrais, a demanda física continua exercendo influência decisiva sobre a formação dos preços.
Gioielli explica uma lógica simples: quanto maior a procura pelo metal, maior tende a ser seu preço: “Quem tiver a mão maior, ou o bolso maior, vai exercer maior influência sobre os preços do metal.”
De acordo com o especialista, entre 60% e 70% de toda a demanda física mundial está concentrada na Ásia. Na prática, isso significa que é a região que determina o comportamento do preço do ouro físico — e não do papel, negociado por meio de contratos financeiros.
Gioielli explica que diariamente são negociados grandes volumes de ouro físico na Ásia. Quando as cotações recuam de forma mais intensa, cresce a procura por joias, barras de ouro e outras modalidades de compra do metal físico, movimento que ajuda a sustentar a demanda.
O especialista lembra ainda que o Oriente Médio também participa desse mercado. Segundo ele, Dubai responde por aproximadamente 3% a 5% da demanda global por ouro físico.
Ouro segue como ativo de proteção em cenários de incerteza
Mesmo diante da pressão provocada pelos juros elevados e pelas expectativas para a economia americana, Luciano Gioielli avalia que o ouro continua exercendo sua principal função: preservar patrimônio em períodos de incerteza.
Segundo o especialista, o metal mantém sua relevância histórica como reserva de valor, independentemente do ciclo econômico.
“Há dez mil anos o ouro tem sido utilizado pelo ser humano como reserva de valor. E provavelmente, nos próximos dez mil, a gente também vai utilizá-lo, pois não perde relevância de proteção quando se trata de proteção de capital, por duas características: ser bonito e indestrutível.”
Na avaliação de Gioielli, essa característica permanece válida mesmo em um ambiente marcado por juros elevados e crescimento econômico.
Ouro raramente é a primeira opção do investidor
Apesar de continuar cumprindo seu papel como ativo de proteção, o especialista destaca que o ouro dificilmente figura como a principal alternativa de investimento.
“Sempre vai ter alguma coisa mais interessante para investir do que o ouro. O ouro nunca é a primeira opção.” Segundo Gioielli, o ouro costuma ser escolhido quando os demais ativos deixam de oferecer uma relação risco-retorno considerada mais atrativa.
Ele explica que o retorno do metal depende exclusivamente da valorização do preço, já que o ativo não distribui dividendos nem qualquer tipo de rendimento periódico. Em contrapartida, um título do Tesouro pode oferecer remuneração recorrente ao investidor.
Por isso, segundo o especialista, a decisão de migrar para o ouro normalmente ocorre quando o cenário econômico se deteriora de forma significativa. Segundo Gioielli, “para escolher o ouro é porque realmente as coisas estão indo muito mal.”
Cenários para o ouro até o fim do ano
As perspectivas para os próximos meses continuam diretamente ligadas ao comportamento da economia global, da inflação e da política monetária dos Estados Unidos.
Segundo o Conselho Mundial do Ouro, no cenário considerado de “consenso macro”, a cotação do metal deve oscilar entre queda de 5% e alta de 5% até o fim do ano. Caso a economia mundial apresente uma deterioração mais intensa, a valorização poderá variar entre 15% e 30%.
No cenário oposto, caracterizado por aceleração da inflação e fortalecimento do dólar, o ouro poderá registrar desvalorização de até 20%.











