Os mercados globais iniciam esta quinta-feira (9) em recuperação, após a forte aversão ao risco registrada na véspera, mas ainda sob influência da escalada no Oriente Médio. Depois do segundo dia consecutivo de ataques dos Estados Unidos contra o Irã, o foco dos investidores passa a ser a possibilidade de o conflito abrir espaço para uma negociação diplomática ou evoluir para uma guerra de maiores proporções.
Os ataques americanos tiveram como alvo estruturas associadas às ameaças à navegação no Estreito de Ormuz. Em comunicado, o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) afirmou que a operação foi determinada para preservar a liberdade de navegação em uma das rotas marítimas mais estratégicas para o abastecimento mundial de energia.
Segundo a imprensa iraniana, explosões foram registradas em Bandar Abbas, Sirik, Konarak e Chabahar. Entre os alvos atingidos estariam uma torre de controle do tráfego marítimo e um armazém comercial. Em resposta, Teerã voltou a ameaçar o fechamento integral do Estreito de Ormuz e endureceu o discurso sobre seu programa nuclear, aumentando o prêmio de risco geopolítico incorporado aos preços do petróleo.
Durante a cúpula da Otan, em Ancara, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o cessar-fogo “acabou”, voltou a ameaçar novas ofensivas e disse que representantes iranianos teriam procurado Washington para discutir um possível acordo, embora tenha declarado não confiar que o Irã cumpra qualquer compromisso. Até o momento, Teerã não confirmou o suposto contato.
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Trump também elevou o tom ao afirmar que os Estados Unidos poderão ampliar a pressão militar sobre o Irã, incluindo um eventual bloqueio aos portos iranianos, ações contra a Ilha de Kharg e ataques à infraestrutura de energia, dessalinização e abastecimento de água. Ao mesmo tempo, descartou o envio de tropas terrestres, sinalizando que a estratégia americana continua concentrada em operações de pressão militar e econômica.
A nova escalada também fragilizou o memorando de entendimento mediado pelo Paquistão. Islamabad manifestou profunda preocupação com a deterioração do cenário e voltou a defender o cumprimento dos compromissos assumidos pelas partes, reiterando que a diplomacia permanece como a única alternativa para evitar uma ampliação do conflito.
Apesar das declarações de Trump sobre uma possível abertura para negociações, o mercado continua sem sinais concretos de desescalada. As conversas seguem suspensas durante o funeral do aiatolá Ali Khamenei, mantendo investidores dependentes dos próximos desdobramentos militares e diplomáticos para calibrar as expectativas sobre o petróleo e os ativos globais.
Na avaliação da Capital Economics, o mercado de petróleo deve continuar operando sob elevada volatilidade nos próximos meses, sujeito a novos episódios de forte pressão altista sempre que houver deterioração do quadro geopolítico.
Escalada no Oriente Médio altera cenário para combustíveis no Brasil
A volta do petróleo para perto de US$ 80 por barril começa a produzir efeitos também sobre a política de combustíveis no Brasil. Segundo o Broadcast, o governo passou a reavaliar o cronograma de retirada da subvenção à gasolina e considera manter por mais tempo os subsídios ao diesel, diante da nova alta das cotações internacionais.
Na semana passada, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, havia indicado que o auxílio de R$ 0,44 por litro concedido à gasolina começaria a ser retirado nesta semana, sustentado pela queda do petróleo para níveis próximos aos observados antes da guerra. A retomada da tensão no Oriente Médio, porém, alterou esse cenário.
O governo já reduziu parcialmente o subsídio ao diesel, mas ainda mantém uma ajuda de R$ 1,12 por litro. A Petrobras recebeu R$ 4,7 bilhões para participar do programa, e fontes do governo avaliam que uma nova disparada do petróleo poderá levar à revisão do cronograma de redução desse benefício.
A escalada das cotações também ampliou a defasagem dos preços domésticos em relação ao mercado internacional. De acordo com a Abicom, o diesel comercializado pela Petrobras apresenta defasagem de 35% frente à paridade de importação, enquanto a gasolina acumula diferença de 24%, aumentando a pressão por futuros reajustes caso o petróleo permaneça em níveis elevados.
Em Brasília, a Câmara dos Deputados aprovou uma medida provisória que abre crédito extraordinário de R$ 10 bilhões para financiar a política de subsídios ao diesel até o fim de 2026. O texto segue agora para análise do Senado, assegurando recursos para a continuidade do programa.
Manchetes desta manhã
- Entrada de dólares no primeiro semestre é a maior desde 2018 (Valor)
- Controladoria do governo aponta falhas na gestão de fundo bilionário da aviação (Folha)
- Vale nega irregularidade em renúncia de presidente do Conselho, após processo aberto pela CVM (Estadão)
- Correios suspendem parte de plano de reestruturação e adiam fechamento de agências (O Globo)
Mercado global é guiado pela alta do petróleo e ações de tecnologia
As bolsas da Europa operam majoritariamente em alta, em um pregão volátil, com investidores repercutindo os desdobramentos no Oriente Médio após o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmar que o Irã queria fazer um acordo.
A alta é puxada pelas ações de tecnologia, sobretudo do setor de semicondutores. A Siltronic lidera os ganhos com alta de 10,5%, seguida por Soitec (+4,5%) e ASML (+2,6%). O movimento ocorre após uma pausa do setor, que havia encerrado junho com seu melhor desempenho trimestral desde 2001. Apesar da recuperação desta sessão, o segmento ainda acumula o pior desempenho entre os componentes do índice STOXX 600 neste mês.
Na Ásia, o desempenho dos índices foi misto, com investidores atentos à escalada no Oriente Médio após novos ataques dos EUA contra o Irã e ao risco de interrupções no fornecimento de energia.
Japão e Coreia do Sul recuperaram parte das perdas recentes e na China, o destaque ficou com o setor de semicondutores, impulsionado pela expectativa em torno do IPO da Changxin Memory Technologies (CXMT), uma das principais fabricantes chinesas de chips de memória.
Em Nova York, os índices futuros operam mistos, em um movimento de recuperação dos mercados, com os investidores monitorando a escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã e o forte avanço dos preços do petróleo.
Confira os principais índices do mercado:
- S&P 500 Futuro: +0,11%
- FTSE 100: -0,77%
- CAC 40: +0,16%
- Nikkei 225: +1,38%
- Shanghai SE Comp: +1,65%
- Hang Seng: -0,70%
- Ouro (jun): +0,9%, a US$ por 4.119,07 por onça troy
- Índice do dólar (DXY): -0,10%, aos 100,97 pontos
- Bitcoin: +1,3% a US$ 62.755,7
Commodities
- Petróleo: os contratos futuros avançam com menor intensidade, após a forte alta da véspera provocada pelos novos ataques dos EUA ao Irã. O mercado também repercute a declaração de Donald Trump de que Teerã teria procurado Washington para negociar um acordo de paz.
Analistas avaliam que a escalada no Oriente Médio pode atrasar a recomposição da oferta de petróleo pelos produtores do Golfo e voltar a comprometer o transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz.
O Brent/setembro avança 0,97%, cotado a US$ 78,78 e o WTI/agosto sobe 0,87%, a US$ 74,16. - Minério de ferro: fechou em alta de 0,27% em Dalian, na China, cotado a US$ 109,72 a tonelada.
Cenário internacional
A agenda econômica desta quinta-feira disputa atenção com os desdobramentos da crise no Oriente Médio, que continua sendo o principal fator de precificação dos mercados. No exterior, o destaque é a divulgação da ata da última reunião do Banco Central Europeu (BCE), às 8h30.
Nos Estados Unidos, investidores acompanham os pedidos semanais de auxílio-desemprego, às 9h30, e as vendas de moradias usadas, às 11h. Também estão previstos discursos de dois dirigentes do Federal Reserve (Fed): John Williams, presidente do Fed de Nova York, às 10h, e Lorie Logan, do Fed de Dallas, às 14h30.
Apesar da disparada do petróleo recolocar a inflação no centro das atenções, o mercado ainda não alterou de forma significativa suas apostas para a política monetária. A principal avaliação é que o impacto do choque geopolítico permanece difícil de dimensionar, o que limita mudanças mais bruscas nas expectativas para os juros.
A ferramenta FedWatch, do CME Group, mostrou redução da probabilidade de alta dos juros na reunião do Fed dos dias 28 e 29 deste mês, de 34,7% para 30,5%, enquanto a chance de manutenção aumentou de 65,3% para 69,5%. Para setembro, o cenário-base continua sendo de aperto monetário, mas a probabilidade recuou para 67,8%, ante 71,1% na véspera e 50,6% logo após a divulgação do payroll da semana passada. As apostas de algum aumento de juros até dezembro também perderam força, passando de 87,3% para 84,9%.
O avanço das tensões entre Estados Unidos e Irã também reduziu a relevância da ata da última reunião do Fed, divulgada ontem. O documento foi elaborado antes da deterioração do cenário geopolítico e, por isso, passou a ser visto pelo mercado como um retrato de um contexto que já não reflete as novas condições para a condução da política monetária.
Na Europa, investidores elevaram as apostas de novos aumentos de juros pelo BCE e pelo Banco da Inglaterra (BoE) ainda neste ano, incorporando inclusive o risco de um aperto adicional de até 50 pontos-base em 2026. O dirigente do BCE Joachim Nagel reconheceu preocupação com a alta do petróleo, mas evitou antecipar uma decisão para a reunião de julho. “Será mais fácil ver como as coisas evoluirão em setembro”, afirmou.
A mudança de percepção também pressionou o mercado de renda fixa europeu. O rendimento do título alemão de dez anos avançou oito pontos-base, para 3,068%, maior nível desde 11 de junho, enquanto o papel de dois anos subiu nove pontos-base, para 2,676%, também no maior patamar em quase um mês, refletindo o aumento das expectativas de inflação.
Brasil acompanha Oriente Médio e agenda econômica reduzida
No Brasil, a agenda doméstica é esvaziada pelo feriado de 9 de Julho em São Paulo, embora a B3 opere normalmente. Com poucos indicadores relevantes, o mercado deve concentrar atenção quase integralmente na evolução do conflito entre Estados Unidos e Irã e em seus efeitos sobre o petróleo, a inflação e os ativos globais.
Pela manhã, a Fundação Getulio Vargas (FGV) divulga a primeira prévia do IGP-M de julho e o IPC-S Capitais. Às 11h, o Tesouro Nacional realiza leilão de LTN e NTN-F, enquanto o Banco Central oferta, às 11h30, até US$ 2,5 bilhões em swaps cambiais.
No campo político, o Senado aprovou a medida provisória que destina até R$ 15 bilhões em linhas de crédito do programa Brasil Soberano para micro, pequenas e médias empresas afetadas pela guerra no Oriente Médio e pelo aumento das tarifas comerciais. O texto amplia os instrumentos de financiamento às exportações, fortalece as regras do Seguro de Crédito à Exportação e do Fundo de Garantia à Exportação (FGE). Os recursos serão provenientes do superávit financeiro do fundo e operacionalizados pelo BNDES.
Outra frente acompanhada pelo mercado é a preparação de uma medida provisória para renegociar dívidas do setor rural e destravar o acesso dos produtores ao Plano Safra. A proposta busca substituir o projeto aprovado pelo Senado, considerado pela equipe econômica um risco fiscal.
Pelo desenho em estudo, o custo da medida ficaria em torno de R$ 1,5 bilhão por ano. Já a Frente Parlamentar da Agropecuária defende ampliar o alcance da renegociação, elevando o impacto fiscal estimado para aproximadamente R$ 2,5 bilhões anuais.
Destaques do mercado corporativo
- Vale: renovou contrato ferroviário de R$ 51,3 bilhões com a MRS até 2041, mas caiu 4,59% após rebaixamento do Morgan Stanley e abertura de processo pela CVM.
- Apple: avançou após anunciar acordo bilionário para produção de chips, fortalecendo o setor de semicondutores.
- Cosan: teve o rating rebaixado pela S&P para B+, com perspectiva negativa, devido à elevada alavancagem e à redução da participação na Raízen.
- Oncoclínicas: avalia protocolar plano de recuperação extrajudicial; cerca de um terço dos credores já aderiu à proposta.











