A guerra entre Estados Unidos e Irã ganha um novo capítulo nesta terça-feira (14), com um aumento constante da aversão ao risco nos mercados globais. Após três noites consecutivas de ataques americanos contra alvos militares iranianos, Teerã retaliou com ofensivas contra navios-tanque no Estreito de Ormuz, enquanto o presidente Donald Trump anunciou que os Estados Unidos passarão a controlar a principal rota marítima do petróleo no mundo a partir desta terça-feira, às 17h (horário de Brasília).
Segundo Trump, será cobrada uma taxa de 20% sobre todas as embarcações que utilizarem a rota, independentemente da bandeira. O bloqueio abrangerá toda a costa iraniana, incluindo portos e terminais de petróleo, ampliando significativamente o alcance das restrições impostas pelos Estados Unidos.
A medida elevou imediatamente a percepção de risco no mercado de energia. Na sessão anterior, o petróleo registrou alta próxima de 10%, o maior avanço diário desde 2020, refletindo o temor de interrupções mais severas no fornecimento mundial da commodity.
O impacto já pode ser observado no fluxo marítimo da região. Dados da empresa de rastreamento Kpler mostram que mais de 8 milhões de barris de petróleo atravessaram o Estreito de Ormuz no domingo (12) sob apoio militar dos Estados Unidos. Apesar disso, o tráfego total de embarcações recuou cerca de 60% na comparação semanal, evidenciando o aumento da cautela das companhias de navegação.
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O governo iraniano reagiu rapidamente ao anúncio americano. Em publicação na rede X, o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araqchi, afirmou que o Irã continuará sendo o “guardião” do Estreito de Ormuz “para sempre”. Em referência à tarifa proposta por Trump, escreveu: “20% é, obviamente, demais. Seremos justos”.
Caso a cobrança de 20% seja efetivamente implementada, a arrecadação dos Estados Unidos poderia alcançar cerca de US$ 240 milhões por dia, segundo estimativas. A proposta, porém, enfrenta questionamentos jurídicos. A agência das Nações Unidas responsável pelo setor de navegação declarou que não existe base legal para a cobrança obrigatória de pedágios em estreitos utilizados para a navegação internacional e manifestou oposição à medida.
A retomada dos ataques também aumenta as incertezas em torno do acordo provisório firmado entre Estados Unidos e Irã no mês passado. O recrudescimento do conflito coloca em dúvida a possibilidade de uma solução diplomática para uma guerra que já dura mais de quatro meses e que vem comprometendo o abastecimento global de energia, além de reforçar os temores de uma nova rodada de pressão inflacionária sobre a economia mundial.
Em meio ao agravamento da crise, os investidores acompanham agora a expectativa pelo pronunciamento de Donald Trump, nesta quinta-feira, às 22h (de Brasília). A Casa Branca ainda não informou o tema do discurso, mas o mercado espera sinais sobre os próximos passos da estratégia americana no Oriente Médio e possíveis desdobramentos para o mercado de petróleo.
No Brasil, apesar da disparada do Brent novamente para acima de US$ 80 por barril, o governo mantém sua estratégia para os combustíveis. Segundo o Broadcast, a equipe econômica avalia que os impactos da alta do petróleo ainda permanecem administráveis e não vê necessidade, neste momento, de retomar a subvenção adicional de R$ 0,35 por litro ao diesel.
A avaliação é que o subsídio atualmente em vigor, de R$ 1,12 por litro, oferece proteção suficiente para absorver parte da pressão provocada pela valorização do petróleo. Já a retirada dos subsídios da gasolina continuará adiada enquanto persistir a elevada volatilidade causada pela guerra.
O governo também descartou, por ora, retomar o projeto que previa compensar uma eventual redução de impostos sobre combustíveis com o aumento da arrecadação decorrente da alta do petróleo.
Nos cálculos da equipe econômica, um novo sinal de alerta só seria acionado caso o Brent avance para a faixa dos US$ 90 por barril. Até esse patamar, a avaliação é que os instrumentos atualmente disponíveis são suficientes para administrar os efeitos da guerra sobre os preços domésticos.
Manchetes desta manhã
- Oncoclínicas protocola pedido de recuperação extrajudicial (Valor)
- Índia proíbe importação de produtos feitos com trabalho forçado em meio a investigação dos Estados Unidos (Folha)
- Coreia do Sul eleva previsão de crescimento econômico em meio popularização da IA (Estadão)
- Senado pode votar hoje PEC da aposentadoria especial para agente de saúde, com impacto de R$ 30 bi (O Globo)
Mercado global oscila com escalada no oriente Médio e inflação dos EUA
As bolsas da Europa eram em queda, com investidores à espera dos dados de inflação dos Estados Unidos e da nova temporada de balanços.
No noticiário local, as ações da Ericsson recuaram até 8% após vendas trimestrais abaixo do esperado e alerta para possíveis aumentos nos custos de componentes. Na direção oposta, o setor de energia avança com a alta do petróleo, enquanto a BP subiu 3% após indicar que as vendas da commodity devem crescer no segundo trimestre.
Na Ásia, os mercados recuperaram parte das perdas da véspera, mas o clima de cautela com os impactos sobre o petróleo e a inflação global permaneceu diante da escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã.
Em Xangai, as ações de empresas de semicondutores e tecnologia lideraram os ganhos da sessão.
Em Nova York, os índices futuros abriram operam sem direção única, em meio ao aumento das tensões no Oriente Médio após novas ameaças envolvendo o Estreito de Ormuz. O mercado também acompanha a temporada de balanços corporativos e aguarda a divulgação de novos indicadores de inflação nos Estados Unidos.
Confira os principais índices do mercado:
- S&P 500 Futuro: -0,07%
- FTSE 100: -0,35%
- CAC 40: -0,76%
- Nikkei 225: +0,74%
- Shanghai SE Comp: +1,36%
- Hang Seng: +0,52%
- Ouro (jun): +0,76%, a US$ por 4.036,20 por onça troy
- Índice do dólar (DXY): -0,30%, aos 100,99 pontos
- Bitcoin: +0,47% a US$ 62.908,3
Commodities
- Petróleo: os contratos futuros do petróleo ampliam os ganhos nesta terça-feira, impulsionados pela escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã. O Brent superou os US$ 86 pela primeira vez em um mês, após o presidente Donald Trump restabelecer o bloqueio a navios iranianos no Estreito de Ormuz.
O Brent/setembro avança 3,24%, cotado a US$ 86, enquanto o WTI/agosto sobe 2,02%, a US$ 79,72. - Minério de ferro: fechou em alta de 1,81% em Dalian, na China, cotado a US$ 112,17 a tonelada.
Cenário internacional
Antes da abertura de Wall Street, JPMorgan, Citigroup, Wells Fargo, Goldman Sachs e Bank of America divulgam os resultados do segundo trimestre, inaugurando uma temporada de balanços que deve oferecer novos sinais sobre a atividade econômica, o crédito e a saúde do sistema financeiro americano.
No campo da política monetária, o foco estará sobre Kevin Warsh, que apresenta, pela primeira vez, o relatório semestral de política monetária do Federal Reserve ao Congresso. A expectativa é de que parlamentares pressionem Warsh sobre os próximos passos da política monetária, especialmente após as divergências expostas dentro do próprio Fed.
O diretor Christopher Waller afirmou que “não é o momento de recorrer ao forward guidance”, em referência à defesa feita por Warsh, na última reunião do Fomc, de uma comunicação mais orientada sobre os próximos movimentos da autoridade monetária. Para Waller, as decisões devem continuar sendo determinadas pela evolução dos indicadores econômicos. Ao mesmo tempo, o dirigente alertou que um núcleo de inflação acima do esperado poderá justificar uma nova alta dos juros, contribuindo para elevar os rendimentos dos Treasuries.
Além de Warsh, outros quatro dirigentes do Federal Reserve participam de eventos ao longo do dia: Michael Barr (13h40), Austan Goolsbee (14h), Lisa Cook (14h30) e Michelle Bowman (15h55). O mercado buscará novos sinais sobre inflação, atividade econômica e a trajetória dos juros após a divulgação do CPI.
Na agenda econômica, o destaque fica para o índice de preços ao consumidor (CPI) de junho nos Estados Unidos. A expectativa do mercado é de inflação anual de 3,8%, acompanhada de deflação na comparação mensal. Mais do que o resultado em si, os investidores tentarão medir se a nova disparada do petróleo poderá interromper o processo de desinflação nos próximos meses e obrigar o Fed a manter uma postura mais cautelosa.
Essa preocupação já começou a ser refletida nos mercados. Dados do CME Group mostram aumento das apostas em novas altas de juros tanto na reunião de julho quanto na de setembro, diante do risco de que um choque mais persistente nos preços da energia complique o trabalho do banco central americano.
Cenário nacional
No Brasil, a agenda também reúne eventos relevantes. Às 9h, o IBGE divulga o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) de junho. Em seguida, o Tesouro Nacional realiza leilões de NTN-B e LFT, às 11h, enquanto o Banco Central promove, às 11h30, um leilão de US$ 2,5 bilhões em swaps cambiais para a rolagem de contratos.
No cenário político, o governo brasileiro intensifica as negociações com a Casa Branca a apenas dois dias da conclusão da investigação comercial conduzida pelo USTR. Nos bastidores, integrantes da equipe econômica já consideram improvável reverter integralmente a tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros e passaram a concentrar esforços na ampliação da lista de exceções para setores considerados estratégicos também para os Estados Unidos.
Apesar desse cenário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou na segunda-feira que “não vai ter tarifaço”, declaração que contrasta com a avaliação reservada de integrantes do próprio governo. O relatório final da investigação do USTR será divulgado nesta quarta-feira (15).
Outro tema no radar é o risco de paralisação dos caminhoneiros às vésperas do vencimento da Medida Provisória do Frete, previsto para quinta-feira. Enquanto a Advocacia-Geral da União busca alternativas para evitar uma greve nacional, o líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues, afirmou que há um acordo avançado com a oposição para votar a proposta ainda nesta terça-feira no Senado, medida que, segundo ele, retiraria a justificativa para uma mobilização da categoria.
Destaques do mercado corporativo
- Petrobras: a GQG Partners passou a deter participação equivalente a 4,99% das ações ordinárias da companhia por meio de ADRs.
- Engie: o follow-on já possui demanda superior à oferta e pode movimentar até R$ 10,4 bilhões.
- Renova Energia: a B3 prorrogou até 30 de novembro o prazo para reenquadramento da cotação mínima de R$ 1 por ação.
- T4F: o conselho de administração aprovou parecer favorável à aceitação da OPA a R$ 5,59 por ação. O leilão está marcado para 20/07.
- Grupo Abra: o IPO em Nova York, que reuniria Gol e Avianca, deve ser adiado para 2027 em razão da elevada volatilidade do setor aéreo.











