Por Radamés Casseb*
À medida que os eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes e intensos, a discussão sobre segurança hídrica ganha cada vez mais espaço no debate público. Secas severas, enchentes históricas e episódios de escassez vêm pressionando cidades, sistemas produtivos e governos em todo o mundo. Recentemente, a ONU decretou estado de falência hídrica no planeta, alertando para o fato de que a humanidade consome mais água do que a natureza é capaz de repor.
O problema é que, muitas vezes, o debate ignora um elemento estruturante: sem saneamento básico, qualquer discurso sobre segurança hídrica se torna incompleto, ou, no limite, irreal.
Segurança hídrica não se resume apenas à disponibilidade de água em rios e reservatórios. De fato, o que a define é garantir que a água possa ser captada dos mananciais, tratada, distribuída e entregue nas nossas casas, utilizada no nosso dia a dia, coletada, transportada para tratamento novamente e devolvida aos mananciais, preservada de forma contínua e cíclica, mesmo diante de pressões climáticas e urbanas. Com o saneamento adequado e preventivo, o sistema hídrico atua de modo eficaz.
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A experiência recente no Brasil demonstra claramente essa relação. Episódios extremos de clima expuseram fragilidades históricas da infraestrutura hídrica do país, mas também mostraram como sistemas de saneamento bem estruturados são determinantes para garantir continuidade e retomada de serviços, reduzindo impactos sociais e operacionais.
No Rio Grande do Sul, por exemplo, as enchentes de 2024 atingiram centenas de municípios e comprometeram sistemas inteiros de abastecimento. Na ocasião, mais de 900 mil residências foram impactadas em 67 cidades durante o pico da crise. A resposta exigiu mobilização técnica imediata, ampliando emergencialmente a infraestrutura de resiliência, com instalação de reservatórios, perfuração de poços, estruturas de captação flutuantes e reforço de equipamentos operacionais. Em poucos dias, mais de 700 mil famílias tiveram o abastecimento restabelecido, demonstrando como capacidade técnica, planejamento e rápido poder de reação são fatores decisivos em cenários climáticos extremos.
Outro exemplo vem da Amazônia. Manaus enfrentou nos últimos anos períodos de estiagem histórica, com níveis críticos do Rio Negro. A manutenção do abastecimento exigiu medidas estruturais, como rebaixamento de bombas de captação e instalação de equipamentos adaptados às variações extremas do nível do rio. Esse tipo de solução, incorporado à operação, ilustra como a infraestrutura hídrica precisa se adaptar para lidar com eventos cada vez mais frequentes e intensos.
Essas boas práticas mostram que a segurança hídrica depende de engenharia, gestão e investimento contínuo. É a expansão das redes de água e esgoto, aliada ao controle de perdas, à modernização dos sistemas e à gestão dos ativos, que aumenta a resiliência das cidades frente às mudanças climáticas.
O mesmo raciocínio se aplica à recuperação de corpos d’água urbanos, que também são fundamentais para preservar o meio ambiente e a água, consequentemente. Na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, intervenções recentes em sistemas de coleta e tratamento de esgoto vêm alterando gradualmente a qualidade ambiental de áreas historicamente degradadas. Na Baía de Guanabara, por exemplo, a recuperação de infraestruturas de esgotamento sanitário contribuiu para reduzir significativamente o lançamento de esgoto sem tratamento na Baía de Guanabara, historicamente um dos maiores desafios ambientais da região.
Esses casos ilustram um ponto essencial: a segurança hídrica não depende somente da barragem ou da nascente, mas do tratamento do esgoto e da gestão eficiente da água nas cidades. Onde o esgoto é coletado e tratado, os mananciais são preservados, a qualidade da água melhora e os sistemas tornam-se mais resilientes.
Saneamento e controle de perdas ficam de lado
Há ainda outro componente frequentemente ignorado no debate: o controle de perdas. No Brasil, uma parcela significativa da água tratada ainda se perde antes de chegar às torneiras dos consumidores. Investimentos em tecnologia, monitoramento de redes e modernização da infraestrutura permitem reduzir esse desperdício e ampliar a disponibilidade hídrica sem necessariamente aumentar a captação de água nos mananciais.
Programas estruturados de redução de perdas podem recuperar bilhões de litros de água por ano – um volume capaz de abastecer milhões de pessoas. Por isso, tratar a segurança hídrica apenas como consequência da variabilidade climática é simplificar um problema estrutural.
O combate à crise hídrica não será resolvido apenas com alertas meteorológicos ou novos reservatórios. Ela exige governança, diálogo constante e sistemático, investimentos consistentes em saneamento, gestão eficiente dos sistemas e planejamento de longo prazo – tudo isso para evoluir na prestação dos serviços com mais previsibilidade e tarifas mais justas, principalmente para os tecidos sociais mais vulneráveis.
O Brasil ainda convive com déficits significativos de acesso à água tratada e coleta de esgoto. A universalização desses serviços, prevista no marco legal do saneamento, não é apenas uma meta regulatória. É uma política pública essencial para a saúde, o meio ambiente e a resiliência das cidades.
Vale lembrar que a aprovação do Marco Legal do Saneamento, em 2020, foi resultado de um amplo movimento que reuniu diferentes setores da sociedade, especialistas, governos e operadores em torno de um objetivo comum: enfrentar de forma estrutural o déficit histórico de saneamento no Brasil. A construção dessa agenda foi essencial para dar previsibilidade ao setor e criar um ambiente de segurança jurídica capaz de sustentar contratos de longo prazo, algo indispensável para um segmento que exige investimentos intensivos e planejamento de décadas.
Esse novo ambiente regulatório já tem permitido destravar investimentos, expandir infraestrutura e levar saneamento a regiões que permaneceram por décadas sem acesso a esses serviços. Mais do que viabilizar negócios, esse processo gera impacto direto na vida das pessoas: melhora a saúde pública, preserva os recursos hídricos, fortalece a resiliência das cidades e contribui para o desenvolvimento econômico e social do país, tornando realidade a verdadeira inclusão sanitária no Brasil e compartilhando prosperidade.
Em um cenário em que as mudanças climáticas pressionam cada vez mais os sistemas urbanos e os recursos naturais, é fundamental compreender que segurança hídrica não se constrói apenas com discursos. Sem saneamento, o risco de escassez vira manchete recorrente. Com saneamento, transforma-se em gestão responsável de um recurso essencial à vida.
*Radamés Casseb é CEO da Aegea Saneamento











