*Por Bruno Perottoni
O primeiro semestre de 2026 terminou deixando uma mensagem clara para empresas e investidores: o cenário econômico brasileiro continua exigindo cautela. Embora alguns indicadores tenham demonstrado resiliência, os fundamentos da economia ainda apresentam desafios relevantes: a inflação segue pressionando o orçamento de famílias e empresas, os juros permanecem em patamares elevados e as preocupações fiscais continuam no radar dos agentes econômicos. Ao mesmo tempo, o ambiente internacional segue marcado por incertezas geopolíticas e forte volatilidade nos mercados.
Esse conjunto de fatores cria um contexto em que decisões financeiras e empresariais precisam ser tomadas com uma visão de longo prazo, sem espaço para excessos de otimismo ou movimentos especulativos.
Dados do Banco Central mostram que a taxa Selic permanece em níveis historicamente elevados, refletindo o esforço da autoridade monetária para manter a inflação sob controle. Embora o aperto monetário seja uma ferramenta importante para preservar o poder de compra da moeda, seus efeitos sobre a atividade econômica são inevitáveis. Crédito mais caro significa menor capacidade de investimento, redução do consumo e um ambiente mais desafiador para empresas de diversos setores.
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Quando o custo do capital aumenta, toda a economia sente os impactos. Projetos de expansão são adiados, o financiamento se torna mais restritivo e a inadimplência tende a crescer. Trata-se de um desafio que não afeta apenas pequenas e médias empresas, mas toda a cadeia produtiva.
Eleições devem ampliar a volatilidade dos mercados
Além disso, o Brasil entra em um período de atenção crescente ao cenário político. Historicamente, anos eleitorais costumam ampliar a volatilidade dos mercados, especialmente quando surgem dúvidas sobre os rumos da política econômica. Mais do que a disputa política em si, o que os investidores e empresários buscam é previsibilidade.
Os mercados não reagem apenas aos resultados das urnas, mas, sobretudo, às expectativas construídas ao longo do processo eleitoral. Por isso, é natural que o segundo semestre seja marcado por uma postura mais conservadora por parte de investidores e empresas, à medida que o cenário político ganha protagonismo.
Efeitos da geopolítica, El Niño e câmbio
No ambiente internacional, os efeitos das tensões geopolíticas dos últimos meses continuam sendo monitorados. Embora os avanços diplomáticos no Oriente Médio tenham reduzido parte das preocupações relacionadas ao petróleo, os impactos acumulados ainda permanecem presentes.
O petróleo possui uma característica singular dentro da economia global: seus efeitos vão muito além dos combustíveis. A commodity influencia toda a estrutura logística e produtiva. Quando os preços da energia sobem, os reflexos se espalham por praticamente todos os setores, pressionando custos e alimentando novas pressões inflacionárias.
Além das questões geopolíticas, eventos climáticos extremos também representam um fator de atenção crescente para o segundo semestre. Problemas relacionados à produção agrícola, à oferta de alimentos e aos custos logísticos podem gerar novas pressões sobre os preços, independentemente da evolução do cenário internacional.
No mercado cambial, a volatilidade deve continuar sendo uma das principais características dos próximos meses. Embora o real tenha apresentado relativa estabilidade em determinados momentos do ano, parte desse movimento está associada ao diferencial de juros oferecido pelo Brasil. Em um ambiente global de incerteza, taxas elevadas continuam atraindo recursos de curto prazo em busca de rentabilidade.
O problema é que esse fluxo possui natureza essencialmente oportunista. São recursos que entram rapidamente no país e podem sair na mesma velocidade diante de qualquer mudança de percepção de risco. Diferentemente dos investimentos produtivos, que geram empregos, expansão empresarial e crescimento econômico, o capital especulativo possui impacto mais limitado sobre a economia real. Por isso, empresas com exposição internacional precisam adotar uma postura cada vez mais estratégica em relação ao câmbio.
Em momentos como o atual, o objetivo não deve ser prever a cotação futura do dólar nem buscar ganhos especulativos. O foco precisa estar na proteção das operações e na preservação das margens de negócio. Ferramentas de hedge cambial deixam de ser instrumentos restritos às grandes companhias e passam a representar um componente essencial da gestão financeira.
Importadores precisam garantir previsibilidade de custos. Exportadores precisam proteger receitas futuras. Em ambos os casos, a gestão de risco torna-se mais importante do que qualquer tentativa de antecipar movimentos do mercado.
O segundo semestre de 2026 não será definido por um único evento. Ele será resultado da combinação entre política monetária, cenário eleitoral, inflação, geopolítica, questões climáticas e fluxo internacional de capitais. Diante desse ambiente, a principal estratégia para empresas e investidores não será buscar retornos extraordinários, mas preservar previsibilidade e reduzir vulnerabilidades.
Em períodos de elevada incerteza, a disciplina, gestão de riscos e planejamento tendem a produzir resultados mais consistentes do que apostas de curto prazo. Para empresas e investidores expostos ao mercado financeiro ou ao comércio internacional; essa, talvez, seja a principal lição econômica do ano.
*Bruno Perottoni é Diretor de Tesouraria do Banco Braza











