Por Luciano Gioielli*
A trégua entre Estados Unidos e Irã voltou a ser colocada em xeque após uma nova escalada militar. Depois que o Irã atacou três embarcações petroleiras que transitavam pelo Estreito de Ormuz — Al Rekayyat, Wedyan e Al Maryah —, os EUA responderam atacando aproximadamente 80 alvos em território iraniano e ampliando as sanções contra as exportações de petróleo do país.
Em seguida, Teerã retaliou com uma série de ataques de drones e mísseis contra instalações militares americanas na região, incluindo o Porto de Salman, no Bahrein, e a Base Aérea Ali Al Salem, no Kuwait.
Nesse cenário, o principal obstáculo para uma nova guerra não é militar, mas econômico. Donald Trump não pode se dar ao luxo de reiniciar um conflito de grandes proporções enquanto o mercado mundial de petróleo permanece fragilizado. Diferentemente do início da guerra, os estoques globais hoje estão muito menores, reduzindo a capacidade do mercado de absorver novos choques de oferta e aumentando significativamente o custo político de uma nova escalada.
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Vale lembrar que esse episódio representa a violação mais grave do cessar-fogo firmado entre os dois países. A própria postura do governo americano já indicava preocupação com a situação do mercado de petróleo.
Na semana passada, durante entrevista ao programa de Michael Null, o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, sugeriu que a pausa nas hostilidades também serviria para permitir a recomposição dos estoques globais de petróleo. “Acho que o que o presidente nos disse para fazer é usar isso para, de certa forma, reabastecer a economia mundial com petróleo, recompor alguns estoques e depois ver como a situação evolui.”
Por que o petróleo resistiu ao primeiro choque
Nos últimos dois meses, o mercado mundial de petróleo demonstrou uma resiliência surpreendente. Apesar de enfrentar o que o Goldman Sachs classificou como o maior choque de oferta da história — com a interrupção de aproximadamente 11 milhões de barris por dia em decorrência do fechamento do Estreito de Ormuz —, os preços oscilaram, durante boa parte do período, entre US$ 90 e US$ 120 por barril.
No início da crise, muitos analistas chegaram a projetar que o petróleo poderia atingir US$ 200 por barril caso Ormuz permanecesse fechado por um período prolongado. Esse cenário, entretanto, nunca se concretizou.
A principal razão foi o elevado nível dos estoques globais. Segundo a Administração de Informação sobre Energia dos Estados Unidos (EIA), o mundo iniciou a crise com aproximadamente 8,4 bilhões de barris armazenados, volume significativamente superior à média histórica. Essas reservas passaram a ser utilizadas de forma intensa para compensar a perda de oferta e impedir uma disparada ainda maior dos preços.
O papel decisivo da China
Outro fator importante foi a queda inesperada das importações chinesas de petróleo. A China, tradicionalmente a maior importadora mundial da commodity, reduziu suas compras em cerca de 4 milhões de barris por dia, proporcionando um alívio importante ao mercado internacional.
Parte dessa redução parece estar relacionada ao aumento da utilização de veículos elétricos. O volume de recargas públicas cresceu 17% entre abril e maio, indicando que parte dos consumidores migrou para alternativas menos dependentes dos combustíveis fósseis diante da alta dos preços. Entretanto, a principal explicação parece ter sido outra: a utilização dos enormes estoques estratégicos acumulados pelo país ao longo dos últimos anos.
Segundo a Bloomberg, aproximadamente metade da redução das importações chinesas foi compensada pela utilização dessas reservas. Em outras palavras, o mercado conseguiu atravessar o pior momento da crise consumindo estoques acumulados tanto pela China quanto por diversos outros países.
Esse mecanismo, porém, possui um limite. À medida que os estoques foram sendo consumidos, a capacidade do mercado de absorver novos choques diminuiu rapidamente. Em junho, os níveis globais de reservas já se aproximavam de patamares considerados críticos.
O próprio Donald Trump reconheceu essa limitação após a assinatura do memorando de entendimento entre Washington e Teerã. Ao justificar o cessar-fogo durante a cúpula do G7, afirmou que, mantido o ritmo de consumo observado durante a guerra, as reservas globais poderiam se esgotar em aproximadamente quatro semanas, abrindo espaço para uma nova disparada dos preços e até para problemas de abastecimento.
O anúncio do acordo trouxe alívio imediato ao mercado. As cotações recuaram e voltaram aos níveis anteriores ao conflito durante o mês de julho. Entretanto, após os novos ataques desta semana, os preços voltaram a subir, refletindo o aumento da percepção de risco.
Reserva estratégica de petróleo dos EUA também está menor
O mercado de petróleo também se encontra mais vulnerável porque a Reserva Estratégica de Petróleo dos Estados Unidos (SPR) foi amplamente utilizada durante a guerra. Segundo dados da EIA, o volume armazenado caiu de aproximadamente 415 milhões para cerca de 325 milhões de barris, atingindo o menor nível desde 1983.
Mais do que isso, os UA continuaram retirando petróleo da reserva mesmo após o cessar-fogo. Embora 325 milhões de barris ainda pareçam um volume elevado, a SPR não pode ser totalmente esvaziada.
O petróleo é armazenado em enormes cavernas subterrâneas de sal localizadas na Louisiana e no Texas. Retiradas sucessivas comprometem a estabilidade estrutural dessas formações, aumentando o risco de colapso. Além disso, especialistas estimam que cerca de 160 milhões de barris precisam permanecer armazenados para preservar as condições mínimas de operação do sistema.
Na prática, isso significa que a capacidade americana de utilizar sua reserva estratégica para estabilizar o mercado está hoje muito mais limitada do que no início do conflito. O mesmo ocorre com diversas outras reservas estratégicas ao redor do mundo. Segundo o J.P. Morgan, o mercado global torna-se significativamente mais vulnerável quando os estoques totais caem abaixo de 6,8 bilhões de barris.
O risco vai muito além de Ormuz
Além do Estreito de Ormuz, existe outro ponto crítico que passou a preocupar o mercado: o Estreito de Bab el-Mandeb, corredor marítimo que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden. Nos últimos meses, essa rota ganhou importância porque a Arábia Saudita passou a escoar parte de suas exportações pelos portos localizados na costa oeste do país, desviando parte do fluxo que anteriormente passava pelo Golfo Pérsico.
Como consequência, o volume transportado pela região aumentou de aproximadamente 3 milhões para cerca de 8 milhões de barris por dia, o equivalente a quase 8% da oferta mundial. Caso o Irã decida ampliar o conflito, poderá comprometer essa rota tanto por meio dos houthis, aliados que controlam grande parte do oeste do Iêmen, quanto por ataques diretos com drones e mísseis.
Nesse cenário, o déficit de oferta deixaria de ser de aproximadamente 11 milhões de barris por dia e poderia alcançar algo próximo de 20 milhões de barris diários, acelerando o consumo das reservas remanescentes e elevando drasticamente o risco de escassez.
Por isso, o petróleo se tornou hoje um dos principais limitadores da estratégia americana. No início da guerra, o mundo possuía estoques suficientes para amortecer um choque temporário de oferta. Hoje, boa parte dessa proteção já foi consumida. Uma nova escalada militar encontraria um mercado muito mais vulnerável, com reservas estratégicas reduzidas, menor capacidade de resposta e um risco significativamente maior de disparada dos preços.
Isso não significa que uma nova guerra seja impossível. Se os estoques globais voltarem a crescer nos próximos meses ou anos, a margem de manobra de Washington poderá aumentar novamente. No momento, porém, Donald Trump enfrenta um dilema.
Qualquer decisão de ampliar o conflito poderá desencadear um choque energético muito mais severo do que o observado até agora. Nesse contexto, o petróleo deixa de ser apenas uma consequência da guerra e passa a ser um dos principais fatores que limitam sua continuidade.
*Luciano Gioielli é analista internacional no Portal das Commodities.











