Por Luís Gustavo Budziak*
Na última semana de agosto, Augusto Cury — psiquiatra, autor de best-sellers, candidato pelo Avante — saltou de 2% para 11% nas pesquisas de intenção de voto para 2026, depois de um debate em que Lula e Flávio Bolsonaro nem compareceram. Questionado sobre o fenômeno, ele disse aos jornais que seu crescimento nas redes foi “espontâneo”. Talvez tenha sido. Mas o que me interessa não é se Cury orquestrou ou não os 2 milhões de seguidores que ganhou em 48 horas. É o que esse salto revela sobre o tamanho da fome por uma alternativa que o sistema político brasileiro não sabe endereçar.
A pergunta que me faço, lendo essa notícia, é a mesma que qualquer eleitor brasileiro carrega desde pelo menos 2018: existe uma terceira via, ou isso é uma ilusão que aparece a cada eleição para se dissolver no primeiro turno? Lembrem-se que nas pré-candidaturas o tema “terceira via” foi recorrente!
O que Guilluy explica — e o que ele não explica
Em O Fim da Classe Média, Christophe Guilluy (recomendo a leitura) descreve algo que ajuda a entender o momento, mas que também complica a leitura otimista sobre um “centro” renascendo. Para Guilluy, a classe média — esse amortecedor social que impedia o choque frontal entre extremos — está se dissolvendo no mundo inteiro (ou pelo menos no mundo ocidental). De um lado, um “mundo de cima” cultural e economicamente vitorioso, cada vez mais desconectado; de outro, uma “França periférica” (ou um Brasil periférico) que resiste, mas já não se sente representada por ninguém. O populismo, para ele, não é a causa da crise: é o sintoma de uma sociedade que parou de se equilibrar no meio.
Se essa moldura estiver certa, o entusiasmo repentino com Cury não é necessariamente o retorno de um centro político organizado. Cabe lembrar que os partidos “verdadeiramente” de centro ruíram. Pode ser só mais uma descarga desse ressentimento acumulado — só que, desta vez, em vez de mirar num outsider de direita ou esquerda, mirou em alguém que promete “mente capitalista, coração social” e disse que convidaria Tarcísio para ser premiê num Brasil semipresidencialista.
É antipolarização como plataforma, não como convicção estrutural. E isso é uma diferença importante: um sintoma de exaustão não é, por si, um projeto de poder.
As pautas que separam: cada lado tem sua bandeira
Há um ponto do livro que, pensando bem, explica melhor do que qualquer outro por que essa “terceira via” é tão difícil de sustentar: a polarização não se organiza só em torno de nomes ou de “governo x oposição” — ela se organiza em torno de pautas que já nascem etiquetadas, cada uma falando mais alto para um público do que para outro.
Pauta ambiental fala mais alto para quem vive na metrópole integrada à economia global; pauta de proteção agrícola e protecionismo fala mais alto para quem vive da terra e do trabalho fora dos grandes centros; ensino superior — o diploma, o capital cultural — também vira, na leitura de Guilluy, uma fronteira de classe que empurra parte do eleitorado para a esquerda cosmopolita e deixa a outra parte, sem diploma e sem metrópole, órfã de representação.
O exemplo mais concreto disso no próprio livro é o dos coletes amarelos na França: a revolta não nasceu contra a pauta ambiental em si, nasceu contra um imposto sobre combustível — uma política “verde” desenhada por quem mora perto do metrô e cobrada de quem depende do carro para viver no interior. A mesma pauta (meio ambiente) que soa como consenso civilizatório em Paris ou em São Paulo soa como imposição de cima para baixo em quem está na “periferia” geográfica e social. É exatamente o “mundo de cima” definindo a agenda moral do país sem carregar o custo dela.
No Brasil, esse desenho se repete com sotaque próprio: pauta ambiental e agenda de costumes puxando para um lado das universidades e dos grandes centros urbanos; agronegócio, pauta armamentista e protecionismo de mercado interno puxando para o lado do interior, do agro e das bancadas evangélica e ruralista. O que Guilluy chama de embate entre “centro” (metrópoles globalizadas, capital cultural, diploma) e “periferia” (territórios esvaziados da nova economia, sem voz nas pautas que os afetam) não é um detalhe do livro — é o motor da própria dissolução da classe média que dá título a ele.
Enquanto havia uma classe média ampla e razoavelmente homogênea até final dos anos 1980-1990, essas pautas conviviam dentro do mesmo eleitor, moderando-o. Sem ela, cada pauta empurra o eleitor inteiro para um dos dois blocos, e não sobra muito espaço eleitoral para quem tenta ficar em cima do muro em todas elas ao mesmo tempo — que é exatamente a aposta de um candidato como Cury.
A polarização não é só brasileira
Vale olhar para fora. Nos Estados Unidos, na França, na Argentina, o padrão que se repete não é o fortalecimento do centro — é o colapso dele. Na França, Macron tentou ocupar exatamente esse espaço “nem-nem” e terminou espremido entre a extrema-direita de Le Pen e a esquerda de Mélenchon, sem conseguir formar maioria estável. Na Argentina, quem rompeu a rachadura peronismo/antiperonismo não foi um moderado, foi Milei — um outsider radical, não um pacificador. Na Alemanha, o crescimento é da AfD, não de um partido de centro renovado.
O padrão internacional sugere que a ruptura, quando vem, tende a vir pelas bordas, não pelo meio. O establishment da esquerda brasileira de 14 anos (2003-2016) foi rompida por um outsider, Jair Bolsonaro. Isso é o que torna o caso Cury interessante e, ao mesmo tempo, frágil: ele está tentando ocupar um espaço que, em quase nenhuma democracia recente, foi ocupado com sucesso por um candidato que se define pela recusa dos pólos em vez de pela adesão a um deles.
O que a história eleitoral brasileira já nos disse
E o Brasil já testou essa hipótese antes — mais de uma vez. Nas últimas quatro eleições presidenciais, houve sim candidatos de terceira via que superaram os 10%:
Em 2010, Marina Silva (PV) fez 19,33% no primeiro turno, atrás de Dilma Rousseff (46,91%) e José Serra (32,61%). Em 2014, ela repetiu o feito com força ainda maior: 21,3%, contra 41,6% de Dilma e 33,6% de Aécio Neves. Em 2018, foi a vez de Ciro Gomes chegar a 12,47%, atrás de Bolsonaro (46,03%) e Haddad (29,28%).
Só que em 2022 esse padrão quebrou: nenhum terceiro nome chegou perto dos dois dígitos. Simone Tebet fez 4,16% e Ciro Gomes, em sua pior campanha, 3,04% — enquanto Lula (48,43%) e Bolsonaro (43,20%) consumiram quase toda a disputa entre si. A polarização lulista-bolsonarista simplesmente não deixou espaço para um terceiro nome respirar.
É por isso que o salto de Cury a 11% importa: ele é o primeiro candidato, desde Ciro em 2018, a romper os 10% de intenção de voto — e o fez justamente num cenário (Lula x Flávio Bolsonaro) que parecia repetir a lógica binária de 2022. Fica um alerta: isso ainda é pesquisa de agosto, não voto em outubro. Marina em 2010 e 2014, e Ciro em 2018, também chegaram a esses patamares e nenhum deles chegou ao segundo turno — muito menos à Presidência.
Acho que a resposta honesta é: a terceira via existe como demanda, mas raramente sobrevive como projeto. As pautas estão cada vez mais polarizadas, ficar fora disso é remar contra a maré atualmente. O problema está sempre do lado da oferta: transformar um pico de curiosidade digital, “espontâneo” ou não, numa estrutura de poder capaz de sobreviver ao desgaste de uma campanha de dois meses contra duas máquinas polarizadoras profissionais.
Guilluy diria, eu acho, que isso não vai se resolver enquanto a fratura social de fundo — entre quem está integrado à economia globalizada e quem foi deixado à margem dela, entre quem define a pauta (ambiental, cultural, do diploma) e quem só a recebe pronta — não encontrar representação política real, e não apenas um nome novo que capture o cansaço do momento.
Até lá, a terceira via no Brasil continuará sendo menos uma via e mais um sintoma: reaparece a cada eleição, mede a temperatura do descontentamento, e quase sempre se dissolve quando a polarização aperta o cerco na reta final da campanha. Se Cury vai ser exceção a essa regra, ainda não dá para saber — mas a história recente pede cautela antes de otimismo.
*Luís Gustavo Budziak é CFO da Quartzo Capital











