Por Antonio Vinhas*
Durante boa parte da minha carreira como CIO, participei de discussões sobre a substituição de sistemas considerados antigos. Em muitos casos, a conclusão parecia simples: o problema estava no legado e a solução seria implantar uma tecnologia nova. Com o tempo, percebi que essa quase nunca era a pergunta certa.
Conheci plataformas com décadas de operação que sustentavam processos críticos com estabilidade e eficiência. Também acompanhei soluções recém-implantadas que rapidamente se tornaram difíceis de integrar e caras de manter. O problema não está, necessariamente, na idade da tecnologia, mas no acúmulo de decisões que, ao longo dos anos, tornam a arquitetura cada vez mais complexa. É isso que chamamos de dívida tecnológica.
Essa dívida raramente aparece em uma linha específica do orçamento, mas seus efeitos são percebidos diariamente. Projetos demoram mais para sair do papel, integrações exigem esforço crescente, novas demandas regulatórias custam mais caro e a inovação perde velocidade.
Trazendo a questão para números: a McKinsey estima que empresas destinam entre 10% e 20% do orçamento de desenvolvimento de novos produtos para administrar a dívida tecnológica acumulada, comprometendo recursos que poderiam estar sendo investidos em inovação. Esse cenário ajuda a explicar por que tantas iniciativas de transformação digital entregam menos resultado do que o esperado. O investimento acontece, mas parte significativa da energia das equipes continua sendo consumida para manter a operação funcionando.
Nos últimos anos, essa realidade ficou ainda mais evidente. Cloud, inteligência artificial, automação e novos canais digitais ampliaram as possibilidades de negócio, mas também aumentaram a complexidade dos ambientes tecnológicos.
Segundo a Boston Consulting Group, a participação dos softwares nos orçamentos de tecnologia passou de 13% em 2019 para 21% em 2024, refletindo um ambiente cada vez mais diversificado e difícil de administrar. Diante desse cenário, substituir sistemas antigos nem sempre é a melhor resposta. Em muitos casos, uma plataforma madura, bem documentada e integrada oferece menos riscos do que uma solução recém-implantada sem uma arquitetura consistente.
A discussão precisa começar por outra pergunta: quais capacidades a empresa precisa desenvolver nos próximos anos e quais limitações da arquitetura atual impedem essa evolução? Essa mudança de perspectiva faz toda a diferença. Modernização não significa trocar tudo. Significa entender onde a complexidade realmente está, eliminar redundâncias, reorganizar integrações e construir uma arquitetura preparada para acompanhar o crescimento do negócio.
A chegada da inteligência artificial torna essa discussão ainda mais relevante. A tecnologia depende de dados confiáveis, integrações consistentes e processos bem estruturados. Sem essa base, o risco é apenas adicionar uma nova camada de complexidade sobre problemas antigos.
Depois de acompanhar diferentes ciclos de transformação, cheguei a uma conclusão simples: empresas não perdem velocidade porque possuem sistemas antigos. Elas perdem velocidade quando deixam de revisar as decisões tecnológicas que sustentam sua operação.
A dívida tecnológica não impede apenas a evolução da área de TI. Ela limita a capacidade de transformação de toda a empresa.
*Antonio Vinhas é managing partner da Águilahub e ex-CIO do UBS, ING e Deutsche Bank











