As grandes redes de varejo brasileiras estão tratando a reforma tributária não apenas como uma mudança na cobrança de impostos, mas como uma reestruturação profunda de seus modelos de negócio. Executivos da C&A (CEAB3), Carrefour e Americanas (AMER3) indicam que a transição exige investimentos milionários e mobilização de centenas de profissionais.
Durante palestra nesta terça-feira (31) no Autocom Summit 2026, eles explicaram como a migração dos tributos atuais para o IVA (Imposto sobre Valor Agregado) — que contará com CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) — impacta desde a logística até o atendimento no ponto de venda.
Para Rodrigo Sally, diretor de Relações Institucionais da Americanas, apesar das dificuldades pelo alto custo na transição, as empresas maiores conseguem se ajustar com a ajuda de parceiros.
“Nós temos mais de 300 pessoas envolvidas com assuntos da reforma tributária, nem todos dedicados 100% a isso, mas ajudando. O nosso investimento previsto para essa adequação é de R$ 20 milhões […] Mas e a empresa pequena? Como é que ele vai se adaptar quando tem uma dificuldade de investimento?”, avaliou.
Especialistas ouvidos pelo Monitor do Mercado acreditam que a reforma tributária já está mudando o valuation das empresas e conta com possíveis “pontos cegos”. Confira a análise dos especialistas clicando aqui.
Mobilização de recursos durante a reforma tributária
A mobilização do Grupo Carrefour é semelhante, segundo a gerente tributária do Carrefour, Roberta Silva. Durante a apresentação, Roberta explicou como o tema foi estabelecido como uma meta para o comitê executivo e já envolve aproximadamente 450 pessoas neste processo de transição, monitorando o impacto em diversos segmentos, como drogarias, postos de combustível e centros de distribuição.
A executiva, no entanto, também reforçou os altos custos que as empresas terão e o potencial de pequenas companhias quebrarem.
“Cada área disponibilizou um ponto focal e temos 450 pessoas de todos os departamentos da empresa participando indiretamente do projeto. Mas isso terá altos custos. Por exemplo, o RH terá tributação para sindicato, porém lá você tem que ter a aprovação para cada um dos sindicatos, e nós temos mais de 5 mil no Brasil”, disse Roberta.
Risco de desabastecimento nas varejistas
Uma das principais preocupações manifestadas pelos diretores tributários é a prontidão dos fornecedores. O setor alerta que, se um fornecedor não estiver apto a emitir notas fiscais no novo padrão em janeiro de 2027, o varejista pode sofrer desabastecimento de estoque em poucos dias.
A complexidade reside na necessidade de os sistemas do comprador e do vendedor estarem sincronizados. Se a nota fiscal eletrônica apresentar erros nos novos campos exigidos, a mercadoria não pode ser processada e o crédito tributário não é garantido.
“Se você não começou a olhar para o seu fornecedor também, para saber se ele está estruturado para emitir uma nota que você vai receber… você corre o risco de, em poucos dias, ficar sem estoque”, disse Thiago Figo, diretor tributário e jurídico da C&A Brasil.
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O “congelamento” de fim de ano
O cronograma da reforma também apresenta um desafio logístico adicional: o período de vendas de fim de ano. No varejo, o último trimestre é marcado por uma espécie de congelamento, em que nenhuma alteração em sistemas de TI é permitida para não colocar em risco as operações da Black Friday e do Natal.
“É um período muito crítico porque a gente tem muita coisa [Black Friday e Natal] acontecendo”, disse Sally. Caso regulamentações importantes sejam publicadas pelo governo no final do ano, as varejistas terão dificuldade técnica para implementar as mudanças a tempo da virada do ano fiscal.











