Em meio aos juros elevados e incertezas no cenário global, o mercado brasileiro começa a dar sinais de reabertura para ofertas de ações, as chamadas IPOs. Nos bastidores desse cenário, 54 empresas já se posicionam, com registro na CVM, para acessar a Bolsa, com impulso do fluxo estrangeiro consistente no país, segundo Gilson Finkelsztain, CEO da B3.
A declaração ocorreu durante o MKBR 26, evento sobre oportunidades e desafios no mercado de capitais, organizado pela Anbima em parceria com a B3, a Bolsa de Valores brasileira, em São Paulo, nesta terça-feira (7).
Finkelsztain ressaltou ainda que o desempenho do mercado acionário brasileiro no início de 2026 tem sido sustentado principalmente pelo capital estrangeiro. Até o momento, o saldo de recursos externos já soma cerca de R$ 55 bilhões.
Esse fluxo elevou o volume diário negociado — ADTV (Average Daily Traded Volume) — de aproximadamente R$ 25 bilhões para R$ 38 bilhões. Em fevereiro, esse patamar foi atingido, com crescimento entre 50% e 60% no giro diário.
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O CEO afirma que trata-se de uma relocação global para mercados emergentes, e o Brasil está pegando seu pequeno quinhão de 4,5%, percentual considerado baixo diante do registro de 17% no passado, mas que já fez o mercado de renda variável subir neste volume.
Papel do investidor estrangeiro na abertura da janela de IPO
Finkelsztain destaca que o fluxo internacional deve continuar sendo determinante para a reabertura do mercado de capitais.
“O estrangeiro está sustentando esse movimento de alta da B3 e a perspectiva é de continuidade de entrada de recursos. Parece que o estrangeiro está dando um pouco menos de importância para a transição política do que o investidor local e acredita que a gente vai, de alguma forma, fazer esse exercício como país de discutir formas de ter sustentabilidade fiscal. Com isso, acredito que a janela de IPOs pode reabrir”, diz Finkelsztain.
Ele acrescenta que grandes investidores devem acompanhar essas potenciais aberturas de capital, mas que majoritariamente o fluxo estrangeiro é o que vai ditar a reabertura da janela de IPOs e follow-ons no Brasil este ano.
“Estamos com perspectiva de o câmbio cair mais, de queda de juros ao longo do ano, a depender dos preços de petróleo, mas, de alguma forma, até um ajuste fiscal, obviamente com algum respingo na inflação. Mas veja, dizem que Deus é brasileiro, parece que a gente está aqui começando de novo a surfar um pouco dessa onda, então eu fico otimista que sim, a gente pode ver reabertura do mercado de ações esse ano.”
Retomada dos IPOs só depende de “janela”
Durante o evento, o vice-presidente da B3, Luiz Masagão, disse que a retomada das aberturas de capital depende “apenas de uma questão de janela”.
“Temos um potencial claro; é apenas uma questão de janela. Setores como saneamento e infraestrutura receberam muitos investimentos, por isso seguimos otimistas com a volta dos IPOs ainda neste ano”.
Ele avalia ainda que a decisão de abrir capital está mais relacionada às condições de mercado do que aos fundamentos das empresas.
Masagão pontua que, com o valuation, os múltiplos começam a ter preços atrativos, nos quais faz sentido efetivamente vender parte das ações para os compradores para mexer na cultura de capital.
“A gente vê principalmente setores de infraestrutura e saneamento, que tiveram muito investimento nos últimos anos, e muito desse investimento foi financiado com dívida, em que o valuation correto começa a fazer sentido nesse redesenho da estrutura de capital das companhias para desalavancar um pouco a conta da dívida. Com isso, a gente segue otimista que esse ano voltaremos a ter a janela aberta de IPO.”
Realocação global favorece países emergentes
Após uma ressaca de três anos no mercado de renda variável, Finkelsztain ressalta a realocação global para mercados emergentes diante de riscos geopolíticos e que essa tendência deve continuar, porque o investidor global está percebendo que os riscos geopolíticos talvez estejam mais concentrados em determinados países.
“O preço da classe de ativos em mercados emergentes segue muito atrativo e, quando comparado com as oportunidades que ele tem (o investidor estrangeiro), vê que o Brasil é um desses lugares que está barato, tem boas empresas, bons negócios e poucas empresas listadas… há um movimento tanto de apreciação do valor das ações quanto do giro”, explica.
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Investidor brasileiro fica de fora
Apesar da alta da Bolsa, o investidor doméstico ainda não acompanha o movimento. Fundos de ações e multimercados seguem com resgates, enquanto a taxa de juros real elevada direciona recursos para renda fixa.
Segundo Filkenzstein, “o investidor local não capturou praticamente nada disso, porque a indústria de fundos segue com o resgate de fundos de ações e fundos multimercados. E a pessoa física, obviamente, com o juro real de 10%, coloca o dinheiro marginal em renda fixa.”











