O que uma cidade de 4.797 habitantes sem shopping, sem cinema e sem maternidade tem em comum com Copenhague e Honolulu? Gavião Peixoto, no interior paulista, lidera pela segunda vez consecutiva o Índice de Progresso Social (IPS) Brasil 2025 entre os 5.570 municípios brasileiros, com nota 73,26 de 100. O segredo está numa equação rara: orçamento público robusto, população enxuta e gestão focada em resultados básicos que as capitais sofrem para entregar.
Por que Gavião Peixoto é a melhor cidade do Brasil para viver?
O município de Gavião Peixoto tem apenas 29 anos de emancipação e uma população estimada em 4.806 pessoas pelo IBGE em 2025. A virada aconteceu em 2001, quando a Embraer instalou ali sua segunda maior unidade produtiva do mundo, escolhida entre 300 localidades pela topografia plana e pelo clima favorável a testes de voo. A planta fabril produz os jatos KC-390 Millennium, Super Tucano e os caças Gripen, gerando uma base tributária muito acima do comum.
O PIB per capita atingiu R$ 369.126,50 em 2023, o 11º maior do país. Com essa receita, a prefeitura investe pesado em infraestrutura, saúde e educação. O resultado aparece nos números do IPS: 97,20 em moradia, 89,22 em água e saneamento e 81,62 em educação básica. A taxa de matrícula escolar entre 6 e 14 anos chega a 98,6%, com evasão escolar zero.

Como o Índice de Progresso Social avalia a qualidade de vida?
O IPS Brasil 2025 é composto por 57 indicadores públicos, divididos em três dimensões: necessidades humanas básicas, fundamentos do bem-estar e oportunidades. Diferente de métricas como PIB ou IDH, o IPS mede resultados sociais e ambientais, não investimentos ou renda declarada.
A metodologia permite comparar municípios de portes diferentes com justiça estatística. A nota final vai de 0 a 100, e a média nacional ficou em 61,96. Gavião Peixoto atingiu 73,26, com folga sobre o segundo colocado. O estado de São Paulo domina o topo do ranking: 14 das 20 melhores cidades brasileiras estão em território paulista.
As três dimensões avaliadas pelo IPS são:
- Necessidades Humanas Básicas: nutrição, água e saneamento, moradia e segurança pessoal.
- Fundamentos do Bem-Estar: acesso à educação, informação, saúde e qualidade ambiental.
- Oportunidades: direitos individuais, liberdades e acesso à educação superior.
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O que Copenhague e Honolulu têm a ver com Gavião Peixoto?
Copenhague é a cidade número 1 do mundo no Global Liveability Index 2025, com nota máxima em estabilidade, educação e infraestrutura. Honolulu lidera entre as cidades americanas pelo segundo ano consecutivo, apoiada em segurança e serviços públicos de alto nível.
Gavião Peixoto, número 1 do Brasil no IPS 2025, senta ao lado delas. Os rankings são diferentes, mas o piso da qualidade de vida é idêntico: segurança, educação pública eficiente e infraestrutura que funciona. É isso que coloca a cidade paulista na mesa das melhores do planeta.

Como uma cidade de 4.800 habitantes sustenta esse desempenho?
A resposta está na relação entre receita municipal e número de habitantes. Com apenas 4.806 moradores, cada real arrecadado da Embraer rende muito mais per capita do que em cidades populosas. O salário médio dos trabalhadores formais alcança 5,7 salários mínimos, puxado pela indústria aeronáutica e pela baixa informalidade.
Gavião Peixoto não tem maternidade e depende de Araraquara, a 35 km, para serviços de maior complexidade. Também não tem shopping ou cinema. Mas entrega o essencial que define a qualidade de vida: consultas médicas sem fila, vagas em escolas públicas para todas as crianças e segurança suficiente para os moradores circularem sem sobressalto.
O que falta para mais cidades brasileiras repetirem esse modelo?
A fórmula de Gavião Peixoto é difícil de replicar em larga escala porque depende de um episódio atípico: uma gigante industrial instalada num município minúsculo. Mas o IPS Brasil 2025 mostra que riqueza sozinha não garante posição de destaque. Cidades com PIB alto aparecem mal colocadas quando o investimento público não se traduz em resultados sociais.
Curitiba, Brasília e Campo Grande são as únicas capitais que figuram entre as melhores do país. O ranking evidencia um descolamento entre o tamanho da economia local e a qualidade dos serviços públicos. O interior paulista domina porque combina orçamentos equilibrados, populações menores e gestão pública mais próxima dos problemas reais.
No vídeo a seguir, o canal ANTES DE PARTIR VIAGENS, com mais de 150 mil inscritos, mostra um pouco de Gavião Peixoto:
Por que isso não é comparação direta, mas aponta um caminho?
Colocar Gavião Peixoto ao lado de Copenhague e Honolulu não é comparar tamanho ou sofisticação urbana. É reconhecer que o bem-estar medido por qualquer índice sério repousa sobre os mesmos pilares: uma criança que estuda, uma família que tem onde morar, um bairro onde se pode andar à noite. As três cidades entregam isso, cada uma na sua escala.
O segundo ano consecutivo no topo do IPS Brasil 2025 diz menos sobre o milagre econômico de uma pequena cidade e mais sobre o fracasso das grandes em cumprir o básico. Gavião Peixoto mostra que, com orçamento bem gerido e população enxuta, o piso da qualidade de vida sobe mais depressa do que se imagina. E isso vale tanto para o interior paulista quanto para qualquer capital do mundo.











