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China está criando desertos solares com um objetivo: transformar áreas improdutivas em potência energética

Por Paulo
29/abr/2026
Em Economia, Notícias
Como a China está transformando desertos como o Gobi em megaprojetos de energia solar e eólica

Como a China está transformando desertos como o Gobi em megaprojetos de energia solar e eólica

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Quanto vale um deserto? Para a China, os vastos terrenos áridos do noroeste do país se tornaram a peça central de uma estratégia que pretende cobrir áreas estéreis com painéis solares e turbinas eólicas. O objetivo é gerar energia limpa suficiente para abastecer centenas de milhões de residências e, ao mesmo tempo, conter o avanço da desertificação que ameaça o norte do território chinês.

O que são os desertos solares que a China está criando?

Os chamados desertos solares são megaprojetos de energia renovável instalados em regiões como o Deserto de Gobi, o Deserto de Tengger e o Planalto de Loess. Diferente de fazendas solares convencionais, essas instalações ocupam centenas de quilômetros quadrados e combinam geração fotovoltaica com turbinas eólicas no mesmo local.

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O caso mais impressionante é o projeto Midong, em Xinjiang: com 3,5 GW de capacidade e mais de 5,26 milhões de painéis solares, é a maior planta solar do mundo. A eletricidade gerada ali, cerca de 6,09 TWh por ano, equivale à produção de uma central nuclear de porte médio e atende aproximadamente três milhões de residências.

Como a China está transformando desertos como o Gobi em megaprojetos de energia solar e eólica
Como a China está transformando desertos como o Gobi em megaprojetos de energia solar e eólica

Por que a China decidiu investir pesado em energia solar nos desertos?

A resposta tem três camadas. A primeira é energética: a China precisa reduzir sua dependência de combustíveis fósseis, que ainda representam a maior parte de sua matriz elétrica. A segunda é econômica: o custo de instalação de painéis solares caiu drasticamente, e os terrenos desérticos são baratos. A terceira é ambiental: o país quer zerar as emissões líquidas de carbono até 2060.

Além disso, o governo chinês percebeu que usar desertos para gerar energia resolve dois problemas de uma vez: produz eletricidade abundante onde não há concorrência com a agricultura e ainda ajuda a combater a desertificação. A sombra dos painéis reduz a evaporação da água do solo em até 30% e diminui a velocidade do vento, o que segura o avanço das dunas.

Quais são os números desses megaprojetos solares?

Os números impressionam. O plano do governo chinês prevê a instalação de 253 GW de capacidade solar apenas em regiões desérticas até 2030, segundo o Plano de Controle da Desertificação Fotovoltaica. Somado à capacidade eólica prevista para as mesmas áreas, o total chega a 455 GW, o equivalente a cerca de 20 usinas de Três Gargantas.

Outro projeto emblemático é a chamada Grande Muralha Solar, no Deserto de Kubuqi, na Mongólia Interior. A meta é atingir 100 GW de capacidade até 2030, com uma faixa de painéis de 400 km de comprimento por 5 km de largura. Quando concluído, o projeto poderá gerar 180 bilhões de kWh por ano, energia suficiente para abastecer a região de Pequim.

Confira alguns dos principais megaprojetos em andamento:

  • Midong (Xinjiang): maior planta solar do mundo, com 3,5 GW e mais de 5 milhões de painéis.
  • Grande Muralha Solar (Kubuqi): meta de 100 GW até 2030, 400 km de extensão.
  • Base do Planalto de Loess: 4,5 GW eólicos e 1,5 GW solares, o maior projeto híbrido do mundo.
  • Base do Deserto de Tengger: 13 GW totais previstos, primeira fase de 1 GW já operando.
Como a China está transformando desertos como o Gobi em megaprojetos de energia solar e eólica
Como a China está transformando desertos como o Gobi em megaprojetos de energia solar e eólica

O que acontece com o solo debaixo dos painéis solares?

Ao contrário do que se poderia imaginar, os painéis solares não esterilizam o solo. A sombra que eles projetam reduz a temperatura da superfície e diminui a perda de água por evaporação em até 30%. Isso cria condições para o crescimento de gramíneas e plantas rasteiras que antes não sobreviveriam ao sol intenso.

No deserto de Talatan, em Qinghai, o fenômeno já é visível: milhares de ovelhas pastam livremente entre as fileiras de painéis solares, algo impensável antes da instalação do parque. A água residual da limpeza dos módulos também contribui para a fertilidade do solo, gerando um ciclo de regeneração natural que está sendo estudado por ecologistas do mundo inteiro.

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Quais são os desafios técnicos de construir em desertos?

Instalar milhões de painéis solares em regiões desérticas não é simples. As temperaturas extremas, que podem variar 50 °C em um único dia, exigem materiais mais resistentes. A poeira e as tempestades de areia sujam os painéis com frequência, reduzindo a eficiência, o que obriga ao uso de sistemas de limpeza automatizados que funcionam sem água.

Outro gargalo é a transmissão: os desertos ficam longe dos grandes centros de consumo. Para resolver isso, a China está construindo linhas de ultra-alta voltagem que transportam a eletricidade do noroeste para a costa leste, onde estão as maiores cidades e indústrias do país. É um quebra-cabeça de engenharia que envolve sincronizar geração, armazenamento e distribuição em distâncias continentais.

O modelo chinês de desertos solares pode ser copiado por outros países?

A estratégia chinesa já está sendo observada com atenção por nações que possuem grandes áreas áridas e alta incidência solar, como Índia, Arábia Saudita, Austrália e Chile. A lógica é universal: transformar terrenos de baixo valor agrícola em usinas de energia limpa, com o benefício extra de conter a degradação do solo.

O que torna o caso chinês difícil de replicar integralmente é a escala do investimento estatal. Os projetos são financiados por gigantes como a China Energy e a China Three Gorges, com forte subsídio do governo central. Ainda assim, o princípio de usar desertos como plataforma de geração renovável é uma ideia que promete se espalhar nas próximas décadas, à medida que o custo dos painéis solares continuar caindo e a urgência climática aumentar.

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