O Banco Digimais, do bispo Edir Macedo, utilizou fundos de investimento para retirar de suas demonstrações financeiras carteiras de crédito marcadas por forte inadimplência em uma operação que permitiu deixar fora do balanço centenas de milhões de reais em financiamentos vencidos, aponta publicação do Estadão desta segunda-feira (18).
Com as operações envolvendo esses fundos, o banco informou lucro de R$ 31 milhões no encerramento de 2025 após as transferências dos fundos problemáticos. Com a estrutura montada via fundos, ao menos R$ 480 milhões em créditos vencidos deixaram de aparecer nas demonstrações financeiras do Digimais, embora esses ativos pudessem afetar diretamente o resultado da instituição.
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O valor está sob análise, porém, pode ser ainda maior. Há cerca de R$ 3 bilhões aplicados em fundos que não tiveram auditoria concluída por falta de acesso a documentos considerados necessários para validar as informações financeiras. O montante representa aproximadamente 75% dos investimentos do banco nesses fundos.
Fundos ligados ao Digimais absorveram carteiras problemáticas
Os fundos utilizados pelo Digimais receberam carteiras de crédito com elevados índices de calote. Caso esses ativos permanecessem integralmente no balanço do banco, o impacto sobre os resultados financeiros seria maior.
Um dos pontos destacados na apuração é que parte dos fundos possui o próprio Digimais entre os cotistas. Isso significa que o banco participa da operação tanto como vendedor quanto como investidor das estruturas financeiras.
No mercado, esse tipo de transação é conhecido informalmente como operação “Zé com Zé”. Pela legislação atual, não há obrigação de divulgação pública dos donos dos fundos, o que permite que a própria instituição financeira estruture veículos para adquirir seus créditos.
Além das operações envolvendo carteiras de crédito, o banco também vendeu precatórios à holding ligada a Edir Macedo. Segundo o Estadão, os títulos ainda estariam distantes de pagamento, situação que gerou preocupação entre auditores. Especialistas classificam algumas das transações como de “alto risco regulatório” e de “sinal vermelho forte”.
Fundo Tabor concentrou créditos vencidos fora do balanço
Um dos fundos que receberam carteiras de financiamento de veículos do Digimais foi o Tabor. Segundo apuração do Estadão, o próprio banco também aparece como investidor do fundo.
Em abril de 2026, o Tabor possuía R$ 960 milhões em carteiras de crédito. Desse total, R$ 575 milhões estavam inadimplentes. Mais de R$ 200 milhões correspondiam a parcelas em atraso havia até 720 dias, nível considerado crítico no mercado financeiro devido à baixa perspectiva de recuperação desses valores.
Os números ampliaram os questionamentos sobre a exposição real do Digimais à inadimplência. No balanço semestral divulgado em dezembro de 2025, o banco informou R$ 366 milhões em créditos vencidos no segmento de financiamento de veículos.
Entretanto, naquele mesmo período, apenas o fundo Tabor já registrava R$ 479 milhões em operações inadimplentes. Segundo a reportagem, essas perdas não apareciam detalhadas nas demonstrações financeiras do banco.
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Auditoria aponta envolvimento do fundo Hermon
Uma das transações realizadas pelo Digimais foi destacada pela auditoria independente contratada pela instituição para validar as demonstrações financeiras enviadas ao Banco Central. A holding ligada ao bispo Edir Macedo, controladora do banco, adquiriu R$ 741 milhões em cotas que o Digimais detinha no Fundo de Direitos Creditórios Hermon.
No parecer, a auditoria afirmou que, apesar de a operação estar respaldada por pareceres jurídicos que atestariam sua regularidade, o negócio poderia não refletir condições usuais de mercado.
“Embora, suportada por Pareceres Legais atestando sua lisura e conformidade regulatória, com base na análise do contrato celebrado entre as partes, identificamos que a operação pode não refletir condições usuais de mercado, uma vez que não prevê remuneração compatível com sua natureza econômica e que sua realização está condicionada ao recebimento por parte da adquirente ou por meio de aporte dos controladores finais”, registrou a auditoria.
O fundo Hermon não possui ativos com expectativa de retorno no curto prazo. O veículo financeiro adquiriu direitos relacionados a uma disputa judicial envolvendo antigos acionistas da Companhia de Mineração e Siderurgia, incorporada pela ditadura de Getúlio Vargas em 1940 durante o processo de criação da Vale.
A ação tramita desde os anos 1990. A Justiça Federal do Rio de Janeiro determinou que a União indenize herdeiros dos antigos acionistas em valor equivalente, atualizado, a 7 mil ações da Vale. O fundo estima ter R$ 2,2 bilhões a receber, mas os cálculos seguem em discussão judicial, o que pode prolongar o processo por anos.
Digimais ampliou consignado e reduziu peso do financiamento de veículos
O Digimais atua sem agências físicas e atualmente não disponibiliza operações via Pix. Até 2020, a instituição operava sob o nome Banco Renner, em referência à família fundadora das Lojas Renner. Edir Macedo já integrava a base acionária desde 2009 e assumiu o controle do banco naquele ano, quando a marca foi alterada.
Historicamente, a principal operação do Digimais é o financiamento de veículos. Em 2021, esse segmento representava 94% da carteira de crédito do banco.
Nos anos seguintes, porém, o banco passou a ampliar sua presença no crédito consignado. Ao mesmo tempo, a venda de carteiras para fundos reduziu o peso do financiamento de veículos dentro do balanço do banco.
Segundo os dados enviados ao Banco Central, essa participação caiu para 52% da carteira de crédito.
Banco de Edir Macedo cobrava uma das maiores taxas do mercado
Lojistas credenciados para operar financiamentos com o Digimais relataram que o banco costumava aprovar crédito a juros altos para veículos antigos, de baixo valor, e para consumidores já endividados.
Em dezembro de 2025, o Digimais registrava a quarta maior taxa de juros do mercado em financiamentos de veículos, conforme dados do Banco Central. As cobranças chegaram a 2,97% ao mês e 41,07% ao ano.
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BTG negocia possível compra do Digimais
Nos últimos meses, o Digimais passou a negociar uma possível operação com o BTG Pactual, que afirma ter interesse na “carteira de clientes” da instituição financeira.
“O BTG Pactual informa que assinou documentos vinculantes para uma potencial aquisição do Banco Digimais, ainda sujeita ao cumprimento de condições precedentes e à realização de um processo competitivo”, declarou o banco.
A instituição acrescentou que a operação ainda não foi concluída e deverá ocorrer por meio de leilão.
Segundo o BTG, a eventual aquisição também depende de mecanismos de suporte financeiro, incluindo participação do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).











