A expansão acelerada dos bancos digitais nos últimos anos levou ao que especialistas chamam de “paradoxo da inclusão”: o aumento do acesso ao crédito ocorre simultaneamente a uma elevação nos índices de inadimplência.
Entre 2021 e 2025, o número de cartões de crédito ativos emitidos por essas empresas saltou de cerca de 15 milhões para 61 milhões, enquanto o saldo aumentou mais de 360% — bem acima dos 35,7% registrados pelos “bancões” tradicionais. O avanço foi impulsionado pela ampliação do crédito para pessoas que possuíam pouco ou nenhum acesso. Isso os tornou a “porta de entrada” para o mercado.
De acordo com relatório inédito da Equifax BoaVista, apresentado a jornalistas em São Paulo (SP) nesta terça-feira (2), dois a cada cinco cartões emitidos (41,4%) por bancos digitais em 2025 foram destinados a novatos, enquanto o número de cartões de crédito entre consumidores com renda presumida de até um salário mínimo (R$ 1.621) mais que triplicou em cinco anos, para 20,5%.
- Está com dúvidas sobre suas finanças? Fale agora com a Clara, a assistente virtual do Monitor do Mercado. Iniciar conversa
Ao mesmo tempo, o índice de inadimplentes no cartão de crédito dos bancos digitais cresceu 163%, chegando a 20,3% — ou seja, um a cada cinco clientes não consegue pagar suas dívidas. Entre os consumidores com renda de até um salário mínimo, a situação foi ainda mais intensa, com a inadimplência saltando de 9,5% para 33% no período.
A expansão para consumidores de menor renda transformou os bancos digitais em líderes em número de clientes. Ao final do ano passado, os bancos digitais já atendiam mais clientes que os bancos tradicionais nas duas principais modalidades de crédito.
- Cartão de crédito: 61 milhões de usuários, contra cerca de 48 milhões das instituições tradicionais.
- Empréstimo pessoal: 24 milhões de usuários, contra 17 milhões dos “bancões”.
O aumento do número de clientes impulsionou o estoque total de crédito, que saltou de 11,8% em 2021 para 31,2% em 2025. Porém, nesse recorde, os chamados neobanks continuam bem atrás dos bancos tradicionais, respondendo por apenas 31,2%.
Fernando Iodice, CEO da Consumidor Positivo, explica que “boa parte do público que cresceu rapidamente não possui educação financeira. E isso causou um aumento do endividamento.” A fala foi complementada por Silvio Santana, vice-presidente comercial da Equifax, que destacou que o avanço do setor precisa ser acompanhado de análises de dados aprofundadas e sistemas de gestão de risco.
Para Ulisses Monteiro Ruiz de Gamboa, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), o aumento da inadimplência reflete tanto a maior exposição dessas instituições, que passaram a atender a maior parte dos consumidores com crédito ativo, quanto a necessidade de aprimorar os modelos de score.
- A informação que os grandes investidores usam – no seu WhatsApp! Entre agora e receba análises, notícias e recomendações.
Bancões mantêm posição de confiança
Apesar do avanço dos bancos digitais, uma pesquisa complementar realizada pela Acordo Certo mostra que 61,1% dos entrevistados consideram um banco tradicional como sua principal instituição financeira. Além disso, 66,9% afirmaram que os “bancões” estão mais preparados para enfrentar crises econômicas e 71,5% disseram que não trocariam seu banco tradicional por um digital.
Quando questionados sobre os motivos que poderiam levar a uma mudança de instituição financeira, o principal fator citado foi acesso a um volume maior de crédito, mencionado por 46,9% dos entrevistados. Juros menores apareceram na segunda posição, com 25,6%.











