Em um cenário marcado por juros elevados e maior seletividade dos investidores, as ações de small caps (empresas de menor porte) concentraram as maiores perdas da Bolsa brasileira em junho. Até 25 de junho, o Índice SMLL, que reúne 110 ações e representa cerca de 15% do valor de mercado das companhias listadas no mercado à vista da B3, acumulava queda de 3,8%.
Apesar do desempenho negativo dos preços, a liquidez avançou no segmento. Entre dezembro de 2022 e junho de 2026, o volume médio diário negociado das ações que compõem o SMLL cresceu 19,3%, passando de R$ 4 bilhões para R$ 4,8 bilhões. No mesmo período, o giro médio do Ibovespa recuou 10,3%, de R$ 20,5 bilhões para R$ 18,4 bilhões. Com isso, a diferença de liquidez entre os dois índices caiu de 5,1 vezes para 3,8 vezes, segundo levantamento da Comdinheiro, divulgado pelo NeoFeed nesta segunda-feira (20).
O movimento ocorreu em um período de forte migração de recursos para a renda fixa. Os fundos de ações registraram resgates acumulados de R$ 95,4 bilhões, enquanto a participação da Bolsa no patrimônio da indústria de fundos recuou de 9,8% para 7,7%. Ao mesmo tempo, a participação dos investidores estrangeiros no volume negociado da B3 aumentou de 54,9% para 60,5%, o maior patamar já registrado para um ano.
Para André Vasconcellos, especialista em Direito Societário e Mercado de Capitais, a diferença de desempenho entre as small caps e o Ibovespa no primeiro semestre de 2026 mostra que a Bolsa brasileira viveu dois mercados simultâneos: de um lado, as grandes companhias, com maior liquidez, cobertura de analistas e presença nos portfólios estrangeiros. Do outro, as empresas menores, mais dependentes do crédito doméstico, do consumo e da disposição dos investidores locais para assumir risco. Segundo o especialista, quando o capital se torna caro, essa segunda parte do mercado é penalizada primeiro e reprecificada por último.
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Em entrevista ao Monitor do Mercado, Vasconcellos explica que a Selic permanece em um nível capaz de manter a renda fixa competitiva, elevar o custo de refinanciamento das empresas e aumentar a taxa de desconto utilizada na avaliação das companhias, reduzindo o valor presente dos lucros esperados.
“O problema das small caps, portanto, não é apenas ganhar menos dinheiro no presente. É valer menos hoje porque o mercado passou a cobrar mais caro pelos lucros que poderão ser gerados amanhã”, afirma.
O especialista também destaca que a composição dos índices ajuda a explicar essa diferença de comportamento. Enquanto o Ibovespa concentra bancos, exportadoras e empresas ligadas a commodities, o índice de small caps reúne companhias com maior exposição à economia doméstica e mais sensíveis ao ciclo de juros.
“Comparar os dois índices sem considerar essa diferença seria semelhante a comparar dois balanços olhando apenas o lucro líquido, sem examinar a estrutura de capital”, conclui.
Confira a entrevista completa com André Vasconcellos:
Monitor do Mercado: Como avalia o cenário desafiador do mercado de small caps após a queda no primeiro semestre?
André Vasconcellos: O desempenho negativo do segmento não significa que todas as empresas tenham se deteriorado na mesma proporção. Em mercados menos líquidos, o preço costuma se mover mais rapidamente do que o fundamento. Essa é uma característica importante das small caps: o excesso aparece tanto na queda quanto na recuperação.
Minha leitura é que o primeiro semestre ampliou a distância entre preço e valor em algumas empresas, mas não criou uma oportunidade indiscriminada. Small cap não é tese de investimento; é uma categoria de capitalização. A tese continua sendo a empresa, sua capacidade de gerar caixa e a qualidade de quem decide como esse caixa será utilizado.
MM: As small caps têm maior assimetria de preço da Bolsa brasileira que justifique o investimento no próximo trimestre?
AV: As small caps apresentam hoje uma assimetria relevante, mas o desconto precisa ser interpretado, não apenas medido. Uma ação pode negociar abaixo da média histórica porque o mercado está excessivamente pessimista ou porque a média histórica deixou de ser uma referência adequada. Mudanças na concorrência, no custo de capital, na regulação, na estrutura de controle ou na capacidade de crescimento podem justificar múltiplos permanentemente inferiores aos observados no passado.
MM: Muitas small caps negociam com desconto em relação à média histórica. Esse desconto representa oportunidade ou reflete problemas estruturais?
AV: O ponto central é distinguir desconto cíclico de deterioração estrutural. O desconto cíclico decorre de juros elevados, menor fluxo para a Bolsa, desaceleração temporária da demanda ou compressão transitória de margens. Já o desconto estrutural aparece quando a empresa perde competitividade, cresce destruindo valor, depende continuamente de capital novo, apresenta governança frágil ou não consegue transformar resultado contábil em caixa.
Nas companhias menores, essa distinção é mais difícil porque há menor cobertura de analistas e menor circulação de informações qualificadas. Isso aumenta a assimetria informacional, mas também pode produzir erros de precificação. Uma empresa pouco acompanhada não é necessariamente uma empresa pouco valiosa. Em alguns casos, o mercado cobra um desconto não pelo risco operacional do negócio, mas pelo custo de compreender esse negócio.
MM: Quais fatores macroeconômicos devem determinar o desempenho do segmento nos próximos meses?
AV: O principal vetor será a trajetória dos juros, mas a variável decisiva não será somente a Selic definida pelo Copom. As small caps respondem também à curva de juros de médio e longo prazo, porque ela influencia o custo de capital, o preço do crédito, as decisões de investimento e o valor presente dos resultados futuros. Uma queda da taxa básica acompanhada de aumento do prêmio fiscal pode produzir pouco benefício para o segmento.
A atividade econômica tenderá a ser o segundo fator relevante. O PIB cresceu 1,1% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao trimestre anterior e 1,8% na comparação com o mesmo período de 2025. A indústria avançou 1% no trimestre, enquanto os serviços cresceram 0,5%. Esses números indicam resiliência, mas não afastam a possibilidade de desaceleração decorrente da defasagem com que os juros elevados afetam consumo, crédito e investimento.
O terceiro fator é a qualidade da política fiscal ao longo do próximo semestre. Empresas menores dependem mais do ambiente financeiro doméstico. Quando o risco fiscal pressiona os juros longos, o efeito chega simultaneamente ao numerador e ao denominador de sua avaliação: reduz a perspectiva de lucro e aumenta a taxa pela qual esse lucro é descontado. É uma dupla penalização.
Também devem ser acompanhados o câmbio, a inadimplência, a concessão de crédito, o mercado de trabalho e a confiança empresarial. Muitas small caps vendem no Brasil, mas compram insumos ou equipamentos no exterior. Outras dependem de financiamento ao consumidor. A exposição doméstica não elimina riscos globais; apenas altera o canal pelo qual eles chegam ao balanço.
MM: O mercado está precificando corretamente os riscos para as empresas de menor valor de mercado?
AV: O mercado está correto ao exigir um prêmio maior de empresas com menor liquidez, acesso mais restrito a financiamento e maior volatilidade de resultados. Também faz sentido penalizar companhias muito alavancadas, dependentes de refinanciamentos frequentes ou sujeitas a elevada concentração de clientes e fornecedores. O erro começa quando esses riscos são aplicados de maneira uniforme a empresas economicamente muito diferentes.
O mercado precifica corretamente o ambiente adverso, mas nem sempre distribui corretamente essa penalidade entre as empresas. A oportunidade surge quando o risco de negociação é alto, mas o risco econômico é baixo. Essa diferença costuma ser invisível nos índices e decisiva na seleção individual. Em períodos de aversão a risco, a precificação tende a ocorrer por categoria. O investidor reduz small caps, varejo ou construção antes de distinguir os melhores ativos dentro de cada grupo. Isso acontece porque vender uma tese inteira é operacionalmente mais simples do que reavaliar dezenas de companhias individualmente. A menor liquidez tende a agravar esse movimento.
Nas empresas listadas de maior porte, o investidor consegue mudar de posição com impacto limitado sobre o preço. Nas small caps, a tentativa de saída já faz parte do risco da posição. Por isso, o desconto não remunera apenas a incerteza sobre a empresa; remunera também a incerteza sobre a capacidade de vender a ação no momento desejado.
Há ainda um risco frequentemente subestimado: a alocação de capital. Em companhias abertas de menor porte, uma aquisição mal dimensionada, um investimento excessivo ou uma dívida contratada em condições inadequadas pode alterar rapidamente o valor do negócio. O tamanho reduzido oferece potencial de crescimento, mas diminui a margem para erros estratégicos.
MM: A Genial calcula que o segmento opera a 8,7x o lucro projetado, cerca de 30% abaixo da média histórica. Esse movimento pode atrair investidores do mercado doméstico e fortalecer a Bolsa no próximo trimestre?
AV: O múltiplo de 8,7 vezes o lucro projetado e o desconto de aproximadamente 30% em relação à média histórica mostram que o mercado exige atualmente uma remuneração elevada para assumir risco em empresas menores. Esse movimento é resultado da combinação entre juros altos, menor liquidez, incerteza sobre os lucros e competição direta com a renda fixa. O múltiplo preço-lucro não representa apenas uma expectativa sobre os resultados da companhia. Ele também incorpora a taxa de retorno exigida pelo investidor. Quando a Selic está em 14,25% ao ano, um investimento em ações precisa oferecer uma perspectiva de retorno significativamente superior para compensar volatilidade, risco empresarial e ausência de garantia.
Há ainda um efeito de duração financeira, já que companhias avaliadas principalmente pelo crescimento futuro sofrem mais quando o custo de capital aumenta, porque parte maior de seu valor está concentrada em fluxos de caixa distantes. Em termos práticos, quanto mais o investidor precisa esperar pelo lucro, maior é o impacto dos juros sobre o preço que ele aceita pagar hoje.
Esse desconto pode atrair o investidor doméstico, mas não será suficiente isoladamente. O mercado não compra apenas ações baratas; compra a possibilidade de reprecificação. Para que o fluxo retorne de forma consistente, será necessário combinar valuation reduzido, queda dos juros longos e estabilidade ou melhora das projeções de lucro. O capital doméstico tende a retornar quando perceber que o custo de permanecer fora da Bolsa começou a superar o conforto de permanecer na renda fixa. O ponto de inflexão não ocorre quando a Selic já caiu muito, mas quando o mercado passa a acreditar que a queda será duradoura.
MM: No atual cenário de juros altos e com as grandes empresas mais expostas ao risco geopolítico, as small caps podem aparecer como oportunidade?
AV: As small caps podem oferecer diversificação em relação às grandes exportadoras, mas não devem ser tratadas como um refúgio automático contra a geopolítica. O risco global não respeita fronteiras societárias; ele apenas muda de linha na demonstração de resultados. Grandes exportadoras e produtoras de commodities estão mais diretamente sujeitas a guerras comerciais, sanções, restrições logísticas, mudanças tarifárias e oscilações de preços internacionais.
Empresas menores voltadas a serviços, saúde, tecnologia, infraestrutura local e consumo interno podem ter menor exposição direta a esses eventos. Essa proteção, contudo, é relativa ao passo em que o risco geopolítico chega às empresas domésticas por outros caminhos: câmbio, petróleo, inflação, custo de insumos, juros e confiança. Uma companhia pode vender integralmente no Brasil e, ainda assim, ter uma estrutura de custos fortemente dolarizada. A geografia da receita não revela, sozinha, a geografia do risco.
Por isso, a oportunidade precisa ser corretamente identificada nas demonstrações financeiras. Companhias abertas com dívida reduzida, vencimentos bem distribuídos, caixa recorrente e baixa necessidade de capital externo estão mais preparadas para atravessar um período de juros altos. Já empresas listadas, cujo crescimento depende de crédito barato, permanecem vulneráveis, mesmo que operem exclusivamente no mercado doméstico.
MM: Small caps de quais setores tendem a ser mais interessantes e oferecer maior retorno nesse momento?
AV: Mais do que escolher setores, considero necessário identificar modelos de negócio capazes de combinar crescimento, disciplina financeira e retorno sobre o capital. Em um ambiente de juros ainda elevados, a qualidade do balanço deve preceder qualquer tese setorial.
Empresas de infraestrutura e serviços contratados podem ser interessantes quando possuem receitas previsíveis, contratos de longo prazo, mecanismos de reajuste e necessidade controlada de capital. Nesses casos, a previsibilidade dos fluxos de caixa reduz parte do impacto da volatilidade macroeconômica. Em tecnologia, as melhores oportunidades tendem a estar em companhias que já superaram a fase de crescimento financiado indefinidamente por terceiros.
Saúde também pode oferecer oportunidades seletivas, em razão de tendências demográficas e demanda relativamente resiliente. No entanto, aquisições mal integradas, endividamento elevado e pressão de custos podem destruir rapidamente a atratividade aparente do setor. Construção civil, varejo e consumo discricionário, por exemplo, apresentam maior sensibilidade à queda dos juros e, por isso, podem registrar reações mais intensas quando a curva de juros melhorar. Essa mesma sensibilidade, contudo, aumenta o risco caso o ciclo de flexibilização seja mais lento do que o esperado. Nesses setores, é indispensável examinar estoques, capital de giro, velocidade de vendas, inadimplência e capacidade de repassar custos.
Também vejo espaço em empresas industriais de nicho, com produtos especializados, carteira diversificada de clientes e capacidade de exportação. Elas podem combinar crescimento doméstico com alguma proteção cambial, desde que não apresentem dependência excessiva de um único mercado.
MM: O crescimento dos ETFs e fundos de índice ajuda ou prejudica as small caps?
AV: O crescimento dos ETFs é positivo para o mercado de capitais brasileiro, mas seus efeitos sobre as small caps são ambivalentes. Esses veículos ampliam o acesso, reduzem o custo de diversificação e permitem que investidores tenham exposição ao segmento sem precisar selecionar individualmente dezenas de companhias.
A indústria brasileira de ETFs encerrou o ano de 2025 em forte expansão. Segundo dados divulgados pela B3, o patrimônio sob gestão passou de aproximadamente R$ 54 bilhões para R$ 91 bilhões, enquanto o número de investidores chegou a cerca de 919 mil em dezembro. A Anbima, por sua vez, registrou captação líquida de R$ 22,9 bilhões em ETFs ao longo de 2025, o maior valor da série histórica iniciada em 2002.
Para as small caps incluídas nos índices replicados, o crescimento desses fundos pode ampliar a demanda, a visibilidade e a liquidez. A entrada em um índice passa a ter valor econômico porque cria um fluxo potencial de compras automáticas. O problema aparece quando o fluxo se inverte. Por exemplo, em um ETF, o resgate não distingue a empresa eficiente da empresa problemática. As ações são vendidas de acordo com a composição do índice. Isso pode aumentar a correlação entre companhias que possuem fundamentos muito distintos e ampliar movimentos de preço sem correspondência imediata com os resultados operacionais.
Há também um possível efeito de concentração, já que os índices normalmente atribuem maior peso aos ativos mais líquidos ou com maior valor de mercado. Assim, o crescimento da gestão passiva pode beneficiar mais intensamente as companhias que já possuem liquidez, reforçando a distância em relação às empresas menores que permanecem fora dos principais referenciais.











