O Banco Central Europeu (BCE) decidiu nesta quinta-feira (23) manter a principal taxa de juros da zona do euro inalterada em 2,25% ao ano. Além da taxa de depósito, o banco preservou as principais operações de refinanciamento em 2,40%, enquanto a taxa da facilidade permanente de empréstimo foi mantida em 2,65%.
A decisão veio acompanhada de um tom cauteloso: a autoridade monetária afirmou que o choque provocado pela alta dos preços da energia ainda não se refletiu integralmente na inflação e reiterou que seguirá avaliando os próximos passos da política monetária reunião a reunião.
O BCE acompanha os efeitos da retomada dos confrontos entre Estados Unidos e Irã, que levou o petróleo a se aproximar de US$ 100 por barril, além da forte alta do gás natural, que atingiu o maior nível em mais de três anos.
Segundo o Banco Central, “a perspectiva para os preços da energia, embora permaneça altamente volátil, atualmente está próxima ao cenário-base das projeções da equipe técnica divulgadas em junho”, justificando a manutenção dos juros nesta reunião.
O BCE informou ainda que monitora não apenas a intensidade e a duração do choque de energia, mas também seus efeitos indiretos e de segunda ordem — expressão usada para descrever o repasse do aumento dos custos de energia para outros bens e serviços da economia, o que pode tornar a inflação mais persistente.
Apesar desse cenário, a instituição afirmou estar preparada para lidar com a incerteza provocada pelo conflito no Oriente Médio e reiterou seu compromisso de levar a inflação de volta à meta de 2% no médio prazo.
Inflação da zona do euro permanece acima da meta
O BCE também destacou que a inflação da zona do euro perdeu força, mas permanece acima do objetivo da instituição. Em junho, a inflação anual desacelerou para 2,8%, após registrar 3,2% em maio.
No mesmo mês de 2025, a taxa era de 2%, segundo dados divulgados pelo Eurostat em 17 de julho.
Mesmo com essa desaceleração, o banco avalia que o choque recente nos preços da energia pode interromper esse processo caso seus efeitos se espalhem pela economia.
Salários seguem moderados e reduzem risco de espiral inflacionária
Um dos principais riscos monitorados pelo BCE é que o aumento dos custos da energia se espalhe para toda a economia. Quando petróleo e gás ficam mais caros, empresas tendem a elevar os preços de bens e serviços para compensar os custos adicionais.
Em seguida, trabalhadores podem buscar reajustes salariais maiores para preservar o poder de compra, alimentando um ciclo de aumentos sucessivos de salários e preços, conhecido como espiral inflacionária.
Apesar desse risco, o BCE destacou que os indicadores do mercado de trabalho seguem relativamente favoráveis. O crescimento dos salários continua desacelerando, o mercado de trabalho permanece relativamente fraco — especialmente na Alemanha, maior economia do bloco — e empresas consultadas pela instituição projetam pressões salariais ainda mais moderadas nos próximos meses.
Mercado aposta em novos aumentos dos juros
A preocupação com o avanço dos custos de energia levou os investidores a reforçarem as apostas em novas altas de juros. Atualmente, o mercado já precifica até três aumentos adicionais, sendo que o primeiro está totalmente incorporado às expectativas para outubro e o segundo para fevereiro do próximo ano.
Entretanto, economistas consultados pela Reuters avaliam que essa precificação reflete principalmente a disparada dos preços da energia, e não uma deterioração dos fundamentos econômicos da região.
Na avaliação desses especialistas, a zona do euro — formada por 21 países — deverá precisar de um aperto monetário menos intenso para conter uma inflação que pode oscilar em torno de 3% nos próximos meses, ainda acima da meta oficial de 2%.
Próximas decisões sobre os juros dependerão dos dados
O BCE voltou a descartar qualquer compromisso com uma trajetória predeterminada para os juros. Segundo o comunicado, “a instituição continuará adotando uma abordagem dependente dos dados e de decisão reunião a reunião para definir a orientação apropriada da política monetária”.
A autoridade monetária acrescentou que as futuras decisões serão tomadas com base na avaliação das perspectivas para a inflação e dos riscos associados, considerando os novos indicadores econômicos e financeiros, o comportamento da inflação subjacente — que desconsidera componentes mais voláteis — e a intensidade com que a política monetária está sendo transmitida para a economia.











