Os mercados internacionais têm desempenho misto nesta sexta-feira (24) — enquanto as bolsas europeias e os índices futuros de Nova York avançam, os principais mercados da Ásia encerraram o pregão em queda, refletindo um ambiente de elevada aversão ao risco diante da combinação de três fatores: a escalada do conflito no Oriente Médio, as incertezas sobre o ritmo dos investimentos globais em inteligência artificial e a entrada em vigor de uma nova rodada de tarifas comerciais dos Estados Unidos contra 60 países, incluindo o Brasil.
O Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) informou, na quinta-feira (23), que realizou a 13ª noite consecutiva de ataques militares contra alvos iranianos. Segundo Washington, as operações têm como objetivo reduzir a capacidade do Irã de atacar embarcações comerciais que transitam pelo Estreito de Ormuz. Em resposta, autoridades iranianas afirmaram ter atingido sistemas de mísseis, depósitos de armas e instalações de combustível dos Estados Unidos localizados na Jordânia, além de posições militares americanas no Kuwait.
O impasse diplomático também se agravou após Teerã rejeitar a única proposta de cessar-fogo que estava em discussão. Embora os detalhes da oferta não tenham sido divulgados, autoridades iranianas afirmaram que não aceitariam um acordo temporário que deixasse sem solução definitiva a disputa sobre o controle do Estreito de Ormuz. Após a rejeição da proposta, o presidente Donald Trump afirmou, em entrevista ao portal Axios, que está avaliando retomar operações militares de grande escala contra o Irã. Segundo Trump, ele está “perto de tomar uma decisão” sobre ataques que seriam “maiores do que nunca”.
Ontem, o presidente americano endureceu o discurso nas redes sociais ao afirmar que os houthis e o Irã sofrerão uma “grande punição militar” caso continuem promovendo ataques no Mar Vermelho. Posteriormente, acrescentou que “todo e qualquer dano” causado a embarcações será compensado com recursos iranianos atualmente bloqueados pelos Estados Unidos.
Washington mantém aproximadamente US$ 2 bilhões em ativos iranianos congelados em território americano. Estimativas indicam que outros valores, retidos em diversos países devido às sanções impostas pelos EUA, variam entre US$ 24 bilhões e mais de US$ 100 bilhões.
A situação também se deteriora no Mar Vermelho. Os recentes ataques contra navios ligados à Arábia Saudita ocorreram depois que os houthis anunciaram um bloqueio naval ao país, aumentando os temores de fechamento do Estreito de Bab el-Mandeb, corredor marítimo que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e ao Oceano Índico. Desde que o Irã passou a controlar o Estreito de Ormuz nos primeiros dias da guerra, Bab el-Mandeb tornou-se uma rota estratégica para as exportações sauditas de petróleo.
Nova rodada de tarifas dos EUA entra em vigor
Além da geopolítica, os investidores acompanham os desdobramentos da política comercial americana. Entrou em vigor nesta sexta-feira (24) uma nova rodada de tarifas anunciada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), atingindo produtos provenientes de 60 países, entre eles o Brasil.
A medida estabelece uma sobretaxa adicional de 10% para países que, segundo a investigação americana, adotam e aplicam efetivamente mecanismos para impedir a importação de produtos produzidos com trabalho forçado. Já os países considerados insuficientes nesse controle passarão a enfrentar uma tarifa adicional de 12,5%.
O Brasil foi enquadrado neste segundo grupo. Segundo o USTR, embora o país mantenha compromissos internacionais de combate ao trabalho escravo e possua instrumentos como a Lista Suja do Trabalho Escravo — atualizada semestralmente pelo governo federal —, ainda não dispõe de mecanismos considerados eficazes para impedir a entrada, no mercado brasileiro, de mercadorias produzidas com trabalho forçado em outros países.
As novas tarifas passaram a valer às 0h01 desta sexta-feira, exatamente no momento em que expirou a tarifa temporária de 10% vigente nos últimos 150 dias. O documento estabelece apenas uma exceção: mercadorias já embarcadas antes do primeiro minuto do dia 24 poderão escapar da sobretaxa, desde que sejam desembaraçadas pela alfândega americana até 28 de julho.
Dias antes, Donald Trump já havia anunciado tarifas de 25% sobre uma ampla lista de produtos brasileiros, alegando riscos à segurança econômica dos Estados Unidos. Foram atingidos principalmente, máquinas industriais, equipamentos elétricos, produtos químicos, papel e celulose, peças metálicas e produtos manufaturados de maior valor agregado. No agronegócio, carnes processadas e derivados também passaram a ser tarifados, enquanto soja, milho e café permaneceram isentos por serem considerados estratégicos para a cadeia alimentar dos Estados Unidos.
Em diversas categorias de produtos, a nova tarifa de 12,5% será cumulativa às sobretaxas de 25% anunciadas anteriormente. Segundo estimativas divulgadas, aproximadamente 85,3% das exportações brasileiras afetadas — equivalentes a cerca de US$ 10,7 bilhões — passarão a enfrentar sobretaxas combinadas de até 37,5%, um dos maiores níveis tarifários atualmente aplicados pelos Estados Unidos contra parceiros comerciais.
Em nota oficial, o governo brasileiro criticou duramente a medida americana. Segundo o comunicado, “na ausência de base interna legal para sustentar sua política comercial protecionista, o USTR optou por manipular tema caro aos direitos humanos e à luta dos trabalhadores e trabalhadoras em todo o mundo para acusar 59 países e a União Europeia de práticas desleais”.
Embora a nova sobretaxa já fosse esperada por Brasília, o governo mantém reuniões com representantes dos setores mais afetados para definir medidas de resposta.
Manchetes desta manhã
- Países reagem a novas tarifas de Trump e classificam medida como ‘injustificada’ (Valor)
- Ex-presidente do Fed diz que IA pressiona inflação e pode impedir corte de juros (Folha)
- Crise da Oncoclínicas (ONCO3) chega a 111 fundos, mas risco maior é de quem comprou títulos (Estadão)
- Balanço ‘decepcionante’ da Tesla faz Elon Musk perder R$ 94,86 bilhões em um dia (O Globo)
- União Europeia aplica multa de US$ 1 bi ao Google (Valor)
Noticiário de tecnologia, guerra e tarifas ditam o ritmo do mercado global
Os mercados da Ásia encerraram a semana em forte queda, em meio à combinação entre a escalada do conflito no Oriente Médio, novas tarifas de Trump e dúvidas sobre o retorno dos investimentos em IA pesando sobre o sentimento dos investidores.
Na Coreia do Sul, o Kospi despencou 5,72%, enquanto o Nikkei, do Japão, recuou 2,73%, com fortes perdas de gigantes de tecnologia, Samsung, SK Hynix e SoftBank.
Já na Europa, as Bolsas operam em alta, mas caminham para encerrar a semana no vermelho. Apesar do alívio nos preços do petróleo após a disparada da véspera, os investidores seguem cautelosos diante da escalada do conflito no Oriente Médio e da entrada em vigor das novas tarifas dos Estados Unidos sobre produtos de 60 países, fatores que mantêm elevada a aversão ao risco nos mercados globais.
Em Nova York, os índices futuros buscam manter o desempenho positivo nesta sexta-feira e refletem a cautela dos investidores em um ambiente marcado pelo aumento das tensões geopolíticas e pela expectativa em torno da próxima rodada de balanços das big techs.
Com o cenário de maior aversão ao risco, os mercados caminham para registrar a primeira sequência semanal de perdas desde o início da escalada da guerra no Oriente Médio.
Confira os principais índices do mercado:
- S&P 500 Futuro: +0,19%
- FTSE 100: +0,10%
- CAC 40: +0,36%
- Nikkei 225: -2,73%
- Shanghai SE Comp: -1,61%
- Hang Seng: -0,98%
- Ouro (jun): +0,17%, a US$ por 4.057,22 por onça troy
- Índice do dólar (DXY): +0,05%, aos 101,50 pontos
- Bitcoin: -0,30% a US$ 64.939,6
Commodities
- Petróleo: as tensões entre EUA e Irã seguem elevadas às vésperas do fim de semana, mantendo os investidores em estado de alerta. Embora o Brent recue nesta sexta-feira, após superar US$ 100 por barril na sessão anterior, o mercado continua preocupado com os riscos à oferta global.
O fechamento do Estreito de Ormuz e a intensificação dos ataques no Mar Vermelho dificultam o transporte de petróleo por rotas alternativas, reforçando a cautela em um cenário que caminha para a terceira semana consecutiva de alta da commodity.
Há pouco, o Brent/setembro cedia 2,56%, cotado a US$ 98,11. Já o WTI/agosto recuava 2,44%, a US$ 89,94. - Minério de ferro: fechou em queda de 0,13% em Dalian, na China, cotado a US$ 110,14 a tonelada, pressionados pela retomada dos embarques da commodity, após a queda registrada na semana passada.
Segundo a ANZ Research, o aumento da oferta, somado às margens mais fracas das siderúrgicas chinesas, continua limitando a demanda pelo minério. Apesar disso, a expectativa é de que os preços permaneçam oscilando na faixa atual no curto prazo.
Cenário internacional
No cenário geopolítico, além dos impactos sobre o comércio internacional, os ataques contra navios ligados à Arábia Saudita ameaçam encerrar a trégua de quatro anos entre os houthis e a Arábia Saudita. Os reflexos já aparecem no mercado marítimo. Segundo dados do setor, os custos do seguro para embarcações que trafegam pelo sul do Mar Vermelho dobraram para algumas empresas na quinta-feira. Ao mesmo tempo, o número de petroleiros que cruzaram o Estreito de Ormuz caiu para apenas uma embarcação durante o dia, o menor volume registrado desde 7 de maio, de acordo com dados de rastreamento marítimo.
No exterior, os investidores também acompanham a leitura preliminar dos índices de gerentes de compras (PMIs) da Alemanha, Zona do Euro, Reino Unido e Estados Unidos. Os dados divulgados durante a madrugada apontaram uma melhora da atividade econômica na maior parte da Europa.
No Reino Unido, o PMI composto avançou para 52,1 pontos, ante 49,3 em junho — a maior leitura desde fevereiro — impulsionado pelos setores de serviços (51,8) e indústria (52,8). Na Zona do Euro, o índice composto subiu para 51,9 pontos, frente aos 50 do mês anterior, atingindo o maior nível em cinco meses.
Nos Estados Unidos, além dos indicadores econômicos, o ambiente político segue no radar. Uma coalizão formada por 25 Estados e o Distrito de Columbia, liderada por governos democratas, acionou a Justiça Federal para impedir que o Departamento de Segurança Interna (DHS) retenha recursos destinados a desastres naturais como forma de pressionar Estados a adotarem regras eleitorais defendidas pelo governo de Donald Trump.
A ação amplia a disputa judicial em torno das regras eleitorais às vésperas das eleições legislativas de novembro.
Cenário nacional
No Brasil, o mercado monitora a divulgação do Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias, que poderá trazer atualizações sobre o quadro fiscal do governo, além da nova pesquisa Datafolha, com dados sobre a avaliação do governo federal e as intenções de voto para a eleição presidencial.
A agenda econômica também será movimentada. O Banco Central promove, às 9h30 e às 11h, as duas etapas da reunião trimestral com economistas, no Rio de Janeiro. Às 10h30, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, participa de um painel na XP Expert. Na sequência, às 11h25, será a vez do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, participar de debate no evento.
No campo político e jurídico, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a abertura de um inquérito para investigar repasses do banqueiro Daniel Vorcaro destinados à produção do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. A decisão acrescenta um novo componente ao noticiário político.
Destaques do mercado corporativo
- Novo Nordisk: pediu à Justiça dos EUA suspensão de anúncio de remédio para emagrecer da Eli Lilly
- Volkswagen: corta projeções de vendas e sinaliza reestruturação mais profunda com cenário global adverso.
- Eneva: recebeu R$ 340 milhões da Vale como parte de um acordo firmado entre as empresas pelo término de um contrato de fornecimento de gás natural liquefeito (GNL) destinado às instalações industriais da mineradora em São Luís, no Maranhão.
- Bimbo: o Cade rejeitou a quarta compradora apresentada pela Bimbo para a marca de pães Nutrella e confirmou a realização do leilão aberto do ativo, marcado para às 15h desta sexta-feira.
- Daycoval: realizou captação R$ 2,5 bilhões em letras financeiras, divididas em três séries, de 2, 3e 4anos. O volume é recorde para o banco. A demanda chegou a R$ 6,1 bilhões, o que corresponde a quase 2,5 vezes a oferta.
- Banco do Brasil: informou que já concedeu R$ 650,9 milhões no Move Brasil, programa do governo federal voltado para motoristas de táxis e aplicativos.











