O mercado brasileiro de títulos ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês) está ignorando a adoção de mecanismos de verificação socioambiental. Segundo estudo da Associação Soluções Inclusivas Sustentáveis (SIS), as instituições financeiras realizam, em média, apenas 17,5% das diligências consideradas mínimas pela Taxonomia Sustentável Brasileira (TSB).
O levantamento avaliou frameworks, políticas e instrumentos utilizados por 22 instituições financeiras, 37 empresas do agronegócio e 32 companhias do setor elétrico que emitiram títulos ESG entre 2021 e 2025.
O risco de greenwashing — prática em que empresas ou projetos são apresentados como sustentáveis sem atender aos critérios ambientais e sociais esperados — não é exclusivo do setor bancário. Todos os demais segmentos também apresentam baixo nível de verificação de riscos socioambientais em suas cadeias de fornecedores.
Bancos realizam apenas parte das verificações
Entre as instituições financeiras analisadas estão Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Itaú Unibanco, Bradesco, Santander, BTG Pactual, Sicredi, Sicoob, Banco BV, BNDES, Banco do Nordeste (BNB) e BDMG.
Das 18 instituições cujas operações permitiam a aplicação das diligências avaliadas, nenhuma realiza verificações socioambientais sobre a cadeia de fornecedores das empresas financiadas.
Segundo a SIS, os bancos executam, em média, apenas 4,2 das 24 diligências consideradas essenciais, o equivalente a 17,5% do conjunto de verificações previstas pela Taxonomia.
A consulta ao cadastro de empregadores envolvidos com trabalho análogo à escravidão é a única prática presente na maioria das instituições, adotada por 83,3% delas. Já verificações relacionadas ao desmatamento aparecem com frequência menor:
- 27,8% consultam informações sobre supressão de vegetação em Áreas de Preservação Permanente (APPs) e Reservas Legais por meio do Cadastro Ambiental Rural (CAR);
- 16,7% verificam desmatamento sem autorização;
- 11,1% utilizam bases de monitoramento como MapBiomas e INPE.
Também são pouco frequentes consultas sobre autos de infração do Ibama, embargos ambientais e registros de órgãos ambientais estaduais.
Agronegócio verifica apenas 12,5% dos critérios
No setor de agropecuária, alimentos, bebidas e biocombustíveis, o estudo analisou empresas como Raízen, Vibra Energia, Tereos, FS Bioenergia, Be8, ComBio, UISA, Zilor, Amaggi, JBS e Marfrig.
Segundo a pesquisa, essas companhias realizam, em média, apenas três das 24 diligências recomendadas, o equivalente a 12,5% dos critérios considerados essenciais.
A verificação mais comum também é a consulta ao cadastro de empregadores envolvidos com trabalho análogo à escravidão, adotada por 57,5% das empresas. Em seguida aparecem: consulta a áreas embargadas pelo Ibama e ICMBio (27,5%); verificação de sobreposição com terras indígenas (25%); monitoramento de APPs e Reservas Legais via CAR (22,5%); e uso de bases como MapBiomas e INPE (7,5%).
O estudo também identificou que nenhuma das empresas realiza consultas sobre processos judiciais socioambientais ou investigações conduzidas pelo Ministério Público Federal ou pelos Ministérios Públicos estaduais.
Setor elétrico apresenta investigações em andamento
No setor elétrico, entre as empresas analisadas estão: EDP Brasil, Engie Brasil Energia, Neoenergia, Energisa, Equatorial Energia, Copel, Axia Energia, ISA CTEEP e Taesa.
Segundo a SIS, os frameworks e políticas dessas companhias ainda dedicam pouca atenção à gestão de riscos climáticos, impactos sobre a biodiversidade e relacionamento com comunidades afetadas pelos empreendimentos. O levantamento aponta que:
- 46,9% das empresas possuem investigações ou procedimentos em andamento junto ao Ministério Público;
- 40,6% têm registros no Ministério Público do Trabalho;
- 28,1% respondem a processos na Justiça Federal relacionados a temas socioambientais;
- 28,1% possuem registros de infrações em órgãos ambientais estaduais.
Mercado ESG segue crescendo, mas sem adotar mecanismos sustentáveis
De acordo com a Climate Bonds Initiative, o mercado brasileiro atingiu US$ 67,8 bilhões até junho de 2025. Os títulos ESG começaram a ser emitidos internacionalmente em 2008, mas só ganharam espaço no Brasil em 2015.
Para a diretora executiva e técnica da SIS, Luciane Moessa, os resultados mostram que o crescimento do mercado de títulos sustentáveis não foi acompanhado pela adoção de mecanismos suficientes para identificar riscos socioambientais.
“Os resultados mostram que o mercado brasileiro de títulos verdes, sociais e sustentáveis avançou em volume, mas ainda não incorporou mecanismos de diligência compatíveis com os riscos socioambientais envolvidos. Em muitos casos, recursos captados com o compromisso de gerar benefícios ambientais e sociais podem estar sendo direcionados a empresas ou cadeias produtivas sem uma verificação adequada de passivos ambientais, conflitos territoriais ou descumprimento da legislação”, afirmou.
Segundo ela, o cumprimento das normas socioambientais deveria ser um requisito básico para que uma atividade seja considerada sustentável.











