Por Carlos Henrique S. Junior*
Durante anos, falar sobre ativos digitais no ambiente corporativo parecia tratar de uma tecnologia distante da rotina financeira das empresas, mas isso mudou. Vejo que a aproximação entre ativos digitais e mercado cambial já começa a transformar a forma como nossas empresas olham para pagamentos e recebimentos internacionais.
No Brasil, o Banco Central passou a incluir determinadas operações com ativos virtuais no mercado de câmbio, entre elas pagamentos e transferências internacionais, além de estabelecer obrigações de informação e controles para essas operações.
Ou seja, para empresas que importam, exportam ou mantêm relações comerciais com outros países, essa evolução pode representar novas possibilidades. Stablecoins podem, em determinados contextos, contribuir para maior velocidade de liquidação, disponibilidade de recursos e eficiência operacional. Mas reduzir essa discussão ao custo ou à velocidade da transação é um erro.
Uma operação internacional precisa ser analisada como um todo. O menor custo aparente não significa necessariamente o menor custo total. Precisamos considerar spread, taxas, conversão, liquidez, tempo de liquidação e até os custos relacionados à gestão e conciliação dos recursos.
A liquidez também é fundamental. Não basta uma tecnologia movimentar determinado ativo rapidamente. Temos que avaliar a profundidade desse mercado, a facilidade de conversão e a capacidade de transformar o ativo em moeda utilizável para cumprir uma obrigação comercial.
O mesmo vale para rastreabilidade e segurança. A tecnologia blockchain permite registrar e acompanhar transações, mas sempre reforço que a rastreabilidade tecnológica não substitui processos de identificação, monitoramento e controles de prevenção a crimes financeiros.
Para uma empresa que realiza negócios internacionais, portanto, o compliance não pode aparecer como uma etapa posterior à escolha da tecnologia. Ele precisa fazer parte da decisão desde o início, com identificação das contrapartes, documentação adequada, monitoramento dos recursos e atenção às regras aplicáveis.
A discussão sobre stablecoins, nesse sentido, não deve ser tratada como uma simples substituição do câmbio tradicional por uma nova tecnologia. Estamos diante de uma evolução da infraestrutura financeira, e toda evolução exige de nós uma análise ampla sobre segurança, governança, liquidez e capacidade operacional.
Para as empresas, a pergunta mais importante não deve ser apenas “quanto custa transferir?”, mas “qual estrutura oferece a melhor combinação entre eficiência, segurança, liquidez, rastreabilidade e conformidade para a minha operação?”.
Até por isso, à medida que os ativos digitais ganham espaço nas transações internacionais, essa capacidade de avaliação será cada vez mais importante. O futuro do câmbio pode ser mais digital, mas isso não significa que será menos regulado ou menos dependente de confiança.
As stablecoins podem fazer parte dessa transformação, mas acredito que a inovação financeira só será realmente relevante para as empresas quando conseguir combinar eficiência com segurança e confiança.
*Carlos Henrique da Silva Junior é advogado e economista com foco em criptoativos, além de Strategic Advisor da Freex Corretora de Câmbio











