Em junho de 1935, o entomologista Reginald Mungomery levou 102 sapos do Havaí para Queensland, mas apenas 101 chegaram vivos. Menos de dois meses depois, a criação já havia produzido 2.400 descendentes, liberados sem que a eficácia contra os besouros da cana tivesse sido confirmada. A pressa mudou o ecossistema.
Como os 102 sapos do Havaí chegaram à Austrália?
A viagem começou quando Reginald Mungomery, funcionário do setor açucareiro de Queensland, capturou os animais perto de Honolulu. A travessia marítima durou semanas e apenas um exemplar morreu, deixando 101 sobreviventes para iniciar a criação na estação experimental de Meringa, próxima a Gordonvale.
Os anfíbios pertenciam à espécie Rhinella marina, nativa das Américas e já levada a outras ilhas. Seu tamanho, sua dieta variada e sua reprodução rápida fizeram os pesquisadores acreditarem que ela poderia repetir, nos canaviais australianos, resultados atribuídos ao controle biológico no Caribe.

Por que eles foram escolhidos para proteger os canaviais?
As plantações sofriam com larvas de besouros da cana que atacavam as raízes. Métodos químicos eram caros e limitados, enquanto experiências anteriores com organismos vivos haviam criado entusiasmo. O sapo parecia uma alternativa capaz de comer adultos e reduzir a quantidade de insetos que voltariam ao solo.
O National Museum of Australia registra que a decisão avançou sem estudos ambientais e sem comprovação de que os sapos alcançariam os besouros. O detalhe era decisivo, pois muitos insetos ficavam no alto das plantas e suas larvas permaneciam enterradas junto às raízes.
O que aconteceu antes da liberação dos 2.400 descendentes?
Instalados em um cercado preparado para reprodução, os 101 sapos sobreviventes multiplicaram-se rapidamente. Em 19 de agosto de 1935, menos de dois meses após a chegada, milhares de jovens estavam disponíveis. A velocidade da criação foi interpretada como sinal de viabilidade, não como aviso sobre o potencial invasor.
Os passos antes da soltura mostram como o processo foi acelerado:
- Captura no Havaí: 102 animais foram reunidos em uma única expedição.
- Chegada a Queensland: 101 exemplares alcançaram vivos a estação experimental.
- Reprodução em cativeiro: os sobreviventes originaram milhares de filhotes em poucas semanas.
- Liberação inicial: 2.400 descendentes foram soltos na região de Gordonvale.

Por que os sapos não controlaram os besouros da cana?
O plano ignorava uma diferença prática entre predador e presa. Os sapos permaneciam perto do chão, enquanto muitos besouros adultos se alimentavam nas partes altas da cana. As larvas, principal causa dos danos, ficavam protegidas sob a terra, fora do alcance regular dos anfíbios.
O portal PestSmart reconstitui essa introdução. O vídeo da BBC Studios acompanha a expansão dos sapos e mostra por que o animal se tornou um dos símbolos mais conhecidos das espécies invasoras na Austrália.
Como uma solução agrícola virou uma invasão continental?
Sem controlar a praga original, os sapos-cururus encontraram alimento abundante, clima favorável e poucos predadores capazes de suportar suas toxinas. A população avançou por Queensland, alcançou o Território do Norte, a Austrália Ocidental e áreas de Nova Gales do Sul, alterando relações entre predadores e presas.
O caso deixou uma lição duradoura sobre controle biológico: reproduzir um animal com facilidade não prova que ele resolverá o problema agrícola. A soltura de 1935 mostrou que eficácia, alcance da presa e impacto ambiental precisam ser testados antes que uma espécie seja liberada em grande escala.











