No primeiro semestre, o Brasil recebeu mais de 5,26 milhões de estrangeiros, quase o recorde de 2025, quando 5,33 milhões de turistas vieram ao país, segundo a Embratur (Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo). Os dados mostram que o Brasil mantém o ritmo de recuperação do turismo internacional, mas o aumento no número de visitantes não tem sido acompanhado por uma expansão proporcional dos gastos.
Estudo da FecomercioSP, elaborado a partir de dados do Banco Central (BC), mostra que o gasto médio de estrangeiros no primeiro semestre passou de R$ 6.447 em 2024 para R$ 5.625 neste ano. Em dois anos, a redução chega a 12,75%.
Para a FecomercioSP, o cenário resulta de uma combinação de fatores, que envolve o comportamento do câmbio, a concentração dos visitantes em determinados mercados, os custos de viajar pelo país e limitações de infraestrutura e conectividade.
Câmbio impulsiona fluxo, mas limita consumo
Um dos principais fatores apontados pela Federação é o câmbio real. O indicador considera não apenas a cotação entre as moedas, mas também a diferença entre os níveis de preços dos países.
Em 2018, a cotação média da moeda estrangeira em relação ao real era de R$ 3,95. Em 2025, passou para R$ 5,83. Na prática, o real perdeu cerca de um terço de seu valor nesse intervalo, o que tornou o Brasil mais barato para turistas internacionais. Esse movimento ajuda a explicar a combinação observada nos últimos anos: mais estrangeiros conseguem viajar para o país, enquanto o valor real consumido por cada visitante diminui.
No estudo, a FecomercioSP considera a evolução cambial ajustada pela inflação dos dois países. Para isso, utiliza o Consumer Price Index (CPI), índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos, e o IPCA, indicador oficial de inflação do Brasil.
Tendência se repete quando os gastos são analisados em dólares
Em 2022, o desembolso médio por turista era de US$ 1.713. O valor caiu para US$ 989 no ano passado e se recuperou para US$ 1.085 neste ano.
Apesar da recuperação mais recente, o gasto ainda está abaixo da média anterior à pandemia. Entre 2018 e 2026, a retração foi de 6%, enquanto o número de visitantes cresceu 40%.
Além do câmbio, dependência de turistas argentinos também pesa
A composição do turismo internacional também é apontada como um fator relevante. Atualmente, os argentinos representam 38% dos turistas que chegam ao Brasil. Embora a participação tenha diminuído em relação a 2018, quando chegava a 48%, o país vizinho ainda responde por mais de um terço dos visitantes estrangeiros.
Na avaliação da FecomercioSP, essa concentração aumenta a exposição do setor à capacidade de consumo dos argentinos. O público enfrenta um cenário de renda volátil em meio ao processo de ajuste fiscal argentino e apresenta gasto médio menor.
O câmbio também interfere nesse comportamento. Quando a relação cambial se torna menos favorável, a capacidade do turista argentino de ampliar suas despesas no Brasil diminui.
Carga tributária e custos afetam receitas do turismo
Além do câmbio e do perfil dos visitantes, a FecomercioSP identifica questões estruturais que limitam o potencial de geração de receitas do turismo internacional. Um dos problemas apontados é que o Brasil não apresenta custos baixos para o turista global. A carga tributária, os juros elevados — que aumentam o custo de captação de recursos — e as despesas para manter negócios em funcionamento formam parte desse cenário.
Outro ponto é a inexistência de mecanismos de restituição de determinados tributos pagos por turistas estrangeiros. Entre eles está o tax-free, sistema utilizado em diversos países que permite ao visitante recuperar impostos embutidos em determinadas compras.
Segundo a Federação, há também espaço para ampliar a oferta de produtos capazes de representar a identidade brasileira e estimular o consumo dos estrangeiros. Entre os exemplos estão roupas, joias, artesanato e cosméticos.
Os serviços também entram nessa equação. Como possuem custos elevados, os turistas tendem a controlar esse tipo de despesa, o que reduz o valor médio desembolsado durante a permanência no país.
Infraestrutura ainda limita o potencial do setor
Os gargalos logísticos são outro obstáculo identificado no estudo. Nem todas as regiões brasileiras possuem voos diretos, enquanto alguns aeroportos ainda apresentam problemas. A ausência de linhas ferroviárias também restringe as opções de deslocamento.
Em destinos considerados centrais, como Rio de Janeiro e São Paulo, o custo das passagens aéreas é outro fator que pode limitar a circulação dos turistas pelo país.
Para a FecomercioSP, essas restrições dificultam a ampliação da experiência turística e, consequentemente, das despesas realizadas pelos visitantes.
Menor diversificação de turistas preocupa
Outro desafio está na capacidade de diversificar a origem dos turistas. Chile e Argentina estão entre os países que dominam a lista de chegadas, enquanto visitantes de outros mercados, inclusive de países com maior renda, vêm em menor quantidade.
O número de turistas dos Estados Unidos, por exemplo, recuou 3,5% no primeiro semestre. A queda ocorreu depois que o governo brasileiro decidiu exigir visto para a entrada de cidadãos norte-americanos. A Federação avalia que a decisão foi um erro, porque esse público apresenta dois atributos relevantes para o setor: permanece mais tempo no país e possui gasto médio mais elevado.
A FecomercioSP avalia que agora o desafio passa a ser transformar o aumento do fluxo de turistas em maior geração de receita para a economia brasileira. Para isso, defende uma agenda coordenada com outras áreas, incluindo alterações tributárias, ampliação da conectividade aérea e redução da burocracia relacionada aos vistos.
A estratégia também deve contemplar o estímulo a segmentos de maior valor, como o turismo de negócios, além da atração de visitantes provenientes de destinos mais distantes, uma vez que esses turistas tendem a permanecer mais tempo no país e apresentar gastos maiores.











