O Comitê de Política Monetária (Copom) incluiu na ata da reunião de setembro um novo parágrafo onde reconheceu existir evidências mais robustas de desaceleração, confirmadas pelo PIB do segundo trimestre e pelo enfraquecimento do mercado de crédito livre, especialmente nas modalidades mais sensíveis aos juros.
Nesta terça-feira (22), o Banco Central afirmou que a evolução dos empréstimos com recursos livres é compatível com um quadro de menor crescimento. O destaque foi para as modalidades de prazo mais longo, consideradas mais sensíveis à política monetária.
Segundo a equipe de macroeconomia do ASA, a questão do crédito foi a principal novidade do documento, após o comitê deixar o tema de lado nos últimos comunicados (feito após a decisão da taxa Selic) e nas atas, deixando essa discussão para o Comitê de Estabilidade Financeira (Comef).
O que mudou no crédito
A ata mostra uma diferença entre as linhas de crédito livre e direcionado. Nas operações com recursos livres, as modalidades de prazo mais longo perderam força. Essas linhas tendem a responder de forma mais direta às mudanças na taxa básica de juros.
Já as operações de curto prazo e emergenciais, que possuem custo mais elevado, continuaram crescendo, embora também tenham apresentado desaceleração na margem.
No crédito direcionado, o comportamento foi diferente. O Copom citou a continuidade da expansão para pessoas físicas, especialmente por meio do crédito imobiliário, e para empresas, sustentada por operações com fundos garantidores.
Ata do Copom não abre espaço para acelerar cortes
Apesar dos sinais de desaceleração, o Copom não alterou de forma relevante sua estratégia para os juros. O comitê reiterou que a magnitude do chamado ciclo de calibração será definida conforme a evolução dos dados. A expressão se refere ao processo de ajuste gradual da política monetária iniciado em março.
A ata também manteve a avaliação de que a inflação continua pressionada pela demanda e que a política monetária precisa permanecer restritiva. A Warren avaliou que o documento preservou a estratégia de cortes graduais de 0,25 ponto porcentual. Para a instituição, a ata busca equilibrar a desaceleração mais visível da economia com a necessidade de evitar uma deterioração das expectativas de inflação.
O ASA chegou a uma leitura semelhante. Para a equipe, a ata reforça a possibilidade de continuidade dos cortes de 25 pontos-base, mas não sinaliza aceleração do ritmo.
Segundo Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, o documento “permite considerar mais um corte de 0,25 ponto em 2026, mas condiciona claramente os próximos movimentos à evolução do cenário. O próprio Copom afirma que os riscos inflacionários estão assimétricos para cima e que a magnitude do ciclo será calibrada de acordo com os novos dados”.
Em sua avaliação, Murad acredita que: “se 2027 combinar desinflação, melhora fiscal e redução dos juros longos, haverá espaço para ampliar duration e risco no Brasil, enquanto a diversificação internacional continua exercendo uma função estrutural de exposição a outras moedas, geografias e ciclos econômicos”.
Expectativas continuam acima da meta
O principal obstáculo para uma flexibilização mais rápida segue sendo o comportamento das expectativas de inflação. O Copom afirmou que as expectativas permanecem acima da meta em todos os horizontes analisados. O comitê destacou que, em um ambiente de expectativas desancoradas, é necessária uma política monetária mais restritiva por mais tempo.
No último Boletim Focus antes da reunião do Copom, em 14 de setembro, as expectativas para o IPCA estavam em 4,9% para 2026 e 4,3% para 2027, acima da meta de inflação de 3%. A projeção do próprio Copom para o primeiro trimestre de 2028, atual horizonte relevante da política monetária, é de 3,2%.
No cenário de referência utilizado pelo Banco Central, a projeção para o IPCA é de 5,2% em 2026, 3,9% em 2027 e 3,2% no primeiro trimestre de 2028.











