A corrida pela infraestrutura da inteligência artificial (IA) está deslocando o foco dos investidores de software e startups para data centers, energia e componentes necessários para sustentar o avanço da tecnologia. Esse movimento também começa a alterar o mercado global de fusões e aquisições (M&A), segundo especialistas da Zaxo M&A Partners.
Para Jefferson Nesello, sócio-diretor da Zaxo, a mudança amplia o universo de empresas que podem entrar no radar de fundos e grupos estratégicos. Além dos operadores de data centers, estão entre os potenciais alvos fabricantes de painéis elétricos, empresas de cabeamento, sistemas de climatização, integradores de infraestrutura crítica, componentes eletrônicos, automação industrial, segurança, monitoramento e eficiência energética.
“A lógica é semelhante à corrida do ouro do século XIX. Nem sempre quem enriqueceu foi quem procurou ouro. Muitas vezes foram os fornecedores de ferramentas e infraestrutura para exploração”, afirma Nesello.
O movimento já aparece nos números de fusões e aquisições. Segundo dados da S&P Global Market Intelligence citados pela Zaxo, o mercado de data centers movimentou mais de US$ 69 bilhões em operações de M&A em 2025, distribuídas em 113 transações concluídas.
Leonardo Grisotto, sócio da Zaxo, afirma que os ciclos de M&A costumam acompanhar mudanças estruturais da economia. Para ele, a IA coloca a infraestrutura no centro das estratégias de investimento.
Data centers entram no centro das aquisições
Os data centers estão entre os segmentos que mais avançam dentro do mercado de infraestrutura digital. Esses empreendimentos concentram servidores, equipamentos de armazenamento e sistemas necessários para processar e transmitir grandes volumes de dados.
Segundo análise da White & Case, a capacidade global de data centers deve crescer cerca de 15% ao ano nos próximos anos, impulsionada pela computação em nuvem, inteligência artificial e serviços digitais.
No Brasil, o mercado também apresenta expansão. Estudo da Arizton Advisory & Intelligence estima que o setor movimentou aproximadamente US$ 6,7 bilhões em 2025. O país é apontado como principal hub de infraestrutura digital da América Latina, com participação de grandes empresas de computação em nuvem e expansão das aplicações de IA.
Para Grisotto, o movimento representa uma mudança nas teses de investimento. “Durante muitos anos, o valor estava concentrado no software. Agora, o mercado passou a olhar para a infraestrutura que sustenta esse software. Data centers, conectividade, energia e todos os seus adjacentes se tornaram ativos estratégicos”, afirma.
Entre as operações citadas pelos especialistas está a venda da Aligned Data Centers, em 2025, por aproximadamente US$ 40 bilhões. A transação envolveu investidores ligados ao ecossistema global de inteligência artificial.
Outro negócio foi a aquisição da plataforma asiática AirTrunk pela Blackstone e parceiros, por cerca de US$ 16,1 bilhões. Em maio de 2026, a I Squared Capital comprou dez data centers da Cogent nos Estados Unidos por US$ 225 milhões. A gestora também anunciou US$ 1 bilhão para expansão e novas aquisições.
Energia vira fator para novos investimentos em IA
A expansão dos data centers aumenta também a demanda por eletricidade. A Agência Internacional de Energia (IEA) estima que a geração destinada a abastecer esses centros deverá superar 1.000 TWh em 2030, ante aproximadamente 460 TWh em 2024.
Renováveis, gás natural e energia nuclear aparecem entre as principais fontes consideradas para atender ao crescimento da demanda.
Segundo dados da IEA, o consumo de energia dos data centers aumentou 17% em 2025. Os centros voltados especificamente para inteligência artificial apresentaram crescimento ainda maior. Nos Estados Unidos, a Administração de Informação de Energia (EIA) projeta novos recordes de consumo elétrico em 2026 e 2027, com os data centers de inteligência artificial entre os principais vetores desse avanço.
A projeção indica ainda que o consumo comercial de energia deve superar o residencial no país. Para Nesello, a disponibilidade de energia já influencia a localização de novos projetos de infraestrutura digital em diferentes regiões.
No Brasil, a matriz elétrica baseada em fontes renováveis é apontada como um fator de atração de investimentos internacionais. A disponibilidade de recursos energéticos e a posição geográfica também contribuem para o potencial do país na América Latina.
As oportunidades, segundo o executivo, não se limitam às grandes geradoras. Empresas de eficiência energética, geração distribuída, infraestrutura elétrica e soluções para atender data centers também podem ganhar espaço nas operações de M&A.











