Os investimentos ligados à inteligência artificial (IA) estão se espalhando por diferentes setores da economia e, na avaliação de Marina Valentini, estrategista de mercados globais do J.P. Morgan, a tese de investimento deixou de estar concentrada apenas nas big techs.
Em sua análise, feita durante o painel “A Próxima Revolução Industrial: Como Investir na Inteligência Artificial Hoje”, no Avenue Connection 2026, nesta terça-feira (15), explicou que o avanço da IA exige olhar para investimentos em energia, semicondutores, infraestrutura de data centers e empresas que utilizam a tecnologia em seus negócios.
Para Valentini, a adoção da IA generativa ocorreu em ritmo diferente do observado em outras tecnologias. Segundo os dados apresentados, a IA generativa levou cerca de três anos para atingir 75% de adoção, enquanto a internet levou aproximadamente 12 anos e os smartphones, dez anos.
Empresas ainda avançam na adoção da IA
Apesar da expansão entre consumidores, a adoção da IA pelas empresas ocorre em ritmo menor. Dados mostram que cerca de 21% das empresas dos Estados Unidos que reportam o uso de IA já utilizam a tecnologia em alguma função de seus negócios (confira abaixo). A expectativa é de que esse percentual chegue a 40% ou mais até 2030.

A adoção também varia entre os setores. Informática, serviços profissionais, educação e serviços financeiros aparecem entre aqueles com maior utilização da tecnologia. Valentini apontou três fatores que ajudam a explicar a diferença entre consumidores e empresas: pessoas, processos e preço.
No primeiro caso, funcionários ainda precisam aprender a utilizar as ferramentas de IA no ambiente profissional. Nos processos, empresas precisam organizar grandes volumes de dados armazenados em diferentes formatos e adaptar procedimentos internos.
O custo também é um obstáculo. Segundo a apresentação, empresas norte-americanas gastam, em média, US$ 2 mil por trabalhador com investimentos em IA.
Energia vira gargalo para os data centers
Na avaliação do J.P. Morgan, uma das principais frentes de investimento está na energia necessária para sustentar a expansão dos data centers. Segundo Valentini, os data centers já representam cerca de 6% da capacidade de eletricidade dos EUA. A projeção apresentada é de que essa participação chegue a 12% em quatro ou cinco anos.
A expansão abre espaço para investimentos em diferentes fontes de energia, incluindo solar, baterias e gás natural. A geração de eletricidade também deve voltar a crescer após anos de pouca expansão. A estimativa apresentada pela especialista aponta crescimento de cerca de 2% ao ano na geração de energia.

A especialista também citou a China como referência na expansão da capacidade energética. Segundo os dados apresentados no painel, o país adiciona cerca de 540 gigawatts de capacidade em um ano.
Chips e infraestrutura entram no radar
A segunda camada de oportunidades apontada por Valentini envolve os semicondutores, componentes utilizados no processamento de dados.
Além dos chips usados diretamente nos sistemas de IA, a infraestrutura necessária para os data centers inclui componentes elétricos, equipamentos de conexão e outros sistemas responsáveis pelo funcionamento das instalações. Essas áreas formam, segundo a especialista, uma terceira camada de oportunidades.
O grupo seguinte é formado pelas chamadas hiperescaladoras, empresas que investem em grandes data centers para ampliar a capacidade computacional disponível para outras companhias.
Segundo dados da Bloomberg e do J.P. Morgan Asset Management, os cinco principais hiperescaladores (Alphabet, Amazon, Meta, Microsoft e Oracle) devem investir cerca de US$ 800 bilhões em Capex relacionado à IA neste ano. A projeção para os anos seguintes ultrapassaria US$ 1 trilhão por ano.
Investimento em IA se espalha por outros setores
A quinta frente citada pela estrategista envolve os próprios modelos de linguagem, tecnologia que permite a sistemas de IA compreender e produzir textos e outros conteúdos. Entre os exemplos estão empresas privadas como OpenAI e Anthropic, além de companhias abertas que desenvolvem modelos de linguagem.
Na avaliação do J.P. Morgan, porém, a próxima expansão das oportunidades deve ocorrer principalmente nos aplicativos e nas empresas que adotarem IA com maior velocidade.
Vallentini citou os setores financeiro e de saúde como áreas com potencial de utilização da tecnologia. Esse movimento amplia a tese de investimento para além das empresas de tecnologia. A estratégia passa a buscar companhias que consigam incorporar a IA aos seus processos e transformar o uso da tecnologia em ganhos de eficiência.
Mercado de trabalho passa por transformação
A relação entre IA e empregos também foi abordada durante a apresentação. Valentini afirmou que ainda não há uma onda de demissões associada à IA nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, pesquisas citadas no painel mostram aumento da parcela de empresas que mencionam a tecnologia como justificativa para cortes de funcionários.
Ela também destacou o surgimento de novas funções relacionadas à IA, como profissionais responsáveis pela gestão de agentes, engenheiros de IA e maior demanda por profissionais de software.
Um dos exemplos citados foi o setor de radiologia. A expectativa de que a IA reduziria a necessidade de radiologistas não se confirmou até o momento, segundo Valentini. A utilização da tecnologia para analisar exames pode aumentar a necessidade de avaliação humana dos resultados.











