O Banco do Japão (BoJ) elevou nesta sexta-feira (18) a taxa básica de juros em 25 pontos-base, para 1,25% ao ano, maior nível em 31 anos. Na visão da Capital Economics, a decisão, amplamente esperada pelo mercado, consolida a tentativa da instituição de impedir que a inflação de tendência ultrapasse a meta de 2%.
A decisão foi aprovada por sete votos a dois. Toichiro Asada e Ayano Sato votaram contra a elevação e defenderam a manutenção dos juros. No comunicado, o BoJ afirmou que pretende continuar elevando as taxas conforme as condições econômicas, de preços e financeiras.
O presidente do BoJ, Kazuo Ueda, não indicou quando ocorrerá o próximo aumento e disse que os riscos serão reavaliados a cada reunião. A sinalização não exclui uma possível sequência de altas em reuniões consecutivas, e uma eventual alta de 50 pontos-base também permanece aberta, embora Ueda tenha destacado a necessidade de evitar um aperto excessivo das condições financeiras.
Mudanças no conselho podem alterar o ritmo dos juros do Japão
A composição do conselho do BoJ também aparece na avaliação da Capital Economics. Os dois votos pela manutenção dos juros vieram dos dois integrantes indicados pela primeira-ministra Sanae Takaichi. A consultoria interpreta os votos como sinal de uma tentativa de tornar o colegiado mais favorável a uma política monetária menos restritiva.
Ao mesmo tempo, dois integrantes considerados mais favoráveis ao aperto devem deixar o conselho em julho do próximo ano. A Capital entende que essa mudança tende a tornar o colegiado mais brando, embora Ueda tenha minimizado a influência de alterações na composição do grupo sobre as decisões.
Mesmo com a possibilidade de mudança na composição do conselho, a Capital Economics mantém a previsão de que a taxa básica japonesa dobre até meados de 2027 e chegue a 2%. O nível está acima do que o mercado atualmente precifica, segundo a consultoria.
A projeção, porém, não considera que os juros devam superar os 2%. A Capital também aponta riscos de um pico menor, principalmente por causa do corte planejado do imposto sobre vendas em abril. Uma redução desse imposto pode diminuir a inflação e, consequentemente, reduzir a necessidade de novos aumentos de juros.
Mercado de trabalho sustenta novas altas
Outro ponto destacado pela Capital Economics é que o aperto monetário acumulado até agora não parece ter reduzido a pressão sobre a capacidade produtiva do Japão. Desde o início do ciclo, o BoJ acumulou 135 pontos-base em altas. Ainda assim, o país mantém desemprego baixo, escassez de mão de obra e expansão do crédito.
A Capital também cita a força dos preços ao produtor, que medem quanto as empresas estão pagando pelos bens e insumos antes de esses custos chegarem ao consumidor. Na avaliação da consultoria, esse indicador sugere que a inflação de bens do núcleo ainda pode acelerar.
Inteligência artificial entra no radar do BoJ
A leitura do comunicado também chamou atenção pela forma como o banco central tratou os riscos para a atividade econômica. O BoJ afirmou que a economia japonesa deve continuar crescendo de forma moderada, apesar de algumas fragilidades.
Para a Capital Economics, o texto demonstrou menos preocupação com os efeitos de uma alta dos preços de energia sobre a atividade. Em contrapartida, a demanda relacionada à inteligência artificial (IA) ganhou mais espaço na avaliação dos riscos inflacionários.
O impacto direto dos preços de tecnologia sobre a inflação ao consumidor tende a ser limitado, segundo a consultoria. O efeito mais relevante estaria na pressão sobre custos associada ao petróleo e ao iene, a moeda japonesa.
O iene mais fraco encarece, em moeda local, produtos e matérias-primas importados. O petróleo tem efeito semelhante sobre custos de energia e transporte.











