A liderança de Flávio Bolsonaro (PL) contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno das eleições presidenciais mudou a precificação dos ativos brasileiros nesta segunda-feira (5). O dólar abriu em queda superior a 4% e voltou a ser negociado abaixo de R$ 5, enquanto o Ibovespa avança 9,08%, aos 209.500 mil pontos.
O movimento também foi observado no exterior. O EWZ, ETF que acompanha ações brasileiras negociadas em Nova York, registrou forte alta na abertura. Para Alvaro Bandeira, coordenador de Economia da Apimec Brasil, o desempenho do EWZ ajudava a dimensionar a reação esperada para o mercado brasileiro.
Segundo Rafael Passos, sócio da Ajax Asset, o mercado passou a interpretar o resultado — diferente do apontado por diversas pesquisas eleitorais — como aumento da possibilidade de alternância de governo e de uma agenda fiscal diferente da atual. A leitura, por sua vez, reduz o prêmio de risco incorporado aos ativos brasileiros.
Logo após o resultado neste domingo (4), Felipe Balassiano, head de multimercados do ASA, afirmou que a expectativa de maior disciplina fiscal seria o principal vetor para a reação dos ativos. “Esperamos alta forte da bolsa, valorização do real e fechamento dos juros nominais e reais, com o mercado antecipando uma vitória de Flávio. A reação será guiada pela expectativa de maior disciplina fiscal no próximo governo”, afirmou.
Liderança de Flávio Bolsonaro muda expectativa sobre juros e dólar
A reação não ficou restrita ao câmbio. Os juros futuros também recuaram, em um movimento associado à expectativa de menor risco fiscal em um eventual próximo governo.
“A liderança de Flávio por margem de 2,2 milhões de votos reforça a expectativa de vitória no segundo turno e a leitura de menor risco de continuidade de políticas vistas pelo mercado como menos favoráveis à responsabilidade fiscal”, afirmou Passos.
A percepção, contudo, ainda está condicionada à campanha do segundo turno. Novas pesquisas, alianças políticas, transferência de votos dos candidatos eliminados, abstenção e propostas para a economia podem alterar as expectativas dos investidores até a votação de 25 de outubro. Para Passos, também devem ganhar importância eventuais indicações sobre a equipe econômica e os compromissos para 2027.
Para William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, afirmou que a reação desta segunda-feira está ligada, também ao fato de os investidores passarem a considerar os efeitos de uma maior presença de parlamentares identificados com a direita e o centro-direita sobre temas como política fiscal, grau de intervenção do Estado na economia e medidas relacionadas à iniciativa privada.
Para o estrategista, a reação dos ativos brasileiros tende a ser mais intensa no curto prazo, mas a avaliação do mercado deve migrar posteriormente para os desafios concretos da agenda econômica.
BTG vê espaço para alta das ações
O BTG Pactual avalia que o resultado eleitoral pode abrir espaço para uma reprecificação das ações brasileiras, caso o cenário projetado pelo banco para o segundo turno se confirme.
Em relatório, os analistas Carlos Sequeira, Osni Carfi e Bruno Ferreira afirmam que as ações brasileiras negociavam, antes da reação desta segunda-feira, a cerca de 10 vezes o preço/lucro projetado para os 12 meses seguintes, excluindo Petrobras e Vale.
Segundo o BTG, esse nível estava cerca de um desvio-padrão abaixo da média histórica de dez anos. O banco estima que uma eventual vitória de Flávio no segundo turno poderia levar as ações de volta à média histórica, o que representaria potencial de alta de 11% a 20% em reais em relação aos níveis considerados no relatório.
Em um cenário de avanço do Ibovespa para um desvio-padrão acima da média histórica, o BTG calcula potencial de alta de 32% a 45%. O banco, no entanto, reforça que essas projeções são cenários de mercado elaborados pela equipe e não representam uma previsão sobre o resultado eleitoral.
Quais setores podem reagir mais
O BTG também aponta que alguns segmentos poderiam apresentar maior sensibilidade à redução do prêmio de risco doméstico. Entre os grupos citados estão varejo, incorporadoras de médio e alto padrão, empresas ligadas ao mercado de capitais e companhias mais alavancadas.
O relatório também destaca empresas com posições vendidas relevantes. Uma posição vendida, ou short, ocorre quando o investidor aposta na queda de um ativo. Caso a cotação suba, esses investidores podem precisar recomprar os papéis para encerrar as posições, aumentando a demanda pelas ações.
Entre as empresas mencionadas pelo BTG estão Lojas Renner (LREN3), C&A (CEAB3), Assaí (ASAI3), Cyrela (CYRE3), B3 (B3SA3), XP, Localiza (RENT3), Motiva (MOTV3), Rede D’Or (RDOR3), Equatorial (EQTL3), Energisa (ENGI11), Auren (AURE3), Sabesp (SBSP3) e Allos (ALOS3).
O banco também cita, entre as ações com maior sensibilidade ao movimento do mercado, Movida, Vamos, Cosan, Dexco e Bradesco.










