O câmbio euro/dólar recuou para US$ 1,12 nesta segunda-feira (5), menor patamar em 17 meses, pressionado por preocupações com a dívida pública da França e por expectativas de juros mais altos nos Estados Unidos, segundo a DW Economia. A moeda europeia acumula queda de cerca de 5% desde o início de 2026.
A desvalorização reflete uma reavaliação das apostas dos investidores em relação ao Federal Reserve, diante da alta dos rendimentos dos títulos globais, mas foi intensificada pelo risco fiscal francês.
Os juros dos títulos públicos da França com vencimento em 10 anos chegaram a 5% na semana passada, antes de recuar levemente. Desde que Emmanuel Macron assumiu a presidência, em maio de 2017, a dívida nacional francesa subiu mais de 1 trilhão de euros (US$ 1,12 trilhão) e a relação dívida/PIB está em quase 118%. O déficit orçamentário anual supera regularmente 5%, acima dos 3,4% registrados no início do mandato.
França eleva juro de 10 anos e amplia risco fiscal na zona do euro
O nervosismo com a trajetória fiscal francesa fez a diferença entre os rendimentos dos títulos de 10 anos da França e da Alemanha atingir o maior nível desde a crise da dívida da zona do euro, na semana passada. O movimento levou investidores a buscar refúgio na dívida alemã e provocou pedidos para que o Banco Central Europeu (BCE) atue para evitar que o receio com a França se transforme em pânico.
Jim Reid, do Deutsche Bank, afirmou em nota que, em certo momento da semana passada, o spread entre títulos alemães e franceses ficou tão amplo que um “mini-pânico” esteve perto de se instalar. “A grande questão é se este é o início de uma nova crise soberana do euro ou se os mercados já exageraram”, escreveu.
BCE é chamado a agir, mas postura dura pode piorar a crise
Na visão de Ricardo Amaro, economista-chefe para a zona do euro da Oxford Economics, o BCE enfrenta um dilema: precisa agir sem agravar a situação. “Sinalizar uma postura mais dura também aumentaria a pressão sobre os rendimentos dos títulos da França, que se tornaram um importante vetor de fraqueza do euro”, disse.
Ele espera que os formuladores de política monetária sigam monitorando o câmbio, mas que, por ora, evitem tentar influenciar o mercado.
A incerteza é ampliada pelo ambiente político. A França aprovou o orçamento de 2027 com reformas para reduzir o déficit, mas o partido de direita Reunião Nacional, de Marine Le Pen, segue bem posicionado para a eleição presidencial de 2027.
O temor de uma vitória de Le Pen tem afastado investidores, da mesma forma que o avanço do partido populista AfD na Alemanha levanta dúvidas sobre o futuro da maior economia do bloco. Na Espanha, o primeiro-ministro Pedro Sánchez convocou eleições antecipadas após medidas para lidar com a crise habitacional serem rejeitadas no parlamento.
Euro fraco tende a encarecer energia e importados, reforçando inflação
Um euro mais fraco tende a elevar o custo de bens importados, sobretudo aqueles cotados em dólar. Commodities globais, como petróleo e gás, são precificadas em dólar, o que significa que a energia já em alta pode ficar ainda mais cara. “Uma fraqueza mais acentuada do euro reforçaria o choque inflacionário num momento em que a inflação já deve permanecer alta até 2027”, afirmou Amaro.
Alguns analistas, como Geoffrey Yu, estrategista sênior do BNY, consideram exageradas e “completamente fora da realidade” as comparações com a crise de 2012. Ainda assim, Amaro alerta que novas altas de juros esperadas pelo BCE neste ano, combinadas com a piora do cenário inflacionário, tornam a situação algo a ser gerenciado com muito cuidado. “A fraqueza do euro não deve ser interpretada como um movimento isolado”, afirmou.










