O Brasil registrou 134 casos de violência política durante os 50 dias de campanha do primeiro turno das eleições de 2026, o equivalente a uma ocorrência a cada nove horas. As mulheres foram vítimas em 70 episódios, o correspondente a 52,2% do total, segundo levantamento das organizações de direitos humanos Terra de Direitos e Justiça Global.
Os dados fazem parte da quarta edição da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil, divulgada pela Agência Brasil, que monitorou casos entre 16 de agosto e 4 de outubro, data do primeiro turno. O levantamento foi publicado após a deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG) denunciar ameaças de morte e de violência sexual nesta quinta-feira (8).
O número de ocorrências supera os 121 casos registrados durante o primeiro turno de 2022. Segundo as organizações, a violência política foi cinco vezes mais frequente durante a campanha de 2026 do que no período sem disputa eleitoral.
Na comparação por estados, São Paulo teve o maior número de ocorrências, com 16 casos. Na sequência aparecem Rio Grande do Norte, com 13; Minas Gerais, com 12; e Rio Grande do Sul, com dez.
Mulheres concentram ameaças e ofensas
A diferença entre homens e mulheres aparece principalmente nos episódios de violência simbólica, que incluem ameaças e ofensas. Dos 97 casos dessa categoria, 60 tiveram mulheres como vítimas, o equivalente a 61,9%.
Entre os 102 episódios direcionados a pessoas candidatas, 60 tiveram mulheres como alvo, ou 58,8%. Embora representem cerca de um terço das candidaturas, elas responderam por mais da metade dos casos de violência contra candidatos.
As ameaças foram o tipo de ocorrência mais frequente, com 64 registros. Em seguida, aparecem 33 episódios de ofensa e 19 de agressão física. O levantamento também identificou 11 atentados, cinco casos de criminalização e dois assassinatos.
As sete ameaças de violência sexual registradas tiveram mulheres como vítimas. Já os dois assassinatos e dez dos 11 atentados atingiram homens.
Entre os 70 episódios contra mulheres, a pesquisa identificou machismo ou misoginia em 45 casos, racismo em nove e transfobia em cinco. Uma mesma ocorrência pode apresentar mais de um marcador discriminatório.
Violência ocorre nas ruas e nas redes sociais
A maior parte das ocorrências foi registrada nas ruas. Ao todo, 71 episódios aconteceram durante atividades de campanha ou em eventos públicos. O ambiente digital também aparece no levantamento: 31,3% dos casos ocorreram nas redes sociais ou em outros espaços virtuais.
Para Gisele Barbieri, coordenadora de Incidência Política da Terra de Direitos, a violência de gênero busca desqualificar e intimidar mulheres que participam da disputa política.
A pesquisadora também aponta a falta de regulação das plataformas digitais como um obstáculo ao enfrentamento das agressões. Em entrevista à Agência Brasil, ela defendeu uma resposta mais rápida do poder público. “É necessário uma força-tarefa do Estado para dar respostas mais rápidas contra essas violências”, afirmou.
Pessoas negras representam 44,8% das vítimas
A dimensão racial também aparece nos dados. Pessoas negras, pretas e pardas, representaram 44,8% das vítimas de violência política no primeiro turno, totalizando 60 pessoas. Entre as 70 mulheres vítimas, 19 eram mulheres pretas, mais de uma em cada quatro.
Glaucia Marinho, coordenadora da Justiça Global, afirmou que mulheres, pessoas negras e pessoas trans enfrentam formas adicionais de violência relacionadas a discriminações de gênero, raça e identidade de gênero. Segundo ela, a combinação dessas formas de discriminação amplia as barreiras à participação política e ao acesso a cargos públicos.
O levantamento identificou agentes públicos como autores em 26 episódios, equivalentes a 19,4% do total. Entre eles, 14 eram parlamentares ou governantes e sete eram agentes de segurança.
Até o encerramento da coleta de dados, nenhum dos 134 casos havia resultado em punição efetiva, segundo as organizações responsáveis pela pesquisa. Em pelo menos oito episódios, houve medidas de urgência, como remoção de vídeos, suspensão de perfis e concessão de medidas protetivas.










