A produção brasileira de algodão ganhou espaço no mercado mundial na safra 2025/26, em um momento de desafios na oferta de outros grandes produtores. Mesmo com uma redução de 6,3% na área plantada no país, o avanço da produtividade deve sustentar uma produção maior, reforçando a posição do Brasil entre os principais fornecedores globais da commodity, segundo o diagnóstico realizado durante a Etapa Algodão do Rally da Safra.
O movimento é liderado por Mato Grosso e Bahia. Na temporada 2025/26, Mato Grosso aparece como o terceiro maior produtor mundial de algodão, à frente dos Estados Unidos. Já a Bahia voltou a superar a Austrália em volume produzido, repetindo o feito registrado em 2019/20, quando o país australiano enfrentou a maior quebra de safra de sua história.
Heloisa Melo, sócia-diretora da Agroconsult e coordenadora da Etapa Algodão do Rally da Safra, explica que “o avanço da oferta brasileira ocorre em um mercado mundial que enfrenta desafios significativos na oferta de outros países. Para o produtor, ganhos de produtividade e qualidade permanecem fundamentais para ampliar a competitividade internacional e capturar oportunidades em um mercado bastante disputado”.
As estimativas, contudo, ainda não são definitivas. Com a consolidação dos dados de beneficiamento, os números de produção e de rendimento de pluma da safra 2025/26 ainda podem ser revisados.
Menor área não impede recorde da produção de algodão
A produção brasileira de algodão em pluma é estimada em 4,41 milhões de toneladas na safra 2025/26 e esse volume ainda pode aumentar entre 90 mil e 100 mil toneladas, dependendo do rendimento obtido durante o beneficiamento. Até 3 de setembro, apenas 35% da pluma haviam passado por essa etapa.
Levantamento da Agroconsult, responsável pela expedição técnica do Rally da Safra, estima uma área plantada de aproximadamente 2,07 milhões de hectares na safra 2025/26, número que representa uma redução de 6,3% em relação à temporada 2024/25.
A retração está concentrada principalmente em Mato Grosso, onde o espaço destinado ao algodão diminuiu 9,4%. Apesar da menor área, as condições climáticas observadas durante o ciclo favoreceram o desenvolvimento das lavouras em grande parte do país. O resultado foi um ganho de produtividade, com registros considerados recordes.
“Estamos diante de uma safra em que a redução da área não significa uma queda na produção. Observamos em campo um ganho importante de produtividade, resultado da combinação entre clima, tecnologia e manejo. Ao mesmo tempo, ainda temos dois terços da safra a ser beneficiada, o que exige cautela na consolidação dos números de produção e rendimento de pluma”, afirma Heloisa Melo.
Mato Grosso terá safra recorde, apesar da redução na área cultivada
No Mato Grosso, principal estado produtor brasileiro, a área cultivada caiu 9,4%, para aproximadamente 1,42 milhão de hectares. A redução esteve relacionada principalmente a uma decisão econômica dos produtores.
Diante dos preços do algodão, o milho passou a apresentar maior atratividade e liquidez como alternativa para a segunda safra. O movimento foi observado em diferentes regiões do estado e ocorreu de maneira mais intensa no Vale do Araguaia e no Médio-Norte.
Mesmo com a redução da área, a produtividade deve atingir 337 arrobas de algodão em caroço por hectare. O resultado supera o registrado na temporada anterior e, de acordo com a Agroconsult, estabelece um novo recorde estadual. A produção de algodão em pluma de Mato Grosso é estimada em aproximadamente 3 milhões de toneladas.
O desempenho das lavouras está associado principalmente ao comportamento do clima. Embora o plantio tenha começado mais tarde, houve aceleração na segunda quinzena de janeiro. Na sequência, as chuvas registradas em abril, maio e junho contribuíram para o desenvolvimento das lavouras em grande parte do estado.
Bahia aumenta área irrigada e prevê recorde de produtividade
Na Bahia, o mapeamento por satélite identificou aproximadamente 425,7 mil hectares cultivados com algodão na safra 2025/26, alta de 0,2% sobre a temporada anterior.
Mais do que a variação da área total, porém, houve uma mudança na composição das lavouras. O cultivo em áreas de sequeiro recuou 7%, enquanto a área irrigada avançou 12%. Com esse movimento, a irrigação passou a representar 44% da área plantada no estado, ante 39% na safra anterior.
A produção baiana de algodão em pluma está estimada em aproximadamente 982 mil toneladas, crescimento de 23,2% em relação à temporada passada. A produtividade do algodão em caroço deve chegar a 368 arrobas por hectare, segundo a Agroconsult, resultado que representa um recorde para o estado.
As condições climáticas tiveram papel central nesse desempenho. As áreas de sequeiro, plantadas até dezembro, apresentaram produtividade superior à das áreas irrigadas, cujo plantio ocorreu entre janeiro e fevereiro.
De maneira geral, as lavouras da Bahia apresentaram desempenho acima das expectativas iniciais tanto em produtividade quanto em qualidade. O resultado contribuiu para ampliar a oferta estadual e ajudou a sustentar a posição da Bahia no mercado internacional.
Chuvas tardias entram no radar do mercado
Apesar dos resultados positivos, a safra ainda apresenta pontos que precisam ser acompanhados. Com apenas 35% da pluma beneficiada até a primeira semana de setembro, os números definitivos de rendimento ainda estão em formação. Isso significa que a estimativa de produção pode sofrer ajustes à medida que o restante da fibra for processado.
O prolongamento das chuvas também exige atenção em algumas regiões. Em áreas pontuais, o excesso de precipitações no fim do ciclo afetou a qualidade visual da fibra, reduzindo características como brilho e brancura.
A umidade prolongada também aumentou o tempo necessário para a dessecação das plantas. Como consequência, houve maior quantidade de impurezas durante o beneficiamento.
Caruru amplia desafio tecnológico para o algodão
Outro ponto identificado pelas equipes de campo do Rally da Safra foi o avanço do caruru, considerado um dos desafios tecnológicos da safra, especialmente no oeste de Mato Grosso.
A questão pode ganhar relevância nas próximas temporadas, inclusive porque já existem registros pontuais da planta daninha em outras regiões produtoras, como a Bahia.
Para a safra 2026/27, a expectativa é de maior utilização de tecnologias e variedades capazes de ampliar as alternativas de controle de plantas daninhas resistentes. O manejo da sucessão de culturas também deverá receber maior atenção, especialmente nas áreas em que o algodão é sucedido pelo cultivo da soja.











