Por José Tadeu Bijos*
Desde o lançamento do Pix Automático, tornou-se comum tratar sua expansão como o começo do fim do débito automático. É uma conclusão compreensível. O Pix mudou rapidamente a forma como os brasileiros transferem dinheiro e realizam pagamentos e agora avança sobre um dos últimos grandes territórios ainda associados às estruturas bancárias tradicionais: as cobranças recorrentes.
A transformação em curso, porém, é mais complexa do que uma simples substituição. O débito automático continuará existindo. A própria regulamentação preserva sua utilização em determinadas situações e estabelece condições diferentes de acordo com a relação entre a instituição que mantém a conta do pagador e aquela que recebe os recursos. As empresas, portanto, caminham para um ambiente em que Pix Automático, débito automático e outras modalidades conviverão dentro das mesmas operações por um período relevante.
Essa coexistência muda completamente o desafio para quem administra milhões de cobranças. Quando uma tecnologia substitui outra de forma direta, existe um processo relativamente claro de migração. Quando diferentes tecnologias passam a operar simultaneamente, a empresa precisa definir quais clientes permanecem em cada modalidade, acompanhar fluxos distintos e garantir que todos eles sejam consolidados em uma visão financeira única e compreensível.
Há ainda uma particularidade importante no Pix Automático: a autorização depende do consentimento do consumidor. No débito automático, muitas empresas construíram ao longo dos anos modelos de arrecadação baseados em autorizações já estabelecidas dentro da relação bancária. No Pix Automático, o consentimento precisa ser concedido previamente pelo próprio cliente no ambiente da sua instituição financeira. A empresa recebedora apresenta a cobrança e estimula a adesão, mas não controla a etapa decisiva de autorização.
Essa diferença é relevante também do ponto de vista da relação com o consumidor. O consentimento pode ser concedido, alterado ou cancelado, e o cliente passa a ter maior controle sobre parâmetros relacionados à cobrança. Para a empresa, isso significa administrar continuamente o status dessas autorizações e seus impactos sobre o recebimento. A organização pode comunicar os benefícios da modalidade e estruturar campanhas de migração, mas o avanço da base dependerá também da capacidade de mobilizar seus clientes e acompanhá-los ao longo desse processo.
Negócios digitais, que mantêm contato frequente com seus consumidores por aplicativos ou canais próprios, encontram condições mais favoráveis para conduzir essa transição. Já companhias com bases amplas, heterogêneas ou menos digitalizadas enfrentam uma migração naturalmente mais gradual. Também não existe uma velocidade única para essa mudança.
Além das diferenças entre setores, pesa a própria estrutura bancária de cada organização. A composição da base de clientes, os bancos envolvidos na operação, os modelos de arrecadação existentes e as características de cada negócio fazem com que empresas do mesmo segmento atravessem essa transformação de maneiras bastante diferentes.
Outro ponto importante está na operação cotidiana da cobrança. Durante anos, o débito automático funcionou dentro de uma lógica relativamente conhecida pelas áreas financeiras. O Pix Automático exige do recebedor um acompanhamento mais ativo do estado de cada cobrança.
O consentimento pode ser criado, alterado ou cancelado. Uma cobrança pode não ser liquidada na data prevista. Uma nova tentativa pode ser necessária. Em determinadas situações, um pagamento já realizado também pode ser posteriormente devolvido.
Esse conjunto de possibilidades exige uma gestão mais sofisticada. A empresa passa a lidar simultaneamente com diferentes meios de pagamento, regras operacionais próprias, comportamentos distintos e exceções que precisam ser tratadas sem comprometer o fluxo de recebimentos. Essa realidade também muda a forma como os meios de cobrança devem ser avaliados.
Durante muito tempo, o custo por transação esteve entre os principais indicadores dessa decisão. Ele permanece relevante, mas já não é suficiente. Taxa de sucesso, previsibilidade de recebimento, abandono no processo de adesão, custo de recuperação de cobranças não realizadas, inadimplência e impacto sobre o capital de giro passam a fazer parte da mesma análise. E a melhor resposta dificilmente será a mesma para todos os clientes.
É justamente nesse ponto que está a próxima evolução desse mercado. Em vez de ampliar continuamente a lista de alternativas disponíveis, as empresas precisarão desenvolver capacidade para identificar qual combinação de meios e estratégias oferece o melhor resultado para cada perfil de cobrança.
Para o consumidor, a experiência deve permanecer simples. Nos bastidores, a operação se tornará mais complexa, com múltiplos meios, regras, autorizações, tentativas de cobrança e possibilidades de tratamento.
O futuro da cobrança recorrente será definido pela capacidade das empresas de administrar Pix Automático, débito automático e demais meios de pagamento de forma integrada, inteligente e orientada ao resultado financeiro. No fim, a métrica continua sendo a mesma: transformar uma cobrança prevista em dinheiro efetivamente recebido.
*Por José Tadeu Bijos é CEO e presidente da Multipagamentos











