O novo Desenrola Brasil, programa de renegociação de dívidas das famílias, surge em um momento de espaço reduzido para cortes adicionais na taxa básica de juros (Selic) e pode gerar efeitos relevantes sobre a economia. A iniciativa tende a estimular a atividade, ao mesmo tempo em que pode dificultar o trabalho do Banco Central no controle da inflação.
Programas desse tipo ampliam a demanda na economia, por meio do aumento do consumo e da circulação de recursos, reduzindo a eficácia da política monetária. Esse mecanismo é o principal instrumento do Banco Central para levar a inflação à meta de 3%.
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O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirma que não há impacto inflacionário e que a medida responde a um cenário específico de endividamento elevado e juros altos, agravado desde a pandemia e pela frustração na trajetória de queda das taxas nos últimos anos.
A justificativa é que o programa não injeta novos recursos na economia. De acordo com o governo, trata-se de reorganização de passivos, isto é, uma troca de dívidas existentes, sem aumento do crédito líquido.
Cristiane Quartaroli Economista-chefe do Ouribank, observa que neste momento seria precoce calcular o impacto na inflação, uma vez que ainda são desconhecidos os números exatos da quantidade de pessoas beneficiadas pelo Desenrola, de forma que o mercado passe a trabalhar com cenários possíveis.
Em um desses cenários, considerando que as famílias endividadas passarão a renegociar as suas dívidas, inclusive usando o FGTS, o programa pode estimular um volume grande de consumo que estava represado devido à perda do acesso ao crédito.
“Se isso acontecer de forma rápida e em grande escala, quando muita gente passa a comprar ao mesmo tempo, sem que a oferta dos produtos e serviços consiga acompanhar, os preços tendem a subir e isso gera inflação”, explica a especialista.
Impacto direto do Desenrola sobre a inflação ainda é incerto
Na leitura de Quartaroli, ainda que o governo defenda que o programa não deva gerar efeito inflacionário, bancos, economistas e investidores têm certa cautela, considerando que o Brasil já enfrenta uma inflação acima da meta, além da situação fiscal delicada e uma falta de coordenação entre as políticas do governo, que acabam estimulando a economia, como é o caso do Desenrola.
Outro agravante é que o governo ainda não apresentou um número concreto de quantas pessoas serão beneficiadas, mencionando que são dezenas de milhões. Essa falta de número concreto, observa a especialista, acaba dificultando qualquer estimativa de um impacto real e o mercado considera que quanto mais gente aderir ao mesmo tempo, maior deve ser o potencial de pressão sobre os preços.
Há três possíveis cenários para o impacto do desenrola na inflação:
- Cenário neutro: com baixa adesão e uso do FGTS exclusivo para quitar as dívidas, sem sobrar dinheiro para consumo. Nesse cenário a inflação ficaria estável e a projeção seria mantida em 4,9%.
- Cenário provável: uma parcela entre 10 a 20 milhões de pessoas aderem ao programa, de modo que as parcelas das dívidas reduzam de forma drástica e num primeiro momento essas famílias teriam renda liberada para o consumo básico em poucos meses, o que pressionaria o IPCA de forma moderada, em torno de 5,1%. Ainda assim, o BC teria espaço para continuar reduzindo os juros até o final do ano, chegando numa taxa próxima de 12,5%, 13% ao ano.
- Cenário menos provável: a adesão seria mais completa, de forma que o consumo represado acabaria “explodindo”, resultando em projeções de IPCA acima de 5,5%, o que dificultaria o trabalho do BC em baixar os juros, ficando sem espaço para manter o ciclo de queda.
“A pergunta que o mercado ainda não consegue responder com segurança é se esse estímulo será grande o suficiente para alimentar a inflação ou se a economia vai absorver sem maiores consequências; tudo vai depender de quantas pessoas vão aderir ao programa”, explica a economista.
Cenário externo pesa mais que o Desenrola no controle da inflação
Considerando o potencial do novo programa do governo de estimular a atividade, Ricardo Martins, economista-chefe da Planner, ressalta o peso do cenário externo sobre as decisões do Banco Central (BC).
“Nada como uma guerra no coração da produção de petróleo para desnortear todas as políticas monetárias do mundo. O conflito no Oriente Médio vem contaminando as cadeias produtivas e adjacências; que não há política monetária que resolva”, afirma.
Segundo o economista, “as idas e vindas nas negociações para um cessar-fogo devem manter o barril do petróleo acima de US$ 100 e isso levará a inflação, não só no Brasil, mas globalmente, a níveis preocupantes se observarmos os níveis das taxas de juros atuais e a possibilidade de recessão. Logo, não é questão de mais juros, mas sim acabar com o conflito”.
No contexto doméstico, Martins avalia que o BC não perdeu controle da inflação e que os efeitos de sua estratégia contracionista já traziam uma nítida percepção na atividade econômica e o caminho ao centro da meta.
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Iniciativa tem impacto direto no sistema financeiro
Na avaliação do Bank of America (BofA), o Desenrola 2.0 deve gerar alívio imediato para os bancos brasileiros, embora não resolva problemas estruturais do crédito.
O programa pode viabilizar a renegociação de R$ 100 bilhões a R$ 150 bilhões em dívidas inadimplentes, o equivalente a cerca de 40% do crédito vencido entre consumidores e pequenas empresas. Com isso, a expectativa é de melhora nos indicadores de inadimplência e redução nas provisões (reservas feitas pelos bancos para cobrir perdas) especialmente ao longo de 2026.
De acordo com o banco, instituições mais expostas à população de menor renda tendem a se beneficiar mais no curto prazo. Nubank, PicPay e Bradesco aparecem como os principais destaques, com potencial redução da inadimplência e melhora nos resultados contábeis.
Sob outra perspectiva, o BofA avalia que a menos que ocorra uma queda estrutural das taxas de juros, o mercado de crédito brasileiro deve continuar enfrentando desafios recorrentes, mesmo sendo sustentado por iniciativas patrocinadas pelo governo.
Na visão do J.P. Morgan, embora o programa não resolva estruturalmente o endividamento e possa até incentivar inadimplência no futuro, a iniciativa é considerada levemente positiva. Isso porque permite aos bancos recuperar parte dos créditos, elevar receitas contábeis e reduzir preocupações com o ciclo de crédito.
Limitações e riscos do Desenrola no longo prazo
Apesar dos efeitos positivos iniciais, a avaliação do BofA é de que o impacto do Desenrola 2.0 tende a ser temporário. O J.P. Morgan destaca que a experiência anterior do programa mostrou melhora pontual na inadimplência, seguida por uma rápida deterioração após o fim do programa.
Para a instituição, o problema do crédito no Brasil não está apenas no volume de dívidas vencidas, mas na baixa capacidade de pagamento das famílias. Esse cenário é pressionado por juros elevados e pela predominância de linhas de crédito de curto prazo e alto custo, como cartão de crédito e empréstimos sem garantia.
Martins, da Planner, avalia que o Desenrola 2.0 traz uma questão positiva, que é a troca de dívida por recursos do FGTS, e não uma renegociação. “Sendo assim, o consumidor endividado vai pensar melhor, pois está pagando dívida, mas, ao mesmo tempo, abrindo mão de poupança”.
Por outro lado, o economista avalia que “o programa seria melhor ainda se houvesse uma profunda campanha de educação financeira. Os efeitos são uma recuperação no consumo, de até 0,3% do PIB, associada, por enquanto, a uma massa de rendimentos e renda em níveis importantes, considerando-se a lenta perda de dinamismo do emprego”, conclui.
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Efeito potencial sobre o PIB
Antes do anúncio oficial, o J.P. Morgan alertou que medidas de alívio de dívidas poderiam adicionar até 0,6 ponto percentual ao Produto Interno Bruto (PIB), dependendo do desenho e da implementação.
Segundo economistas da instituição, programas desse tipo, especialmente quando combinados com outras políticas voltadas à sustentação da demanda, tendem a gerar impacto relevante na atividade econômica.











