O GPA (PCAR3), controlador da rede Pão de Açúcar, encerrou o primeiro trimestre com prejuízo líquido de R$ 1,44 bilhão, em um balanço marcado por perdas contábeis bilionárias, pressão financeira e avanço do processo de recuperação extrajudicial.
O resultado representa uma deterioração de 751% em relação ao prejuízo de R$ 169 milhões registrado no mesmo período do ano passado e amplia a atenção do mercado sobre a capacidade da varejista de reorganizar sua estrutura financeira nos próximos meses.
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Segundo o GPA, o prejuízo do trimestre foi fortemente impactado por efeitos não recorrentes e sem impacto no caixa, que totalizaram R$ 1,01 bilhão.
O CEO Alexandre Santoro declarou que a rede terá uma melhora considerável em termos de alongamento de dívida e vencimento de curto prazo com o plano de recuperação, e capacidade de foco no operacional após essa fase.
Às 11h30 (horário de Brasília) as ações do GPA (PCAR3) registravam queda de 1,3%, cotadas a R$ 2,27.
Efeitos que pressionaram para o prejuízo do GPA
Entre os principais ajustes contabilizados o GPA reportou uma baixa de software de R$ 348 milhões, ligada à obsolescência de sistemas e iniciativas de eficiência operacional, além de baixa de fundo de comércio e outros ativos no valor de R$ 51 milhões.
A companhia também reconheceu impairment (termo usado para indicar perda no valor recuperável de ativos) de R$ 27 milhões em lojas, valor registrado na linha de outras receitas e despesas operacionais.
Outro impacto relevante veio da baixa de créditos no exterior para compensação tributária futura, no montante de R$ 588 milhões, efeito que pressionou diretamente a linha de imposto de renda e contribuição social sobre o lucro líquido no trimestre.
Excluindo esses efeitos, o prejuízo líquido das operações continuadas ajustado do GPA teria sido de R$ 333 milhões.
No primeiro trimestre de 2025, o GPA havia registrado prejuízo líquido de R$ 93 milhões nas operações continuadas. Na ocasião, o resultado foi favorecido por efeitos positivos não recorrentes de R$ 196 milhões, ligados à reversão de provisões sobre contribuição social de 2022 e reconhecimento de prejuízos fiscais de exercícios anteriores.
Receita do GPA cai e operação muda estratégia
Entre janeiro e março, a receita líquida da varejista somou R$ 4,37 bilhões, queda de 8,2% na comparação anual. As vendas totais atingiram R$ 4,8 bilhões, retração de 5,2% em relação ao mesmo período de 2025.
Em comunicado que acompanha o balanço, a companhia explica que “parte dessa redução está relacionada à execução da estratégia de priorização de canais com maior rentabilidade, com destaque para a descontinuidade do formato Aliados, modelo de venda direta para pequenos comércios, e impactos de portfólio de lojas no período”.
Apesar da queda no faturamento, o custo das mercadorias vendidas recuou 12% em um ano, para R$ 3,02 bilhões. Com isso, o lucro bruto cresceu 1,3%, chegando a R$ 1,33 bilhão.
As despesas com vendas, gerais e administrativas ficaram em R$ 917 milhões, equivalente a um recuo de 3,5% na comparação anual.
Já o resultado financeiro líquido ficou negativo em R$ 381 milhões, que representa uma piora de 19,8% em um ano, refletindo maior peso das despesas financeiras.
O Ebitda — indicador usado pelo mercado para medir geração operacional de caixa antes de juros, impostos, depreciação e amortização — alcançou R$ 458 milhões no trimestre, avanço de 12% frente ao mesmo período do ano passado.
Dívida e contingências seguem no radar
Ao final de março, a dívida líquida do GPA, incluindo recebíveis de cartão de crédito não antecipados, estava em R$ 3,2 bilhões. A alavancagem financeira pré-IFRS 16 — indicador que mede a relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado consolidado dos últimos 12 meses — atingiu 3,5 vezes, acima das 2,8 vezes observadas um ano antes.
Antes das negociações com credores, em março, esse nível já pressionava os limites estabelecidos em cláusulas restritivas financeiras negociadas com bancos, conhecidas como covenants. Segundo as notas explicativas da companhia, esses limites variavam entre 3,25 vezes e 3,75 vezes. Caso sejam ultrapassados, a empresa pode precisar renegociar contratos de dívida.
Outro ponto monitorado pelo mercado envolve as contingências fiscais e trabalhistas da rede, estimadas em R$ 17 bilhões e que permanecem fora da recuperação extrajudicial.
Questionada sobre o tema, a diretoria financeira afirmou que não há novas atualizações, mas indicou que essa frente deve ganhar atenção da companhia daqui para frente.
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Recuperação extrajudicial domina atenção do mercado
A divulgação dos resultados foi adiada do dia 6 para o dia 14 de maio, no limite do prazo regulatório para apresentação ao mercado, após uma petição de investidores na Justiça de São Paulo, dentro da recuperação extrajudicial.
Segundo os investidores, a falta das informações até a quinta-feira (14) comprometia a capacidade de análise das condições do plano apresentado pela varejista.
Dias antes da divulgação do balanço, bancos credores já haviam aprovado as condições da recuperação extrajudicial. Os demais credores deverão ser incluídos automaticamente no processo.
Em teleconferência com analistas nesta sexta-feira, a companhia afirmou que o ambiente de consumo segue desafiador, mas avaliou que a recuperação extrajudicial será decisiva para restaurar sua capacidade financeira.











