A Engie Brasil (ENGIE3) projeta investir mais de R$ 6 bilhões em projetos de transmissão de energia até 2030, reforçando uma área que se consolidou como peça-chave para a integração de novas fontes renováveis ao sistema elétrico nacional.
Em entrevista ao Monitor do Mercado, a companhia informou que os recursos serão direcionados a três projetos: Asa Branca, Graúna e Colibri, que somam milhares de quilômetros de linhas de transmissão. Desde 2018, a companhia já destinou cerca de R$ 8 bilhões ao segmento, ampliando sua presença em um mercado marcado por contratos de longo prazo e receitas reguladas.
A companhia afirma que “os novos investimentos buscam ampliar a segurança, a confiabilidade e a capacidade de escoamento de energia do Sistema Interligado Nacional (SIN). A estratégia acompanha o avanço da geração eólica e solar e a necessidade de transportar essa energia dos polos produtores até os principais centros consumidores do país.”
Nos últimos quatro anos, a Engie concluiu três sistemas de transmissão e mantém outros dois parcialmente operacionais. Ao todo, possui cerca de 3,2 mil quilômetros de linhas de transmissão e nove subestações.
Nunca foi tão fácil ficar atualizado sobre finanças, economia e investimentos. Assine gratuitamente
Entre os principais ativos em operação estão o sistema Gralha Azul, no Paraná; Novo Estado, entre Pará e Tocantins; o primeiro trecho do Asa Branca, na Bahia; e a parcela brownfield do Graúna, no Espírito Santo.
Investimentos de quase R$ 3 bilhões em projetos
O projeto Asa Branca prevê investimentos estimados em R$ 2,7 bilhões e contempla a construção de aproximadamente 1.000 quilômetros de linhas de transmissão em 500 kV nos estados da Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo. A entrada em operação completa está prevista para 2029 e o contrato de concessão possui duração de 30 anos.
Parte do empreendimento já está em funcionamento. O primeiro trecho do projeto, com 334 quilômetros de extensão na Bahia, entrou em operação comercial em 26 de novembro de 2025.
O projeto Graúna envolve investimentos estimados em R$ 2,9 bilhões e abrange obras em Minas Gerais, São Paulo, Espírito Santo, Paraná e Santa Catarina. O empreendimento contempla cerca de 162 quilômetros de trecho brownfield, modalidade que utiliza infraestrutura existente, além de aproximadamente 732 quilômetros de novas linhas em trecho greenfield.
O projeto inclui ainda a construção de duas novas subestações, cinco ampliações e uma adequação em instalações existentes. A operação parcial começou em 2025 e a conclusão está prevista para 2029. Assim como Asa Branca, o contrato de concessão tem prazo de 30 anos.
Presença da Engie no Sul e Nordeste
O projeto Colibri foi incorporado ao portfólio da Engie após o Leilão de Transmissão ANEEL 01/2026, realizado em março. A companhia conquistou o Lote 2 e os sublotes 3A, 3B, 3C e 3D, ampliando sua atuação nos estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Norte e Ceará.
Segundo Labanca, os ativos reforçam a estratégia de expansão da companhia em um segmento considerado essencial para a segurança do sistema elétrico brasileiro e para a integração das fontes renováveis de geração.
Os empreendimentos representam investimentos estimados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) em aproximadamente R$ 1,6 bilhão, com Receita Anual Permitida (RAP) de R$ 122,8 milhões e potencial de geração de cerca de 4.500 empregos. A RAP corresponde à remuneração recebida pelas transmissoras pela disponibilidade da infraestrutura, independentemente do volume efetivamente transportado.
Linha entre Paraná e Santa Catarina e compensadores no Nordeste
O Lote 2 prevê a construção de uma linha de transmissão de aproximadamente 143 quilômetros entre Paraná e Santa Catarina. O investimento estimado supera R$ 193 milhões e o prazo regulatório para conclusão é de até 42 meses.
Já os sublotes 3A, 3B, 3C e 3D envolvem investimentos superiores a R$ 1,3 bilhão para implantação de cinco compensadores síncronos. Os equipamentos serão instalados nas subestações Ceará-Mirim II e Açu III, no Rio Grande do Norte, além de Quixadá e Morada Nova, no Ceará.
Segundo a companhia, esses equipamentos contribuirão para ampliar a estabilidade e a capacidade operacional do sistema elétrico. A previsão é que as obras sejam concluídas até 2029. Os contratos de concessão possuem duração de 30 anos.
Projeto Torre Águia recebe R$ 20 milhões
Além dos investimentos em expansão, a Engie lidera um projeto de inovação que busca desenvolver uma nova plataforma estrutural para linhas de transmissão de até 525 kV. A iniciativa, denominada Torre Águia, recebeu investimento de R$ 20 milhões e é realizada em parceria com a Engetower e a SAE Towers dentro do programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) da ANEEL. A conclusão está prevista para o final de 2027.
O projeto busca aumentar a capacidade de transporte de energia, reduzir custos de implantação, ampliar a eficiência operacional dos empreendimentos e mitigar impactos ambientais.
Segundo Labanca, a expectativa é que a Série Torre Águia contribua para ampliar a eficiência, a confiabilidade e a sustentabilidade das linhas de transmissão, consolidando uma solução tecnológica nacional com potencial de aplicação em futuros projetos.
Impacto dos investimentos no caixa da companhia
Ao Monitor do Mercado, Gustavo Labanca destacou os impactos dos investimentos no caixa da companhia. Segundo ele, “esses empreendimentos possuem previsibilidade de retorno, uma vez que são estruturados a partir de contratos de concessão de longo prazo, com receitas associadas à disponibilidade dos ativos. Dessa forma, os investimentos realizados contribuem para a construção de uma base de ativos sólida, com geração de valor sustentável ao longo do tempo”.
O executivo acrescenta que, no curto prazo, os projetos representam um ciclo de investimento e implantação de infraestrutura, com impacto relacionado ao avanço físico das obras e à alocação de capital.
“À medida que os empreendimentos entram em operação, passam a contribuir gradualmente para a expansão da geração de caixa e para o fortalecimento da performance operacional da companhia”, disse.
Engie aprova oferta de ações para incorporar participação na Jirau
A Engie Brasil informou nesta quarta-feira (10) que seu conselho de administração aprovou uma oferta pública de novas ações como parte da estratégia para incorporar uma participação de 40% na hidrelétrica de Jirau. A operação prevê que a Engie Brasil Participações (EBP), controladora da companhia e pertencente indiretamente ao grupo francês Engie, subscreva ações por meio da transferência dessa participação.
A fatia foi avaliada em R$ 5,74 bilhões, valor enquadrado no intervalo previsto pelo laudo elaborado pela Apsis Consultoria Empresarial.
A operação ainda depende do cumprimento de condições precedentes, incluindo aprovação dos acionistas em Assembleia Geral Extraordinária marcada para 2 de julho de 2026.
Na sessão desta quinta-feira (11), às 15h40 (horários de Brasília), as ações EGIE3 avançavam 3,43%, cotadas a R$ 34,38.
Operação busca apoiar novos investimentos
Segundo a companhia, a transação permitirá incorporar Jirau ao portfólio de geração da ENGIE Brasil. A empresa também afirma que a operação poderá levantar recursos para cumprir compromissos financeiros e apoiar projetos existentes e futuros. O Itaú BBA e o Santander Brasil atuarão como coordenadores da oferta.
A usina hidrelétrica de Jirau está localizada no rio Madeira, na região amazônica brasileira, possui capacidade instalada de 3.750 MW e tem entre seus acionistas a ENGIE, a Axia Energia e a Mitsui & Co.
Bancos avaliam operação
Segundo cálculos do Goldman Sachs, a operação implica um múltiplo EV/EBITDA de aproximadamente 10 vezes para 2025.
O Citi manteve recomendação neutra para a companhia, com preço-alvo de R$ 35 por ação. Na avaliação do banco, o valor atribuído à participação de 40% em Jirau implica uma taxa interna de retorno de 7,6%, considerando a manutenção dos incentivos fiscais da Sudam até 2037 e preço de energia de R$ 220 por MWh no longo prazo.
Já o Bradesco BBI classificou a operação como neutra a levemente positiva. Segundo o banco, há coerência econômica entre o retorno implícito de Jirau e o custo de capital percebido da ENGIE. A instituição também avalia que a participação dos acionistas minoritários e a flexibilidade para execução da transação, mesmo sem a incorporação, reduzem riscos de implementação e reforçam a disciplina financeira da companhia.
A ENGIE informou ainda que decidiu interromper a divulgação das projeções financeiras anteriormente fornecidas ao mercado.











