O deferimento do processamento da recuperação judicial do Grupo Toky (TOKY3), controlador da Tok&Stok e da Mobly, evidencia uma dificuldade estrutural, uma vez que o grupo já havia recorrido à recuperação extrajudicial há dois anos para renegociar aproximadamente R$ 641,6 milhões em dívidas.
Rodrigo Spinelli, advogado especialista em recuperação e reestruturação de empresas e sócio do BBMOV Advogados, explica que o avanço, agora, para uma recuperação judicial mais ampla demonstra que a primeira renegociação não foi suficiente para solucionar integralmente a estrutura de endividamento ou que a situação financeira e operacional voltou a se deteriorar.
“O desafio agora não se limita à obtenção de mais prazo para pagar credores, mas passa por uma reestruturação mais profunda do modelo de negócio”, avalia.
Na noite deste domingo (12), o Grupo Toky informou que o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo deferiu o processamento da recuperação judicial. A decisão determina que a companhia apresente, até o dia 30 de cada mês, relatórios sobre sua situação financeira e operacional, sob pena de destituição dos controladores e administradores.
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Spinelli destaca que essa decisão não representa a concessão da recuperação judicial nem significa que a Justiça reconheceu a viabilidade econômica da empresa. Segundo ele, houve apenas o deferimento do processamento do pedido, permitindo que o Grupo Toky permaneça em funcionamento enquanto apresenta seu plano de recuperação e negocia coletivamente com os credores.
Dívida do Grupo Toky supera R$ 1 bilhão
O Grupo Toky entrou com o pedido de recuperação judicial em maio de 2026, informando possuir dívida superior a R$ 1 bilhão. No pedido, a companhia argumenta que enfrenta um ambiente macroeconômico marcado por juros elevados, restrição ao crédito e elevado endividamento das famílias, fatores que reduziram a demanda por móveis e artigos de decoração.
Além desse cenário, os documentos encaminhados ao tribunal mostram que o grupo sofreu bloqueios de recebíveis de cartões de crédito que comprometeram aproximadamente R$ 77 milhões do fluxo de caixa.
Segundo a empresa, isso afetou pagamentos de salários, fornecedores, operações logísticas e o funcionamento das lojas físicas e plataformas digitais. Os documentos também apontam que cláusulas contratuais de vencimento antecipado poderiam provocar um colapso imediato das operações caso fossem executadas.
A recuperação judicial envolve todas as empresas do grupo: Mobly Hub, Mobly Serviços, Estok Comércio e Representações, Estok Distribuidora e Mobly Comércio Varejista.
Segundo a empresa, a inclusão de todas as sociedades decorre da interdependência operacional e financeira entre elas. O objetivo do processo é reorganizar a estrutura financeira e operacional do grupo, permitindo a continuidade das atividades enquanto negocia com credores e implementa ajustes estratégicos.
Empresa terá de prestar contas mensalmente à Justiça
Para preservar a continuidade das operações, a Justiça determinou que o Grupo Toky apresente mensalmente informações sobre fluxo de caixa, passivo extraconcursal e movimentações financeiras. O descumprimento da obrigação poderá resultar na destituição dos controladores e administradores.
O tribunal também suspendeu, por 180 dias, todas as execuções contra o grupo, exceto aquelas relacionadas a créditos não sujeitos à recuperação judicial, e nomeou um administrador judicial para acompanhar e fiscalizar as atividades da empresa durante o processo.
O tribunal também determinou medidas de proteção sobre bens considerados essenciais para a operação, impedindo penhoras, arrestos e sequestros que possam comprometer atividades críticas, como logística, fornecimento de energia e sistemas de tecnologia.
Juros pressionam o setor, mas não explicam toda a crise do Grupo Toky
Na avaliação de Rodrigo Spinelli, o ambiente de juros elevados, restrição ao crédito e elevado endividamento das famílias efetivamente pressiona o setor de móveis e decoração.
Segundo ele, são produtos de maior valor, cuja compra costuma ser adiada pelo consumidor e, em muitos casos, depende de parcelamento. Nesse cenário, ele explica, a empresa é impactada em duas frentes: o consumidor reduz as compras e o custo financeiro da própria operação aumenta.
Apesar disso, o especialista afirma que atribuir a crise apenas ao ambiente macroeconômico seria insuficiente. Os números do primeiro trimestre de 2026 mostram, segundo ele, uma deterioração também operacional.
No período, o Grupo Toky registrou prejuízo líquido de R$ 75,5 milhões, acima dos R$ 44 milhões apurados no mesmo intervalo do ano anterior, enquanto receita operacional líquida recuou quase 19%, para R$ 309,4 milhões.
Já o Ebitda, indicador utilizado para medir a geração de caixa operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização, caiu aproximadamente 73%, para R$ 14,2 milhões.
Para Spinelli, esses indicadores mostram que o problema não está apenas no elevado endividamento, mas também na perda da capacidade de geração operacional de caixa.
Recuperação dependerá da capacidade da companhia de voltar a gerar caixa
Segundo o advogado, as chances de recuperação dependerão menos da obtenção de deságios ou de prazos maiores para pagamento das dívidas e mais da capacidade de a companhia voltar a gerar caixa.
Na avaliação dele, o plano precisará apresentar medidas concretas para redução de despesas, revisão da estrutura de lojas, integração efetiva entre Tok&Stok e Mobly, racionalização da logística, fortalecimento dos canais digitais e preservação do capital de giro e dos fornecedores estratégicos.
Marcas do Grupo Toky são vantagem, mas não garantem sucesso
Spinelli avalia que o Grupo Toky possui ativos que podem favorecer o processo de recuperação. Segundo ele, Tok&Stok e Mobly são marcas reconhecidas nacionalmente, contam com canais de venda físicos e digitais e possuem ativos comerciais que podem ser preservados.
O advogado afirma ainda que a recuperação judicial cria um ambiente organizado de negociação e impede que cobranças individuais comprometam ainda mais a operação. Por outro lado, ele alerta que o principal risco é a empresa conseguir reestruturar o passivo financeiro e continuar acumulando prejuízos.
Na avaliação do especialista, a recuperação judicial só resolve o problema financeiro quando vem acompanhada de recuperação operacional. Sem aumento das margens, retomada das vendas e fortalecimento da geração de caixa, o processo poderá apenas adiar a crise.
Por isso, Spinelli considera que existe possibilidade concreta de recuperação, mas ressalta que ela não pode ser considerada automática apenas pela força das marcas.
“Os próximos indicadores que deverão ser acompanhados serão a qualidade do plano de recuperação, a entrada de dinheiro novo, o apoio dos principais credores e fornecedores e, principalmente, a evolução da receita, das margens e da geração de caixa nos próximos trimestres”, conclui.











