A forte valorização do dólar levou o iene ao menor nível frente à moeda americana desde 1986, reacendendo as expectativas de uma nova intervenção das autoridades japonesas no mercado cambial. Nesta terça-feira (30), a moeda japonesa chegou a 162,40 por dólar, superando a mínima de 161,96 registrada em julho de 2024 e aprofundando um movimento de desvalorização que dura anos.
A última vez que o iene foi negociado nesse nível ocorreu em um contexto completamente diferente. Naquele período, a moeda iniciava uma longa trajetória de valorização após um acordo cambial articulado pelos Estados Unidos. Agora, o cenário é inverso: a força do dólar e a diferença entre as políticas monetárias dos dois países mantêm a moeda japonesa sob intensa pressão.
A principal força por trás da desvalorização do iene é a perspectiva de uma política monetária mais restritiva nos EUA. Investidores passaram a ampliar as compras de dólares diante da expectativa de que o Federal Reserve (Fed) possa elevar os juros uma ou duas vezes ainda neste ano.
Essa percepção foi reforçada por indicadores recentes que apontam uma economia americana ainda aquecida. Dados de emprego, gastos do consumidor e confiança empresarial sugerem crescimento resiliente, enquanto as preocupações com a inflação relacionadas ao Oriente Médio sustentam a expectativa de manutenção de juros elevados por mais tempo.
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Com isso, os ativos denominados em dólar tornam-se mais atrativos, reduzindo a demanda pelo iene.
Alta dos juros não foi suficiente para conter pressão sobre o iene
A fraqueza da moeda japonesa persiste mesmo após a mudança de rumo da política monetária do Banco do Japão (BoJ). Depois de encerrar a política de juros negativos em 2024 — medida que alimentou expectativas de recuperação do iene —, o Banco Central elevou a taxa básica para 1% em 16 de junho, o maior nível desde 1995.
A decisão deu continuidade ao processo de normalização da política monetária após aproximadamente uma década de estímulos extraordinários. Em condições normais, juros mais elevados tendem a fortalecer a moeda de um país ao aumentar a remuneração dos investimentos locais. No entanto, esse efeito foi limitado no Japão.
As taxas de juros reais, descontada a inflação, permanecem baixas. Na avaliação dos analistas, o aperto monetário promovido pelo BoJ não acompanhou o avanço dos preços, reduzindo sua capacidade de sustentar uma valorização do iene.
Além disso, desde o outono de 2025, a moeda também passou a enfrentar pressão adicional diante da expectativa de que as políticas econômicas da primeira-ministra Sanae Takaichi favoreçam um ambiente de maior afrouxamento monetário.
O resultado é uma tendência de desvalorização que ganhou força em 2022 e já acumula perda de quase 30% frente ao dólar ao longo de quatro anos e meio.
Energia e investimentos externos contribuem para a fraqueza do iene
Além da política monetária, fatores estruturais continuam contribuindo para a fraqueza do iene. A alta dos preços da energia aumenta a necessidade de o Japão comprar dólares para financiar importações de petróleo e gás, produtos negociados na moeda americana.
Ao mesmo tempo, cresce o volume de investimentos realizados por famílias japonesas no exterior por meio das contas Nisa, programa que oferece incentivos fiscais para aplicações financeiras. Esse movimento amplia a demanda por ativos estrangeiros e, consequentemente, por dólares, reforçando a pressão sobre a moeda japonesa.
Mercado volta a apostar em intervenção cambial
A queda do iene elevou novamente as apostas de que o governo japonês poderá intervir no mercado de câmbio. Parte dos investidores passou a comprar a moeda antecipando uma eventual atuação das autoridades. Outros continuam apostando na continuidade da desvalorização.
Desde que o câmbio entrou na faixa de 161 por dólar, no fim de junho, essa disputa manteve o mercado em um longo período de estagnação.
As atenções também se voltam para o diálogo entre Japão e Estados Unidos. Em 22 de junho, a ministra das Finanças japonesa, Satsuki Katayama, reuniu-se virtualmente com o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, em meio às especulações sobre uma possível coordenação cambial. No dia seguinte, Katayama afirmou que Japão e Estados Unidos estavam prontos para adotar medidas decisivas, caso fosse necessário.
Também é esperado que o governo japonês defenda uma condução “apropriada” da política monetária em suas diretrizes econômicas básicas, movimento interpretado pelo mercado como uma tentativa de desencorajar novas altas de juros pelo Banco do Japão.
Intervenção recorde teve efeito limitado
A expectativa por uma nova intervenção ganha força porque a operação recorde realizada recentemente teve efeito limitado. Entre 28 de abril e 27 de maio, após o iene romper pela primeira vez o patamar de 160 por dólar, o governo japonês destinou 11,73 trilhões de ienes, o equivalente a US$ 72,5 bilhões, para tentar conter a desvalorização da moeda.
Dados das reservas do Ministério das Finanças indicam que essa operação provavelmente exigiu a utilização de parte dos ativos japoneses aplicados em títulos estrangeiros, incluindo títulos do Tesouro dos Estados Unidos (Treasuries), para financiar a defesa do iene.
Mesmo com esse volume de recursos, a moeda voltou a perder força. O episódio evidencia a dificuldade de enfrentar um mercado global de câmbio que movimenta aproximadamente US$ 9,5 trilhões por dia.
Exportadores ganham, mas inflação pressiona economia
A desvalorização do iene gera efeitos distintos sobre a economia japonesa. Para as empresas exportadoras, a moeda mais fraca aumenta a competitividade dos produtos japoneses no exterior e amplia os lucros obtidos em moeda estrangeira quando convertidos para iene. Esse efeito tem contribuído para levar o mercado acionário do país a níveis recordes.
Por outro lado, o enfraquecimento da moeda encarece as importações, especialmente de petróleo e gás, elevando os custos para empresas e consumidores. O repasse desses aumentos pressiona a inflação e encarece itens como alimentos e eletricidade.
O aumento do custo de vida tende a reduzir o consumo das famílias e pode ampliar a pressão política sobre o governo da primeira-ministra Sanae Takaichi.











