No Atlântico Norte, o navio científico JOIDES Resolution recuperou 1.268 metros de rochas do manto após perfurar abaixo do leito marinho. O testemunho quase contínuo revela como água e minerais reagem nas profundezas, liberam hidrogênio e registram a formação lenta da crosta oceânica moderna da Terra.
Por que o Maciço Atlantis permite alcançar rochas do manto?
O Maciço Atlantis é uma montanha submarina formada perto da Dorsal Mesoatlântica. Falhas tectônicas levantaram materiais normalmente escondidos sob a crosta, criando uma espécie de janela geológica onde rochas profundas ficaram mais próximas do fundo oceânico.
Essa configuração reduz a distância entre o navio e o manto superior. Em vez de atravessar toda a crosta oceânica, a perfuração começa sobre uma área dominada por rochas ultramáficas, ricas em minerais como olivina e formadas em condições muito diferentes das encontradas nos continentes.

Como a Expedição 399 alcançou 1.268 metros abaixo do leito?
O relatório da Expedição 399 registra que o furo U1601C chegou a 1.267,8 metros. O navio JOIDES Resolution usou uma coluna de perfuração para cortar o substrato e retirar cilindros de rocha, chamados testemunhos.
A recuperação total foi de 71% do material perfurado, com trechos acima de 90% nas zonas dominadas por peridotito. O resultado superou de longe o recorde anterior de 201 metros em um sistema rico nesse tipo de rocha e produziu uma seção extensa para comparação.
O que os cilindros retirados revelam sobre o interior da Terra?
Ao organizar os testemunhos, os cientistas acompanham mudanças de composição, deformação e alteração química ao longo da profundidade. As amostras mostram onde o manto derreteu, como o magma atravessou a rocha e em quais pontos a água do mar modificou os minerais.
Os principais registros preservados no material incluem:
- Fusão do manto: concentrações de magnésio e baixos teores de piroxênio indicam derretimento mais intenso que o previsto.
- Canais de magma: estruturas internas registram caminhos usados pelo material fundido em direção à superfície.
- Deformação tectônica: fraturas e zonas trituradas mostram como o maciço foi elevado e exposto.
- Alteração por água: minerais transformados guardam sinais de reações ocorridas durante a circulação de fluidos.

Como essas reações podem produzir hidrogênio?
Quando a água do mar entra em contato com a olivina, ocorre a serpentinização. Nessa reação, a rocha absorve água, muda de estrutura e pode liberar hidrogênio. Esse gás fornece energia química para microrganismos mesmo em ambientes sem luz e com poucos nutrientes disponíveis.
A Woods Hole Oceanographic Institution relaciona essas reações às condições da Terra primitiva. O material recuperado permite testar como hidrogênio, metano e moléculas orgânicas poderiam ter sido produzidos continuamente em sistemas hidrotermais semelhantes ao campo Lost City.
Por que esse testemunho continuará importante por décadas?
O valor do material não termina com a primeira descrição. Cada trecho preserva uma sequência geológica contínua, permitindo que diferentes equipes investiguem vulcanismo, circulação de fluidos, microbiologia profunda e ciclos de carbono e hidrogênio usando as mesmas amostras e a mesma referência de profundidade.
O testemunho também aproxima a ciência de uma região normalmente inacessível. Ao reunir 1.268 metros de rochas profundas, a Expedição 399 criou um arquivo físico do manto oceânico, capaz de conectar processos internos da Terra às reações químicas que sustentam ecossistemas e moldam a crosta.











